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Thursday, April 28, 2005

"Ausência"

Mal te deixo,
continuas em mim, cristalina
ou trémula,
ou inquieta, por mim mesmo ferida
ou cumulada de amor, como quando os teus olhos
se fecham sobre o dom da vida
que sem cessar te entrego

Meu amor,
encontrámo-nos
sedentos e bebemos
toda a nossa água e o nosso sangue,
encontrámo-nos
com fome
e mordemo-nos
como o fogo morde,
deixando-nos em ferida

Mas espera-me,
guarda a tua doçura
Eu te darei também
uma rosa.


"Os Versos do Capitão", de Pablo Neruda, trad. Albano Martins, Ed. Campo das Letras

Wednesday, February 16, 2005

Pedro Mexia, Manuel António Pina e Plaza no TCA

Sugestão para amanhã à noite, dia 17, episódio "Óculos Azuis, Mundo Azul" das Quintas de Leitura, no Teatro do Campo Alegre, no Porto. Poesia de Pedro Mexia pelas vozes de Filipa Leal, Náná Menezes e Pedro Lamares; Manuel António Pina à conversa com o escritor e numa segunda parte descarga pop a cargo dos Plaza. Ponto de encontro café-teatro do TCA, na rua de todas as estrelas, a partir das 21h30...

Sunday, February 06, 2005

A Prisioneira de Lhasa

A Prisioneira de Lhasa livro de Daniel Laeng e Philippe Broussard
“Ao cabo da primeira semana, a pequena foi submetida a, pelo menos, três interrogatórios diários. Os seus onze anos eram indiferentes; bem pelo contrário, os guardas pretendiam humilhá-la, marcá-la para a vida, precisamente porque ela era jovem, ainda «recuperável», pelo menos em teoria. Como explicar de outra forma o seu furor? Espancada com latas de conserva, desancada com a ajuda de bastões eléctricos...”(p.94)
Philippe Broussard (jornalista no “Le Monde”) e Danielle Laeng (representante do Comité de Apoio ao Povo Tibetano) uniram esforços na elaboração da biografia de Ngawang Sangdrol, símbolo de resistência no Tibete.
Numa época em que Portugal vive um auge de compaixão pelo povo asiático, penso ser muito relevante a leitura deste livro como forma de consciencialização para outros sofrimentos, não mais pequenos, vivenciados nesse mesmo continente. Anexado pela China há mais de quarenta anos, o Tibete continua a ser vítima de uma política de anexação centrada sobretudo na força de um poder e autoritarismo tolerados pelo mundo ocidental que prefere a não interferência na política interna de uma grande potência económica. Refugiados no norte da Índia, a maior parte de comunidade tibetana luta, no exílio, pela sobrevivência da sua cultura que tem como traço principal o pacifismo e como base religiosa a compaixão por todos os seres. A Prisioneira de Lhasa relata a vida de uma monja budista feita prisioneira pelas autoridades chinesas por defender os direitos de um povo ameaçado de extinção: o povo tibetano.

