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Thursday, December 07, 2006

Pensamento: A oportunidade



"Imaginem um vasto oceano com um jugo dourado a flutuar à superfície. Nas profundezas do oceano nada uma única tartaruga cega que vem à superfície apenas uma vez em cada cem anos. Quando será que a tartaruga aparece à superfície com a cabeça dentro do jugo? O Buda afirmou que conseguir o precioso nascimento humano é ainda mais raro."

"O Caminho para a Felicidade", SS. Dalai Lama

Monday, November 27, 2006

Partilha: Como deixei de fumar

Deixei de fumar e de beber álcool. Provavelmente das incontáveis decisões que tomei em 32 anos de vida, estas duas, estão, indubitavelmente, no "top ten" das mais acertadas. Os resultados positivos ao nível da saúde, da mente, do espírito e das finanças não se fizeram esperar, são imeditados. Esta é uma realidade inquestionável. Em todo este processo observei alguns fenómenos que podem ser úteis para quem está a pensar em deixar de fumar. É unicamente com essa intenção que escrevo este texto e por acreditar, sinceramente, que se eu consegui, qualquer pessoa também pode conseguir, pois, acreditem não tenho uma força de vontade particularmente grande ou uma elevação de espírito fora do comum, bem pelo contrário.

Devo começar por dizer que não acredito que seja ideal deixar de fumar com reduções ou medicamentos. Tomar pastilhas, contar cigarros e coisas do género. Já tentei e não resultou. Para mim as reduções são como chegar a uma bifurcação e meter um pé em cada caminho. Não se vai a lado nenhum ou, na melhor da hipóteses, caminha-se devagar ao pé coxinho. Quando se tira um adesivo da pele, o ideal o que este saia o mais depressa possível. Também não acredito em medicamentos de substituição, exactamente pelo mesmo princípio, o de continuarem a injectar nicotina. O nosso corpo naturalmente sabe o que é melhor para nós. Se necessitássemos de nicotina para viver não teria deixado de fumar, nem estaria a escrever este texto.

É ridículo, depois de ter deixado de fumar, encontrar pessoas que têm uma autoconfiança muito maior do que a minha a dizerem-me que não possuem força suficiente para deixar de fumar. É um engano induzido na mente pela nicotina. Sempre que pensava, mesmo superficialmente, em deixar de fumar, a nicotina levantava-se e dizia-me exactamente a mesma coisa, que não iria conseguir, que não era capaz, o melhor é desistir da ideia o mais depressa possível, deixar as coisas como estão porque para deixar de fumar é necessário ter uma força de vontade enorme, algo que obivamente não tenho. É necessário ultrapassar esta mentira e olhar para a realidade de forma objectiva. Prova de que é mesmo uma mentira é que deixei de fumar. Qualquer ser humano é capaz de deixar de fumar. Durante muitos anos acreditei erradamente que não conseguia. É incrível como esta ilusão, esta mentira, do "não consigo, não é para mim", é tão poderosa. Milhares de fumadores com mais força de vontade do que eu ainda acreditam nela e, apesar de quererem deixar de fumar e de terem todas as capacidades para o fazerem, continuam a acender cigarros simplesmente por que esta mentira, como um pano negro, os impede de ver a força interior que na realidade possuem.
Não fumar vai de encontro à verdadeira natureza do corpo e da mente. O ser humano naturalmente não fuma. Deixar de fumar custa, exige esforço, mas a natureza está do nosso lado. Esse esforço não é tão grande quanto a nicotina nos faz acreditar. Ao longo do processo vamos tendo consciência disso mesmo. Ela exagera pois sente-se desde logo ameaçada. Sabe que a sua vida está em perigo, tenta proteger-se. Não está a pensar em nós, no nosso bem estar, mas no dela. Na verdade, o nosso bem estar, a nossa saúde passam precisamente pelo caminho oposto, por não fumar, por expulsar a nicotina do nosso organismo. Ela conhece o nosso verdadeiro poder, sabe que somos capazes, sabe a força verdadeira da nossa natureza e da nossa capacidade de escolhermos o melhor para nós próprios, sabe que temos todas as ferramentas e a força necessárias para deixar de fumar, para mudar de caminho. E isso assusta-a. Quanto maior é a nossa consciência do medo maior é a nossa capacidade de o vencer. A nicotina sabe disso, dai jogar com essa arma, esse trunfo, essa mentira, do não és capaz de me vencer, de me olhar nos olhos, de me expulsares de ti, do teu organismo. Na verdade, trata-se de um processo de purificação muito parecido com um exorcismo. A relação entre fumador e nicotina é de poder pela conquista e domínio de um espaço. A nicotina é tão inteligente que, em alguns casos, mexe com a auto-estima e com o ego do fumador, colocando como credível a possibilidade da nossa vitória, mas num futuro suficientemente distante e improvável para não termos de fazer nada e continarmos como estamos, convencendo-nos, por exemplo, que só com um grande susto, uma doença grave, é que seriamos capazes de deixar de fumar. Nada mais falso. As motivações para deixar de fumar são internas e não externas. Milhares de pessoas deixam drogas duras, superam situações bem mais complicadas, simplesmente por que se mentalizaram de que é necessário escolher a vida. Afinal quem manda em si? Na realidade, certamente já passou por situações objectivamente mais complicadas e difíceis, que exigiram esforços superiores ao de deixar de fumar. Deixar de fumar está ao alcance de qualquer pessoa. E antes de ser fumador, é-se a pessoa, esta é a primeira grande verdade que é necessário acreditar, interiorizar, mentalizar.

