Saturday, November 13, 2004

IA no Porto

Entre rumores políticos e algumas certezas jornalísticas ainda por confirmar, o Instituto das Artes (IA), dirigido por Paulo Cunha e Silva, uma das mais brilhantes estrelas da Porto 2001 contratadas pelo governo de Durão, irá ocupar parte do Centro Português de Fotografia (CPF), na Antiga Cadeia da Relação do Porto, abrindo assim uma espécie de delegação no Norte do IA. O facto de, quer Teresa Siza, pelo CPF, quer Paulo Cunha e Silva, pelo (IA), não poderem falar nem comentar o assunto, significa per si que a notícia avançada, nas muitas entrelinhas do discurso da ministra da cultura, na passada terça-feira, na Assembleia da República, tem, de facto, fundamento.
Resta saber se, com a Cultura a merecer os tristes 0,6 por cento do Orçamento de Estado para 2005 (mais 0.1 que no ano anterior), Maria João Bustorff não seguirá a mesma política "gueterrista" de Pedro Roseta: dialogar para dilatar, até ao limite de suportável, qualquer tipo de decisão. O regime jurídico da Casa da Música surge desde logo com um dos mais lamentáveis exemplos desta forma de governar um futuro eternamente adiado, mas recheado de reflexão.


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Fernando Lemos: homenagem do CPF

O Centro Português de Fotografia (CPF) homenageou e muito bem, no final da tarde de anteontem, na Cadeia da Relação do Porto, o artista e pensador português Fernando Lemos, com a estreia do documentário homónimo realizado pelo cineasta brasileiro Olívio Tavares de Araújo. O filme afirma-se, sobretudo, como uma ferramenta analítica indispensável, contendo material de consulta obrigatória para a concretização de trabalhos académicos sobre a vida e obra de tão singular e influente figura no meio artístico luso-brasileiro.
Apesar de reconhecido em Portugal, sobretudo nas últimas décadas, pelo seu importante legado fotográfico, tendo recebido em 2001 o Prémio Nacional de Fotografia, Lemos afirma-se sobretudo como artista plástico com frequentes incursões pela pintura e desenho, inserido no movimento surrealista português dos anos 40. O próprio homenageado desvaloriza ou pelo menos marginaliza a sua obra fotográfica confessando que "foi atrás da fotografia como poderia ter ido atrás da cerâmica ou de outra coisa qualquer."
O trabalho em formato vídeo de Olívio Tavares de Araújo inicia e termina uma viagem pela vida e obra de Lemos a partir dos seus trabalhos fotográficos realizados essencialmente nas décadas de 40/50 e que retratam de forma intuitiva e plena de sensibilidade uma geração de notáveis da cultura portuguesa, de Sophia de Mello Breyner a Mário Cesariny passando por Jorge de Sena e José Viana.
Homem de esquerda, simpatizante não filiado no PCP e naturalmente asfixiado pelo Antigo Regime, Lemos refugia-se do outro lado do Atlântico, em 1953, desenvolvendo a partir de S. Paulo grande parte da sua importante produção artítica. Apenas quatro anos mais tarde, em 1957, participa na IV Bienal de São Paulo, dividindo o prémio de Desenho com Wega Nery, conquistando, desde logo, a atenção, respeito e admiração da comunidade artística brasileira.
Portugal recupera, a partir do Porto, "a minha Lisboa a preto-e-branco", o legado fotográfico de Lemos, na exposição colectiva "A fotografia na arte moderna portuguesa", realizada no final da décda de 70. Já, em 1982, Lisboa, cidade natal do artista, desperta, para os seus trabalhos com a mostra "Refotos dos anos 40". Mais tarde, e por iniciativa do fotógrafo português Jorge Molder, a Gulbenkian organiza duas exposições individuais: a primeira, em 1992, em Paris, reunindo meia dezena de fotografias, durante o "Mois de la Photo", e uma segunda e mais ampla incursão pela obra de Lemos, já em formato de retrospectiva, intitulada "À sombra da luz", em 1994.
Pensador livre e conversador compulsivo, Fernando Lemos afirmou-se bastante satisfeito com o documentário de Olívio Tavares de Araújo, "um amigo que me conhece bem" e contente por se reencontrar com uma cidade geneticamente fotográfica, que tem permanecido atenta à sua obra. Um apontamento final para destacar o excelente trabalho que Teresa Siza tem vindo a desenvolver à frente do CPF, um raro mais pleno exemplo de como dinamismo, bom senso e criatividade podem sobreviver no seio de uma institução pública.