Thursday, January 20, 2005

Literatura: 82º aniversário de Eugénio de Andrade

Acabo de chegar a casa vindo da Fundação Eugénio de Andrade, aqui no Porto, onde há poucas horas atrás se celebrou o 82º aniversário do poeta. A ocasião foi oportunamente aproveitada pelo Centro de Estudos Comparatistas, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, para editar o nº 5 da revista "Textos e Pretextos", integralmente dedicada à vida e obra de Eugénio de Andrade. Num auditório completamente esgotado, após a vertente académica de apresentação da excelente publicação, a cargo de Rosa Maria Martelo, poetas consagrados, como Manuel António Pina ou Jorge Sousa Braga, e jovens talentos, Rui Lage e Filipa Leal, emprestaram voz à lírica de Eugénio de Andrade recitando poemas e confessando a admiração, respeito e amizade que os une à vida e obra de um dos escritores mais influentes da literatura portuguesa do século XX. Tive, naturalmente, a oportunidade de conversar com algumas das figuras presentes e testemunhar que, para além da habitual troca de galhardetes entre habitantes da mesma "tribo", triunfou uma troca de afectos, experiências e memórias que unem o poeta a uma parte bastante significativa da força intelectual da cidade do Porto. Arnaldo Saraiva, como presidente da Fundação Eugénio de Andrade, presidiu à cerimónia, confessando, no final, que este encontro geracional de autores acaba por manifestar que "apesar da saúde do escritor se encontrar débil, a obra do poeta está viva e com boa saúde".
Destaque final, para a publicação "Textos e Pretextos", dirigida por Margarida Gil dos Reis. Neste nº 5, sob coordenação de José Pedro Ferreira, os estudiosos de literatura têm a oportunidade de encontrar um manancial bibliográfico, passivo e activo, absolutamente incontornável para futuras investigações e um série rigorosa de sete ensaíos sobre as grandes temáticas em torno da obra de Eugénio de Andrade, dos "lugares marítimos", de Rute Beirante, a "plantas, frutos, e animais", de Ricardo Paulouro, passando pela "forma de pensar a sexualidade", de Paulo Simões Mendes. Para além, de poemas e cartas manuscritas e uma completíssima cronologia, os interessados em penetrar no universo de Eugénio de Andrade têm ainda à sua disposição um conjunto de testemunhos sobre o impacto da obra do poeta da autoria de figuras das artes e letras como António Lobo Antunes, Mário Cláudio, Ângelo de Sousa, e Nuno Júdice, entre outros.

Friday, January 14, 2005

Quintas de Leitura com mais música em 2005

O Teatro do Campo Alegre (TCA) acolheu "Duelos ao Sol", a primeira sessão das Quintas de Leitura deste ano. Assisti, resisti e dirigi com satisfação o espectáculo não só pelas propostas poéticas a duas vozes, como também, e sobretudo, pelo brinde Ana Mar e J. P Simões. No final, conversei com João Gesta e com o Belle Chase fora do Hotel. Deixo algumas pistas para o cartaz 2005, que promete, desde já, reforçar a aposta na música "made in Porto". O confronto entre escritores consagrandos com nomes menos conhecidos da arena literária prossegue ao longo do ano, enquanto o formato das entrevistas parece morto e enterrado.
Produzido pela Caixa Geral de Despojos, projecto "resindente" do TCA, a proposta "Duelos ao Sol" triunfou, num primeiro momento com a dupla Filipa Leal e Naná Menezes a navegar sobre a maré surreal de Alexandre O´Neill, depois com Sandra Salomé e Pedro Lamares a recitarem extractos das "Três Cartas da Memória das Índias" de Al Berto, e finalmente, na descarga poética central do espectáculo, com Isaque Ferreira e Daniel Maia-Pinto Rodrigues algures entre o lírismo de Fausto e a "América" desconcertante de Ginsberg. J. P. Simões e Ana Deus fecharam uma noite com temas adaptados: "Se Por Acaso", "Vestido Vermelho" e "A Lenda do Homem Pássaro". Sessão nutritiva, equilibrada, satisfatória, sobretudo, criativa e audaz.
Quando às novidades das "Quintas" para este ano ficam alguns avisos à navegação. Já em Fevereiro os Plaza, com Quico Serrano ao leme, atacam com pop textos de Pedro Mexia; em Março, mês Reininho, o público pode contar com presença do GNR e as ballas de Armando Teixeira. No mês seguinte, num dos espectáculos a não perder, Vítor Rua e Nuno Rebelo dão música ao corpo de Vera Mantero, com a obra "Investigações Geométricas", de Gonçalo M. Tavares a conhecer a luz do dia. Finalmente, em Maio, José Luís Peixoto regressa às "Quintas" para celebrar o 5º aniversário do nascimento de "Morreste-me" com concerto a cargo do excelente Old Jerusalem. A encerrar o semestre, a Caixa Geral de Despojos propõe o audacioso "T3+Rum", uma descaga de álcool e poesia a ocupar um dos apartamentos do TCA.