Estou convencido que o sucesso no deixar de fumar reside essencialmente na interiorização de factores internos (convicções e crenças) e não tanto em "coisas" externas (amigos, medicamentos). Num terramoto não é a pintura da fachada da casa que vai manter o edifício em pé, mas sim a profundidade e solidez dos alicerces. Então antes de deixar de fumar importa identificar as convicções que nos podem ajudar e servir de alicerces nos dias de tempestade. Para tal, basta olhar para a realidade como ela é e não como gostariamos que ela fosse.
Vamos reparar que na realidade o ser humano não foi feito para fumar. Ao deixar de fumar, a natureza está do seu lado. E é um aliado muito poderoso. O nosso corpo irá naturalmente expelir, expulsar a nicotina. Na realidade, o nosso corpo e a nossa mente não só não necessitam da nicotina, como também vivem ou ansiam viver muito melhor sem ela. Deixar de fumar é por isso um acto lógico, ajuda o nosso corpo e mente a encontrarem a harmonia e o equilibrio próprias da sua natureza mais profunda. Na verdade, nunca ninguém morreu por deixar de fumar, bem pelo contrário, milhares de pessoas, morrem diariamente precisamente pelo movimento oposto, por fumarem. Ao deixar de fumar está a ir de encontro à vida, à realidade mais básica e elementar da sua existência.

Tal como a primeira mentira do "não tens força para conseguir", quando deixei efectivamente de fumar, a nicotina começou passados 15 minutos a atirar-me com outra mentira: a pedir-me mais nicotina como esta fosse a coisa mais importante para mim, algo essencial para a minha sobrevivência. Tive logo vontade de acender um cigarro. Esta vontade é sinal que de se está no bom caminho. Na realidade, a vontade de fumar é um grito de desespero da nicotina que encostada contra a parede, vê que está a morrer e grita por ajuda. Esse grito materializa-se numa sensação de cobiça por mais nicotina. Se você a ajudar está desde logo a multiplica-lhe a força. Importa estar preparado para esta sensação, para estes gritos, pois ao vencê-los estamos a dar um passo muito importante, essencial mesmo, para nos libertarmos desse inimigo. Para vencer essa sensação de cobiça, em vez de ignorá-la, importa conhecê-la, olhar de frente para a sua verdadeira natureza. Na realidade, se pararmos um pouco e olharmos para essa sensação, tomamos consciência de três verdades que, para mim foram essenciais para deixar de fumar.
Primeira: a verdadeira natureza das sensações é serem impermanentes, serem passageiras, elas desaparecerem tão rapidamente quanto aparecem. O vontade de fumar não é excepção. A vontade de fumar, como cobiça, ergue-se como se fosse uma montanha intransponivél para passados apenas cinco ou dez minutos desaparecer e transformar-se num vale pleno de paz. Não vale a pena ceder a algo que cuja natureza é tão inconsistente, volátil, que aparece e desaparece passados apenas alguns minutos.
Segunda: quando observada objectivamente, para além de passageira, a natureza da vontade de fumar diminui de intensidade com o passar do tempo.
Terceira: o nosso organismo funciona naturalmente melhor sem nicotina e na realidade não necessitamos de fumar. Ninguém morreu por ter deixado de fumar, bem pelo contrário. O normal no ser humano é não fumar.