Thursday, November 11, 2004


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"Fallen Nights and Fallen Ladies", Lou Reed

"Na idade em que encontrar uma personalidade é um problema, há pessoas que formam grupos de rock n´roll e tocam para outras pessoas que têm as mesmas dificuldades. A diferença de idade entre o executante e o espectador não é grande. Infelizmente, os que estão na quarta fila imaginam que os que estão em palco sabem alguma coisa que eles não sabem. O que não é verdade(...)
O cantor possui uma alma, mas tem a sensação de que já não é amado logo que desce do palco (...) tem a sensção de que só brilha em palco e que fora do palco passa despercebido, com uma aparência vulgar como a da flor mais vulgar do jardim. Mas, não somos nós todos tão vulgares como as gotas de água'?" (Lou Reed, "Fallen Nights anda Fallen Ladies")

"Sexo, Noitadas e Rock n´Roll"

"Emborcar seis cerjevas e cambalear só por causa de uma conversa, de uma gaja e de uma foto do Che. Telefonar-te a dizer que estou vivo e que, finalmente, voltei a devorar um livro, que curiosamente se chama "Memórias de um Alcoólico", de Jack London. Entrar nas conversas e deixar escapar a deixa. Escrever declarações de amor a gajas de gosto duvidoso. Trair-te em Vilar de Mouros ao som dos Led Zeppelin. Estoirar em sonhos alucinatórios a meio de uma existência pacata. Voltar ao computador e à concha do lar familiar. Confundir vozes delirantes com masturbações mentais. Mas há uma foto do Che no quarto a quem apelo contra todas as injustiças, todos os imperialismos, todas as tiranias. Mas há uma foto do Che e a boina, o olhar, a estrela e volto a acreditar que a revolução é possível. Apesar de todas as normas, de todas as rotinas, de todos os filhos da puta."
Pedro Ribeiro apresentou ontem à noite, no Púcaros, mais um volume, revisto e aumentado, da contundente obra "Sexo, Noitadas e Rock n´Roll", da qual tomei a liberdade de extrair o supracitado poema intitulado de "Che". Com o fantasma de Morrison sobre presente, no Porto poetas, boémios e outros inconformados foram reis e heróis, pelo menos por uma noite. Vida longa e inspirada ao "Imperador da Cinco da Manhã" e às edições Pirata...
"A serpente continua à espreita"

Wednesday, November 10, 2004


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Tuesday, November 09, 2004

Queens Of The Stone Age: "Lullabies To Paralyze"