Friday, December 17, 2004

Atmosferas nas Quintas de Leitura ´04

Indubitavelmente um dos mais interessantes e criativos projectos sobreviventes da Porto 2001 e, mais recentemente, do Euro 2004. As "Quintas de Leitura" no Teatro do Campo Alegre evitam operações plásticas com ou sem botox de outras celebridades ainda por (re)conhecer, desenhando momentos e atmosferas poéticas mais ou menos nobres numa cidade geneticamente lírico-depressiva. Com Nuno Júdice do topo da lista para os oscarizáveis da colheita 2004, ontem o evento encerrou a estação com a modesta proposta "Autógrafo, autocolantes", uma antestreia literária a editar em Janeiro pela Quasi, do encenador/actor Paulo Campos Reis. Nota mais para o pronto-socorro Ana Deus e o dimanismo competente e criativo de Alexandre Soares. Entre saudosos Tigres à beira do suicídio e recordações de Canijo numa desconcertante "Noite Escura", com criadora Regina Guimarães sempre à espreita, a componente musical acabou vencer a poesia, num duelo a evitar.
Em final de estação, conversei com João Gesta, confrontei memórias passadas e futuras, entre merecidos aplausos e confessadas angústias, pedindo num balanço anual e uma antevisão 05. Nos próximos dias revelarei mais detalhadamente algumas das novidades projectadas para a versão ´05, destacando, para já, em forma de "teeser" a presença de Vítor Rua, que, registe-se, este ano ofereceu um dos melhores concertos realizados no Porto, no espaço Contagiarte, que infelizmente passou ao lado dos "media" das especialidade, provavelmente destraídos com as festas de aniversário no Coliseu ou com as pop-stars do Atlântico.
Pelo caminho 04 entre poetas e músicos, recordo noites mal aproveitadas de Lúxuria e algum Canibalismo, momentos sonoros únicos e geniais com os "Uivos" de Adolfo e a Mesa bem posta de JPSimões. Registe-se ainda as descargas líricas de José Luís Peixoto em conversas off tipo Sic Radical.
Em noite de até para o ano fica um sinal mais para o cocktail nutritivo servido nas "Quintas" entre poetas novos a novos poetas passando por autores consagrados, sobra quase sempre boa música num dos espaços mais criativos e interessantes da cidade do Porto. Uma espécie "best of" do Pinguim com o olhar cultural virado para uma paisagem além Rio e Douro.