Para mim, estas três verdades fundamentais dos fenómenos sensitivos ajudaram-me bastante no processo deixar de fumar. Sempre que sentia vontade de fumar, limitava-me a olhavar para essa vontade e pensava que passados cinco minutos ela iria desaparecer. O que na realidade acontecia. Com o tempo, a vontade de acender um cigarro vai diminuindo. Se olharmos ainda mais fundo para a verdadeira natureza das sensações podemos ver que estas são apenas movimentos inconstantes e perpétuos de átomos, não são instrinsecamente agradáveis ou desagradáveis, nós é que desenvolvemos com elas relação de repulsa ou de apego.

No entanto, a nível mental, a nicotina ainda tem alguns trunfos e mentiras na manga, estes podem deitar tudo a perder. Depois de estar algum tempo sem fumar, como uma semana ou duas, a nicotina joga a sua última e poderosa cartada. "Agora que consegues controlar o tabaco podes certamente fumar um cigarro ocasionalmente, depois das refeições, por exemplo, que não vai passar nada. Podes até comprar uma marca de cigarros mais cara que o maço durará uma semana. Enfim, não gastas dinheiro nenhum e também não estragas assim tanto a saúde". Outra mentira. A do autocontrolo. Poderosa pois mexe com o "ego". É a inversão da mentira inicial, do não tens força para deixar de fumar. Agora a mentira é exactamente a oposta. Já tens força para controlar complemente a Nicotina. Mentira. Nesta fase, ainda não tens força para fazer tudo o que te apetece. A nicotina está a tentar inverter o processo da habituação para ver se consegue recuperar o terreno perdido e readquirir controlo da mente. É extremamente importante não ceder. Se despirmos esta sensação da sua forma e olharmos para o sua essência, o contéudo é exactamente igual à primeira mentira que nos veio à mente logo que pensamos em deixar de fumar: é cobiça por um cigarro. Resista à tentação de comprar um maço de tabaco e fumar. Nesta fase se voltar a acender um cigarro, este vai saber incrivelmente mal, pois o seu organismo está mais limpo, está a recuperar o seu equilíbrio natural. Se cair na tentação, lembre-se desse sabor desagradável que acabou de experimentar e do caminho que já percorreu. Se comprar maço atire-o fora. Tenha em mente esse sabor desagradável. Nunca mais o vai querer dentro do seu organismo. No seu corpo quem manda é você e não o cigarro. Tendo sempre presente a verdade da impermanência das sensações, certamente conseguirá deixar de fumar. É algo que está ao alcance de todos. Força. Só está derrotado quem não tem coragem para dar o primeiro passo.

Tuesday, November 21, 2006

Pensamento: A verdadeira vida


A verdadeira vida só pode encontrar-se no momento presente mas o nosso espírito raramente reside nele. Em vez disso, lembramo-nos do passado e ansiamos pelo futuro. Temos uma ideia sobre nós próprios mas raramente estamos em contacto connosco. O nosso espírito está demasiado ocupado pelas recordações do passado e os planos para o futuro. A única maneira de entrar em contacto com a vida é voltando ao momento presente. Quando souberes residir no momento presente serás um iluminado e terás encontrado a tua verdadeira casa.
Buda