Os Queens Of The Stone Age (QOTSA) revelaram, ontem, à MNE alguns pormenores sobre o seu quarto registo de originais. Segundo a revista britânica, citando a Billboard, o trabalho intitula-se "Lullabies To Paralyze" e será editado a 21 de Março de 2005 em Terras de Sua Majestade e um dia depois nos EUA. O disco conta, entre outras, com as participações de Shirley Manson, dos Garbage, e da namorada de Homme, Brody Dalle, dos Distillers.
Sinceramente devo confessar que aguardo este álbum com algum entusiasmo. "R" e "Songs For The Deaf" fazem parte da minha colecção dos melhores discos de rock dos últimos anos. Ambos os trabalhos emergem num contexto musical carente de alternativas puras e duras, perante a "hype" dos Strokes ou White Stripes e da ascensão de uma pop e de um r&b cada vez mais parecidos com projectos audiovisuais saídos dos estúdios da Playboy. Recolhendo os detractores do uso excessivo das ilusões dos Guns n´Roses no início da década de 90, chamando até si a comunidade de órfãos dos Nirvana e os alérgicos ao efeito Bob Rock nos Metallica, os QOTSA souberam recolher e actualizar o melhor da sonoridade dos Zeppelin com os coros dos Black Sabbath, adicionando pelo caminho uma poção mágica vinda directamente de Seattle. O resultado em "Song For The Deaf" é desconcertante rude e hormonal.
Tive a oportunidade de assistir às duas actuações em Portugal da banda e não fiquei desiludido. A primeira, em Novembro de 2003, esgotou o "a-precisar-de-recuperação-urgente" Teatro Sá da Bandeira, no Porto. Num ambiente de teste à segurança da casa onde Aurélio Paz dos Reis estreou em Portugal uma arte chamada cinema, os QOTSA ofereceram um concerto tão poderoso quanto demolidor, com efeitos secundários nos tímpanos e garganta durarem mais de 48 horas. Da parte da tarde, tive a oportunidade de entrevistar Mark Lanegan, que entretanto já abandonou o projecto. Na altura, o Screaming Tree confessou-me a admiração e a fonte inspiracional que tem sido para ele o legado dos Nirvana. Homem com ligações a Seattle transportou para os QOTSA uma vocalização soturna, intensa e delirante, basta ouvir "Hanging Tree" ou "Song For The Deaf".
A segundo concerto, no excelente Paredes de Coura 2003, recheado de estreias em Portugal (Yeah, Yeah, Yeahs, The Datsuns, entre muitas outras), o colectivo conduziu mais de 25 mil pessoas numa viagem pelos desertos da Califórnia, menos intimista é certo, mas contudo, comprovativa da excelência do colectivo e dos álbuns.
Com em sem sessão no deserto, com mais um menos intimidade, a qualidade interpretativa e a energia do colectivo conquistou definitivamente um importante espaço na história dos concertos "made in Portugal" e soube inscrever, em estúdio, três álbuns referencias para a historiagrafia recente do rock. Espero que o quarto registo confirme o talento do colectivo e que a banda regresse ao Porto para um segundo concerto, desta vez de preferência no Coliseu.

Mário Cláudio: "A função do escritor não é ser legível, mas autêntico"

Pouca gente lê os romances de Mário Cláudio. Apesar de se afirmar como um dos maiores escritores contemporâneos da língua portuguesa, ao lado de nomes António Lobo Antunes ou José Saramago, o autor de "A Cidade no Bolso" não cativa o grande público, os "compradores de livros", nem o espaço mediático pertencente aos dois autores supracitados. A sua escrita não raras vezes é acusada de ser demasiado rebuscada, barroca, excessiva, dando pouco espaço ao leitor para respirar e encontrar uma terceira via imagética que lhe possibilite despertar os sentidos em detrimento do uso constante da razão e da memória histórica.
Tendo como pano de fundo o lançamento pela D. Quixote do seu mais recente trabalho, "Gémeos", com o qual encerra a triologia das constelações de setes estrelas, iniciada com "Ursamaior", tive a oportunidade de conversar com Mário Cláudio na sua casa aqui no Porto. Numa extensa entrevista editada parcial e posteriormente num diário e que não me cabe aqui reproduzir, o autor de "Amadeo" confessou a razão pela qual não cede uma vírgula a um estilo literário que certamente lhe poderia valer mais cópias vendidas e um maior exposição livreira e mediática.
"O estilo de um autor - diz Mário Cláudio - não é uma questão de opção, mas sim de natureza. Escrevemos o que somos". Umas das características mais marcantes da personalidade de Mário Cláudio é precisamente o elevado grau de exigência da pesquisa e elaboração que coloca em cada obra. Uma exigência que é partilhada com o leitor. Para apreciar, por exemplo, "Oríon" mais do que este último romance "Gémeos", é desde logo necessária uma atenção particularmente singular aos detalhes da história e à estrutura narrativa da obra. Complexa, certamente, mas autêntica no sentido mais humanista do termo. Como me confessou o autor "a função do escritor não é ser legível, mas sim ser autêntico".
Não é por acaso que a mais recente triologia encerra uma poderosa e singular reflexão sobre o estado de exílio. Se em "Ursamaior" temos a problemática das prisões no Portugal contemporâneo, como forma de controlar os perigosos, colocando-os à margem da teatro social, e em "Ursamaior" o degredo de crianças judias durante o reinado de D. João II, sublinhando uma dupla forma de marginalização rácica e etária, nesta última obra, "Gémeos", a velhice de um pintor e a sua degradação física são olhados pelo próprio artista à luz de uma relação de amor-ódio com uma adolescente. Apesar de se desenrolar séc. XIX, a obra remete-nos para a outra reflexão urgente sobre a forma como a nossa sociedade idolatriza a juventude, beleza e a boa forma física, o exterior, a superfície, encerrando, por oposição, a velhice a sete chaves em lares da terceira idade ou oculta-a com cosméticos, operações plásticas e outros exercícios que, por vezes, atingem o ridículo. Em última análise, a superfície e a estética do aparente é sobrevalorizada em detrimento do conhecimento experiencial e da profundidade histórica. Não raras vezes assistímos a situações a roçar o cómico de mulheres a querem passar por adolescentes e adolescentes a desejarem ser adultos, num culto do corpo e da beleza que por vezes roça o caricato. Não há nada mais dramático do que ver na rua uma sexagenária vestida de "teenager" com um comportamento infantil.
Não sendo necessário nem obrigatório ler as duas obras anteriores, "Gémeos" apesar de ser uma das obras mais "acessíveis", certamente não irá parar aos tops das livrarias, nem dos shoppings, no entanto, no universo literário português afirma-se como um dos livros a ter em atenção e uma boa porta de abertura para uma literatura que não sendo de aeroporto, praia ou viagem, oferece pistas e reflexões urgentes e confirma a excelência da escrita de uma das mais brilhantes mentes da cultura portuguesa.