Wednesday, November 24, 2004

AMIarte: Amor no Labirintho

Quando os sentimentos são belos encontram-se em noites de beleza mágica.
Foi no Bar Labirintho. Primeiro falei com o Zé Carlos, (o Tinoco) que ficou encantado. Convidei-o a visitar a Delegação Norte da AMI (Assistência Médica Internacional), ele aceitou e aí surgiram logo mil ideias para o projecto AMIarte. Bom, depois surgiu o encontro com o Filipe (d'O Contador de Histórias). Pelo telefone ficou claro que há almas que têm que se encontrar um dia e ficarão firmemente unidas. O auge foi mesmo naquela segunda-feira fria, fria no Labirintho. Contrariamente ao habitual, havia consumo obrigatório (claro, o propósito é angariar fundos para a AMI, tirar os Sem Abrigo da rua, dar-lhes roupa, alimentos, calor humano... e para isto a boa-vontade também se constroi com dinheiro, a ingenuidade fica para os loucos!...) O jantar no Triplex foi muito bom; ao sabor dos alimentos juntava-se a alegria de um projecto solidário. A seguir o Labirintho. Os pequenos detalhes da luz, o som, a melhor maneira de distribuir as revistas da AMI, o que se deveria dizer à porta ... A seguir foi esperar ... Os primeiros clientes entravam com a revista na mão, um sorriso tímido e olhar expectante. Depois, pareciam aparecer aos magotes, muitos, muitos até não haver espaço sentado. Começaram a preencher todos os sítios livres onde um desnível pudesse servir de suporte. A escadaria estava bonita enfeitada pelas raparigas sorridentes. As bebidas começaram a circular. À porta, eu aconselhei "quanto mais consumirem, mais oferecem à AMI..." "Que bom, então hoje quero-me embebedar", dizia um jovem com ar traquina. As 23 horas chegaram. Esperamos ainda um pouco mais. O Zé Carlos um pouco nervoso. O Filipe a precisar de um café duplo "é sempre assim, preciso de um café duplo e de reler tudo outra vez, embora tenha a certeza que conheço o Príncipe Feliz de cor e salteado" Oscar Wilde vinha mesmo a calhar. Nem de encomenda. A solidariedade para com os socialmente não aceites...
Começou. A música parou. A voz quente do Zé Carlos inaugurou a noite. Apresentou o projecto AMIarte (um pequeno núcleo do Porto que coloca a Arte ao serviço da AMI), a seguir apresentou o Filipe Lopes e começou. A noite abriu com o conto de Oscar Wilde. A estátua do Príncipe Feliz com o coração partido e a andorinha morta aos pés. Os dois corações fundidos na brasa do Amor, da Compaixão (sinónimos para quem possui elevação de alma). Tal como anunciado, o Filipe não leu o conto, nem o dramatizou. Sem leitura nem dramatização, mas uma síntese, uma simibiose de sentimentos que contagiam, se entranham e rasgam véus da indiferença. As lágrimas do público não manifestavam emoções fugazes de melodramatismo, mas simbolizavam as pérolas e rubis arrancados da estátua para dar de comer ao povo da Terra do Príncipe Feliz, eram jóias mais preciosas que as de qualquer reino ou Estado, as lágrimas que correram na noite de segunda-feira no Labirintho era as jóias do sentimento da Compaixão (ou Amor). O Juca manipulou sentimentos com a mesma destreza com que manipula as teclas, ora Paso Doble, ora Tocata e Fuga de Bach, para se transformar em samba e acabar em lamento de jazz. Os aplausos eram sinceros. O Filipe olhava para mim "O que é que faço agora?", perguntou-me; "Não trouxeste poemas? Lê alguns poemas", aconselhei. E o Zé Carlos anunciava os poemas do Filipe. Pablo de Neruda, Álvaro de Campos, José Régio, Filipa Leal... alternadamente O Zé Carlos e o Filipe gritavam, gemiam, choravam os versos arrebatando a audiência. Ninguém queria arredar pé. A magia da noite sobrepunha-se ao cansaço. No fim, todos nos abraçávamos e beijávamos. Correra bem esta primeira experiência. Primeira de muitas, comprometeram-se ambos publicamente na despedida. Aplausos para eles, aplausos para o trabalho do grupo AMIarte, aplausos para o público que aderiu e participou neste projecto ambicioso de mostrar ao mundo que a solidariedade e o amor existem.
Escrito por isabel de http://isabelbodhisattva.blogs.sapo.pt/

Thursday, November 11, 2004

"Sexo, Noitadas e Rock n´Roll"

"Emborcar seis cerjevas e cambalear só por causa de uma conversa, de uma gaja e de uma foto do Che. Telefonar-te a dizer que estou vivo e que, finalmente, voltei a devorar um livro, que curiosamente se chama "Memórias de um Alcoólico", de Jack London. Entrar nas conversas e deixar escapar a deixa. Escrever declarações de amor a gajas de gosto duvidoso. Trair-te em Vilar de Mouros ao som dos Led Zeppelin. Estoirar em sonhos alucinatórios a meio de uma existência pacata. Voltar ao computador e à concha do lar familiar. Confundir vozes delirantes com masturbações mentais. Mas há uma foto do Che no quarto a quem apelo contra todas as injustiças, todos os imperialismos, todas as tiranias. Mas há uma foto do Che e a boina, o olhar, a estrela e volto a acreditar que a revolução é possível. Apesar de todas as normas, de todas as rotinas, de todos os filhos da puta."
Pedro Ribeiro apresentou ontem à noite, no Púcaros, mais um volume, revisto e aumentado, da contundente obra "Sexo, Noitadas e Rock n´Roll", da qual tomei a liberdade de extrair o supracitado poema intitulado de "Che". Com o fantasma de Morrison sobre presente, no Porto poetas, boémios e outros inconformados foram reis e heróis, pelo menos por uma noite. Vida longa e inspirada ao "Imperador da Cinco da Manhã" e às edições Pirata...
"A serpente continua à espreita"