Friday, October 27, 2006

Maitena: os pensamentos das mulheres

Depois dos 40 o sexo tem menos tabús. Sente-se mais, pensa-se menos. Depois de ler a interessante entrevista de Márcio Resende à escritora/desenhadora argentina Maitena, publicada na "Única" desta semana, senti-me novamente feliz por ser homem e gostar cada vez mais de mulheres. Vivo há mais de sete anos com uma. É um ser maravilhosamente diferente de mim, uma prova cabal da existência de Deus, do bom e do belo.
No entanto, primeira grande questão que se coloca é: Quando uma mulher conversa com um homem e lhe conta um problema sério, ela quer dele uma solução ou simplesmente um ouvido?
Segunda grande questão: Quando uma mulher diz qualquer coisa, nós (homens) devemos entender o que ela disse ou o que ela quis dizer? Como e quando colocar os duplos sentidos?
Enquando a resposta à primeira questão parece óbvia. O que ela quer é mesmo um ouvido para desabafar. Quer ser entendida. Para nós homens a coisa é um pouco mais complicada. O instinto protector ergue-se, misturado com o ego e alguma vaidade, "afinal, de todos os machos desta selva, é comigo que ela está a desabafar", sentimos logo uma necessidade de a proteger, numa espécie de sindroma de "super-homem", queremos revelar toda a nossa força "sobrehumana claro" e, com um estalar dos dedos, resolver problema que tanto a aflige. "Tás a ver, viver comigo é assim, estás protegida de todo e qualquer problema. Nem tsumanis te conseguem tocar." Naturalmente, o leque de reacções masculinas ao desabafo feminino pode ir bem mais longe do que a do "protector", mas parece-me que esta é a mais primária e comum de todas. Estar simplesmente calado e ouvir o problema sem dar soluções, sem abrir a boca, é o grande desafio e simultaneamente a melhor solução...
A segunda questão, essa é um dos grandes enigmas da vida tal qual a conhecemos. O ideial é entender o que ela quis dizer e não o que disse, mas saber colocar os duplos sentidos na hora certa e no lugar certo requer uma sensibilidade e atenção absolutamente invulgares para o homem comum. Quem as possuir tem mais de metade dos problemas conjungais resolvidos. Naturalmente que, aos fins-de-semana, podemos continuar a ver alguma bola na televisão, (note-se escrevi alguma, não toda), mas tentar entrar dentro dos gostos, ambições e pequenos prazeres femininos pode ser um desafio mais interessante do que à partida parece. Neste campo, os gays já levam metade do trabalho de casa já feito, daí tanto sucesso e admiração com o sexo oposto. Mas, como em tudo na vida, é no meio que está a virtude. Até por que, aos domingos, é mais fácil sofrer com o glorioso do que ir à Timtoreto ou à Mango. Mas há sacrifícios que repetidos muitas vezes se tornam prazeres e, no final do dia, a recompensa é mais intensa e positiva do que as bolas à trave do Nuno Gomes.

Sunday, October 22, 2006

Meditação Vipassana: uma descoberta

Estive algum tempo ousente do mundo. Fui fazer um retiro. E que retiro. Deu mesmo para pôr algumas coisas em ordem. O curso de 10 dias de mediatação Vipassana foi para mim uma revelação. Uma das maiores da minha vida. Não foi fácil, e ainda bem, o final é bem mais recompensador. Apesar de ter alguma, pouca, experiência meditativa, orientada pelo Bal Krishna, no PazPazes, aqui no Porto, o silêncio dos dez dias e as generosas horas de meditação e a técnica vipassana trouxeram muita coisa à tona. Libertei-me de alguns complexos e nós que a minha mente guardava há já alguns anos. Penso que o meu ego sofreu um pouco durante este processo, mas ainda bem, ele merecia. Com o encerramento d´"O Comércio do Porto", o ter de sair temporariamente da minha área do jornalismo para "ganhar a vida", muita coisa se agitou dentro no meu grande "ego". O grande jornalista Anastácio Neto, que esteve a beber copos com os Radiohead no Anikibobó, na Ribeira, e ganhou prémios de melhores coberturas jornalísticas, de repente está desempregado, não é impossível. A vida é uma grande licção. Depois de ter deixado de fumar, beber, este ano, felizmente ganhei alguma coragem, a outra foi-me emprestada, e atirei-me de cabeça para a meditação vipassana. Os resultados são surpreendentes. Recomendo. Vou incluir o link da secção portuguesa de meditação vipassana neste blog. Be happy :)