Segunda de Manhã Posted by Hello

Em busca da Felicidade...

Lundi Matin (Segunda de manhã), filme realizado por Otar Iosseliani, teve o visionamento para a imprensa na segunda de manhã, por ironia ou não.
Premiado com o Urso de Prata (melhor realização) no Festival de Berlim, "Segunda de Manhã" retrata um quotidiano similar ao da esmagadora maioria da classe média portuguesa. Vincent, o protagonista (interpretado por Jacques Bidou), trabalha numa fábrica, mas poderia trabalhar num escritório ou como caixa de um supermercado, que não iria ser menor a monotonia sentida.
A busca da Felicidade é o leit motiv de todos os seres. Humanos e não só. Todos os seres sem excepção procuram a harmonia e o bem-estar e fogem ao que provoca sofrimento. Para os seres humanos em geral a Felicidade é uma meta muito difícil de atingir dada a complexidade dos enredos axiológicos que cada um impõe ao conceito de felicidade.
Em "Segunda de Manhã", o protagonista acorda todos os dias à mesma hora, faz o mesmo percurso para a fábrica, onde abandona o vício do tabaco no portão de entrada, retomando-o depois clandestinamente. O trabalho rotineiro estrangula-lhe a veia criativa e a monotonia da vida familiar aumenta-lhe a solidão que se vai tornando insuportável até ao ponto de decidir partir numa viagem pelo mundo.
A complexidade da fábrica é apresentada de forma paralela à complexidade dos canais de Veneza. A rotina da vida de Vincent, que o afasta dos colegas e da família, levando-o à solidão, contrasta com a pureza de planos venezianos, onde a riqueza das emoções e a variedade das cores lhe preenche o vazio da alma solitária. A expressão de criatividade, afinal o único elemento que lhe faltava na sua construção da felicidade, encontrou-a em Veneza, onde se espantou com as abóbadas dos telhados recortados contra o céu e se maravilhou com a beleza dos canais raiados pelo sol da manhã.
A busca da Felicidade e a fuga da monotonia é apresentada neste filme com poucas palavras e muita simbologia. O natural por oposição ao artificial, a fragilidade dos elementos leves e etéreos, como a água dos canais e as nuvens no céu, contrastando com a aparente solidez dos elementos pesados, como a força do aço e o granito bruto dos casarios. A efemeridade ligada à Felicidade. A solidez e permanência ligadas à infelicidade. A complexidade e a simplicidade... Sempre a dualidade a expressar os conceitos maniqueístas com que elaboramos o mundo.
Afinal, não há complexidade que não seja composta pela simplicidade de vários elementos juntos. Apenas é preciso saber observá-los.
Um conceito muito budista...
Escrito por IsabelBodhisattva