Tuesday, November 09, 2004

Mário Cláudio: "A função do escritor não é ser legível, mas autêntico"

Pouca gente lê os romances de Mário Cláudio. Apesar de se afirmar como um dos maiores escritores contemporâneos da língua portuguesa, ao lado de nomes António Lobo Antunes ou José Saramago, o autor de "A Cidade no Bolso" não cativa o grande público, os "compradores de livros", nem o espaço mediático pertencente aos dois autores supracitados. A sua escrita não raras vezes é acusada de ser demasiado rebuscada, barroca, excessiva, dando pouco espaço ao leitor para respirar e encontrar uma terceira via imagética que lhe possibilite despertar os sentidos em detrimento do uso constante da razão e da memória histórica.
Tendo como pano de fundo o lançamento pela D. Quixote do seu mais recente trabalho, "Gémeos", com o qual encerra a triologia das constelações de setes estrelas, iniciada com "Ursamaior", tive a oportunidade de conversar com Mário Cláudio na sua casa aqui no Porto. Numa extensa entrevista editada parcial e posteriormente num diário e que não me cabe aqui reproduzir, o autor de "Amadeo" confessou a razão pela qual não cede uma vírgula a um estilo literário que certamente lhe poderia valer mais cópias vendidas e um maior exposição livreira e mediática.
"O estilo de um autor - diz Mário Cláudio - não é uma questão de opção, mas sim de natureza. Escrevemos o que somos". Umas das características mais marcantes da personalidade de Mário Cláudio é precisamente o elevado grau de exigência da pesquisa e elaboração que coloca em cada obra. Uma exigência que é partilhada com o leitor. Para apreciar, por exemplo, "Oríon" mais do que este último romance "Gémeos", é desde logo necessária uma atenção particularmente singular aos detalhes da história e à estrutura narrativa da obra. Complexa, certamente, mas autêntica no sentido mais humanista do termo. Como me confessou o autor "a função do escritor não é ser legível, mas sim ser autêntico".
Não é por acaso que a mais recente triologia encerra uma poderosa e singular reflexão sobre o estado de exílio. Se em "Ursamaior" temos a problemática das prisões no Portugal contemporâneo, como forma de controlar os perigosos, colocando-os à margem da teatro social, e em "Ursamaior" o degredo de crianças judias durante o reinado de D. João II, sublinhando uma dupla forma de marginalização rácica e etária, nesta última obra, "Gémeos", a velhice de um pintor e a sua degradação física são olhados pelo próprio artista à luz de uma relação de amor-ódio com uma adolescente. Apesar de se desenrolar séc. XIX, a obra remete-nos para a outra reflexão urgente sobre a forma como a nossa sociedade idolatriza a juventude, beleza e a boa forma física, o exterior, a superfície, encerrando, por oposição, a velhice a sete chaves em lares da terceira idade ou oculta-a com cosméticos, operações plásticas e outros exercícios que, por vezes, atingem o ridículo. Em última análise, a superfície e a estética do aparente é sobrevalorizada em detrimento do conhecimento experiencial e da profundidade histórica. Não raras vezes assistímos a situações a roçar o cómico de mulheres a querem passar por adolescentes e adolescentes a desejarem ser adultos, num culto do corpo e da beleza que por vezes roça o caricato. Não há nada mais dramático do que ver na rua uma sexagenária vestida de "teenager" com um comportamento infantil.
Não sendo necessário nem obrigatório ler as duas obras anteriores, "Gémeos" apesar de ser uma das obras mais "acessíveis", certamente não irá parar aos tops das livrarias, nem dos shoppings, no entanto, no universo literário português afirma-se como um dos livros a ter em atenção e uma boa porta de abertura para uma literatura que não sendo de aeroporto, praia ou viagem, oferece pistas e reflexões urgentes e confirma a excelência da escrita de uma das mais brilhantes mentes da cultura portuguesa.