Sunday, September 03, 2006

O Alquimista da Aldeia


António Fontes caminha devagar. Gosta de sentir a calma das árvores e o cheiro da terra. É um ser telúrico. um homem da aldeia, um guardador de rebalhos. A sua aldeia é o mundo, as suas ovelhas são as tradições e a identidade popular de Montalegre. Ficou conhecido por organizar o Congresso de Medicina Popular em Vilar de Perdizes, mas por detrás dessa "imagem de marca" existe um ser detentor da sabedoria profunda do tempo e da magia serena e simples unicamente acessível a quem consegue ver Deus nas pequenas coisas.
"Vejo-me como um homem da aldeia". Uma aldeia onde rituais, preces e festas se misturam com o árduo trabalho do campo e com a aspereza rude do clima transmontano. António Fontes nasceu numa aldeia, Candezes do Rio, vive em Vilar de Perdizes e não troca a sua aldeia por nenhum palácio dourado. Recebe os amigo com presunto no verão e castanhas no inverno. É genuíno, sereno e gosta de pequenos rituais como a "queimada". Coloca o açucar no fundo do pote, rega-o com bagaço e incendeia-o. Depois verte lentamente um fio de vinho tinto, espreme umas gotas de limão e introduz, com uma atenção e cuidado cirúrgicos, pedaços de maçã e um ponhado de grãos de café. As chamas purificadoras elevam-se no ar e transformadas numa cascada de fogo subtraem ao espírito a malignidades indesejada, adicionando ao corpo a vitalidade necessária para enfrentar a dureza de mais uma jornada.
O padre Fontes gosta de servi e de ser para os outros uma extensão, uma elo e um sinal de Deus. Gosta de gerar comunhão numa utilidade ritualizada em cada gesto em cada palavra. Ao realizar "a queimada" esbatem-se as ténues fronteiras entre sagrado e profano. "O que é tido como sagrado é muitas vezes metido entre paredes e lugares sagrados, como é o caso de igrejas, capelas ou santuários, mas o sagrado passa para fora desses espaços. Existe sagrado misturado com o profano, que é o sagrado da rua, dos cafés do trabalho, e que vai com o homem e a onde está o homem está Deus", afirma.
A sua paixão pelos rituais presentes na sabedoria do quotidiano da gente simples acompanhou de mão dado o seu desejo de ser sacerdote, desde tenra idade. Aos 19 anos, ainda no seminário de Vila Real, dinamizava, paralelamente aos ritos comuns, actividades semi-ocultas, semi-públicas, semi-privadas, semi-legais que lhe custaram a expulsão. "Uma festa sagrada - explica - é composta por partes profanas e a fasta profana é composta pelo seu inverso. Acharam que eu fui a parte profana e não a parte sagrada". Convidado a reentrar, sentiu um novo alento e uma nova confiança . Prosseguiu os seus estudos de teologia e abraçou o sacerdócio em 1961. "Optei por continuar no seminário com esta olusão de fazer da Igreja uma Igreja mais viva."
Actualmente dedica-se a promover, divulgar e interpretar a cultura popular da região de Montalegre, que permanecia esquecida no anonimato. Na realidade, ninguém tinha falar de Vilar de Perdizes até o padre Fontes organizar os polémicos e mediáticos congressos de medicina popular que lhe valeram algumas repreensões por parte do episcopado, nada a que desde jovens já não tivesse habituado. "Aproveitei os congressos - diz - como um trampolim para revitalizar a aldeia e para chamar a atenção da opinião pública para uma zona carenciada e abrir as portas ao mundo para aquela zona através da cultura popular."
Uma cultura presente nas gentes que pisam o chão da sua aldeia. O padre Fontes é um homem que olha para o mundo como "o espaço onde Deus habita e o homem coabita" e vê em Deus uma paragem obrigatória ruma à felicidade. "Se o homem descobre que o mundo está habitado por Deus pode fazer o paraíso na Terra, se não descobre Deus faz o inferno para ele e para os outros", afirma. Mas descobrir Deus num mundo cada vez mais complexo não é tarefa fácil. A nossa aldeia global tem múltiplas cidades e guetos, tem labirintos de alienação, egos do tamanho de catedrais e mensagens trocadas, obstáculos que ocultam o divino, escravizando o humano. "Há mais tentativas para ocultar o divino do que para o mostrar. É necessário parar um pouco, olhar para o caminho e ver se vale a pena ir."
Gosta de ler e de sentir. Gosta de aprender. Actualmente tem entre mãos uma tese de mestrado em comunicação social para avaliar. Foi convidado como júri pela Escola Superior de Jornalismo do Porto. Livros de cabeceira não tem. Não gosto de ler na cama, mas de vez em quando pega, pega em três livros italianos sobre a etnografia dos Alpes e lê excertos até que o sonho vença e acabe por adormecer. Os seus temas preferidos giram em torno da etnografia, antropologia, sociologia e religião popular.
O padre António Fontes tem 61 anos e é um homem da aldeia, um guardador de rebalhos. A sua aldeia é cada vez mais o mundo, e as suas ovelhas as tradições. Retira da Terra e do Céu a essência das coisas simples em rituais feitos de alteridade, alquimia e muita fé.

Tuesday, March 14, 2006

Memória

A memória é uma corrida contra o tempo. Seduz-me a incerteza do amanhã.

Monday, February 20, 2006

Visita de Amigo

Tenho andado triste. Na verdade, há muito tempo que não escrevo no "vício", nem corro atrás de eventos culturais. Após o encerramento do "Comércio" uma nova fase se abriu na minha vida. Tenho meditado bastante nas curvas da existência. Acredito que temos de passar por algumas dificuldades para valorizarmos pormenores que passam ao lado na espuma dos nossos dias felizes. Os momentos difíceis possuem o dom de ciclicamente filtrarem o essencial do acessório. Actualmente, encontro-me num processo de "filtragem".
Todo o homem procura a felicidade. Existem ricos tristes e pobres contentes, gente doente com amor à vida e tranquilidade no olhar, pessoas saudáveis com olhos de medo e lágrimas escondidas. Acredito na felicidade enquanto trabalho interior. Conheci centenas de jovens no Perú oriundos de famílias com problemas sociais gravíssimos, mas com uma energia e força de viver impressionantes e "burgueses/narcisos" no Porto anestesiados com o seu reflexo no espelho, incapazes de sair de casa para serem qualquer coisa para além de uma imagem.
Acredito que cada ser humano tem um dom. Importa descobrir qual e colocá-lo ao serviço dos outros. Desistir de viver de acordo com as nossas qualidades é colocar a nossa felicidade em "stand by". Devemos aproveitar os nossos pontos fortes.
Gosto de escrever, de ser jornalista, de conhecer pessoas e divulgar arte, ajudar gente com talentos especiais na música, cinema, teatro. Nem sempre tenho oportunidade de o fazer. Por vezes, a vida obriga-nos a recuar um passo, certamente vou ganhar balanço para avançar dois. Necessitamos de não perder o optimismo, o cheiro dos sonhos e a autoestima de crianças apaixonadas.
PS: Ontem tomei café com um amigo. Nuno gostei tanto de te ver. Um abraço. Braga não fica assim tão longe.

Wednesday, November 02, 2005

Pensamento

"A vida é demasiado curta para ser pequena."

Thursday, July 07, 2005

Infantilização da estética feminina - parte II

Post conclusivo ou/e em aberto, tendo em conta a discussão gerada pelo original, "Infantilização da estética feminina", remeto para possíveis análises complementares, que derivaram parcialmente do "input" sobre estética/consumismo, para o excelente artigo "Consumismo" publicado no cinecultura.

Thursday, June 30, 2005

Infantilização da estética feminina

Parece-me deplorável a forma obscena como a cultura pop audiovisual infantiliza a identidade estética da mulher pós-moderna. Estou cada vez mais cansado de me cruzar na rua e no trabalho com mulheres e jovens vestidas como "teenagers" ou crianças de umbigo à mostra. Não há nada mais ridículo do que ver uma mulher adulta a querer fazer-se passar por uma criança, num combate perdido contra as mazelas por vezes charmosas do tempo. Da indústria cosmética aos modelos das novas séries televisivas "Made in EUA", passando pelas fotografias cor-de-rosa depositadas em formato de revista encima das mesas de um qualquer cabeleireiro ou dentista, as mulheres modernas parecem-se, infeliz e lamentavelmente, com as suas filhas adolescentes.

Sunday, April 03, 2005

Pensamentos sobre morte e apego


"Death of Marat II", Edvard Munch, 1907 Posted by Hello
A pessoa que mais amo no mundo perdeu recentemente o pai. Há 16 dias precisamente. A perda e o luto são, estão a ser, naturalmente, violentíssimos. Ao tentar, toscamente, ser farol e abrigo em noites de tempestade negras e frias, frequentemente penso no meu próprio pai. Como, apesar dos seus 69 anos e dos mais de 300 quilómetros que nos separam, ainda o contemplo com o ser imortal e omnipresente. Como mais tarde ou mais cedo irei inevitavelmente passar pelo mesmo processo e sentir uma dor assim de forte, de insana, de arrebatadora. Há dias li um texto budista que versava sobre a impermanência. "Todos os encontros acabam inevitavelmente em separações". Frase tão pragmática como autêntica. Na verdade, começamos a morrer no dia em que nascemos. As lágrimas que choramos não são pela pessoa amada que partiu, mas sim por nós próprios, pelo facto de perdermos a presença física de alguém que julgávamos que nos pertencia. Quanto mais cedo tomar consciência da impermanência de tudo o que me rodeia, mais depressa me aproximo do verdadeiro conhecimento dos fenómenos e de uma felicidade inabalável e independente dos factores externos. O problema é que sinto que ainda não dei o primeiro passo, que se perdesse o meu pai, apesar de todo o tempo e distância que nos separa, tenho a certeza que iria achar a maior injustiça do mundo se abateu sobre mim, sentir uma dor insuportável e chorar noites longas, negras e frias de uma solidão imensa...

Tuesday, March 29, 2005

Pensamento


Posted by Hello

"Só se consegue amar alguém quando não se necessita do amor dessa pessoa", Tsering Paldron

Wednesday, March 23, 2005

Apego e sofrimento


Vasily Kandinsky, Composition 8, Julho 1923.
Posted by Hello

O luto de alguém que amo levou-me a refletir sobre o apego e a forma como nunca estamos preparados para deixar partir a pessoa amada ou o objecto da nossa afeição. Todos os encontros nesta vida acabam inevitavelmente com uma separação. Quanto mais profunda e antecipadamente tomarmos consciência desta impermanência menos estamos sujeitos ao sofrimento...

Sunday, February 06, 2005

A Prisioneira de Lhasa

A Prisioneira de Lhasa livro de Daniel Laeng e Philippe Broussard
“Ao cabo da primeira semana, a pequena foi submetida a, pelo menos, três interrogatórios diários. Os seus onze anos eram indiferentes; bem pelo contrário, os guardas pretendiam humilhá-la, marcá-la para a vida, precisamente porque ela era jovem, ainda «recuperável», pelo menos em teoria. Como explicar de outra forma o seu furor? Espancada com latas de conserva, desancada com a ajuda de bastões eléctricos...”(p.94)
Philippe Broussard (jornalista no “Le Monde”) e Danielle Laeng (representante do Comité de Apoio ao Povo Tibetano) uniram esforços na elaboração da biografia de Ngawang Sangdrol, símbolo de resistência no Tibete.
Numa época em que Portugal vive um auge de compaixão pelo povo asiático, penso ser muito relevante a leitura deste livro como forma de consciencialização para outros sofrimentos, não mais pequenos, vivenciados nesse mesmo continente. Anexado pela China há mais de quarenta anos, o Tibete continua a ser vítima de uma política de anexação centrada sobretudo na força de um poder e autoritarismo tolerados pelo mundo ocidental que prefere a não interferência na política interna de uma grande potência económica. Refugiados no norte da Índia, a maior parte de comunidade tibetana luta, no exílio, pela sobrevivência da sua cultura que tem como traço principal o pacifismo e como base religiosa a compaixão por todos os seres. A Prisioneira de Lhasa relata a vida de uma monja budista feita prisioneira pelas autoridades chinesas por defender os direitos de um povo ameaçado de extinção: o povo tibetano.