Monday, November 08, 2004

Festa da Baixa está mesmo em baixo

Finalmente, terminou ontem um dos melhores exemplos das falta de dinamismo cultural das gentes políticas que governam a cidade do Porto. Estou naturalmente a referir o movimento de propaganda autárquica denominada "Festa na Baixa". A Câmara Municipal do Porto (CMP) , via Culturporto, (que ainda é presidida pelo esforçado Marcelo Mendes Pinto), tomou sobre si a responsabilidade de divulgar um programa-folheto transformado em manta de retalhos com o ambicioso objectivo de dinamizar a Baixa do Porto em apenas três dias. Deus necessitaria pelo menos de uns quatro ou cinco, tendo em conta a quantidade de casas abandonadas.
Para além da maioria dos eventos da dita "festa" não serem produzidos pela CMP, caso natural da agenda da Fnac, do festival FRAME ou das exposições do Centro Português de Fotografia (recorde-se que estas últimas inauguraram em Setembro), o que mais impressiona é a incoerência total e absoluta do auto-intitulado programa. Sem um único evento dedicado ao teatro, o cardápio mistura a 14ª edição do Festival de Jazz do Porto, no Rivoli, com a Festa do Fado da Rádio Festival, no Coliseu, e ainda consegue encontrar um espaço para enfiar o insuspeito Snowey White, na Fnac de Santa Catarina, isto só para falar de alguns exemplos na área da música.
Depois de um fim-de-semana em que a Baixa ficou completamente irreconhecível, a Festa terminou ontem à noite, da melhor maneira, com as gentes da Culturporto a fazerem um magusto nos Maus Hábitos, enquanto do outro lado da rua, Maria da Fé cantava o fado num Coliseu alugado à Rádio Festival, (note-se, agora sim, a coerência do nome), sala de espectáculos que de 2002 para cá tem apresentado uma programação cada vez mais negra e deprimente, mas isso dava outro desabafo de meia página. Para o próximo ano seguem-se mais visitas a miradouros e como não podia deixar de ser quilos de castanhas e horas do melhor fado, por que, ao fim e ao cabo, é disso que a gente do Porto parece gostar...

Sunday, November 07, 2004

Sugestão de Música: "The Way It Is", de Snowy White

Ontem ao final de tarde espantei-me como uma dose ao vivo e a cores de blues da mais elevada qualidade. Snowy White, ex-guitarrista Pink Floyd com quem colaborou no histórico "The Wall", veio até à Fnac de Santa Catarina revelar os acordes do seu mais recente longa-duração "The Way It Is". Afastado o mais possível dos habituais "show-cases", por vezes, transformados em autênticos espectáculos de karaoke maníaco-depressivo, ou bipolar como agora os psicólogos gosta de catalogar, a amostra grátis do sucessor natural de "Restless", revelou um Snowy White apostado em trazer a pequena tasca da multinacional francesa abaixo.
Dos temas apresentados, destaque para "What I´m Seaching For" elevou-se como uma viagem alucinante pelos blues latinos muito próximos da melhor fase de Santana, abrindo-se depois em paragens obrigatórias com solos mais progressivos, reveladores de uma gramática rítmica tão extensa quanto criativa. Da base blues que sustenta o edifício musical, não só do novo registo, como também de grande parte dos álbuns anteriores de Snowy White, o tema de abertura, "No Stranger to the Blues" ou "Piece of Your Love", este mais influenciado por "Money" dos Pink Floyd, servem de exemplos do virtuosismo inteligente e maduro de Snowy White que não se deixa perder em escalas redundantes nem em devaneios egocêntricos de solos muitas vezes excessivos e recorrentes em guitarristas de grande calibre técnico, como Joe Satriani ou Gary Moore. Finalmente, outro dos temas em destaque, "Falling Down" nasce numa atmosfera melódica densa e hormonal perto de David Sylvian, desenvolvendo-se depois para uma base de teclas e ritmos a roçar o melhor de Mark Knopfler. O álbum contém ainda uma interessante versão do clássico "Black Magic Woman", que mais uma vez relembra Santana.
Após o amplo e consistente concerto e já com o CD no saco tive a oportunidade de conversar uns breves minutos com o músico. Num inglês diplomático, o guitarrista confessou-me estar bastante satisfeito com o registo, adiantando ainda que neste álbum teve mais liberdade criativa do que nos anteriores, pois ao mudar de banda - que é excelente diga-se de passagem- ganhou amplitude musical com a inclusão das teclas. Depois conversámos sobre os Pink Floyd, a sua relação com Roger Waters, a experiência de "The Wall" e as dificuldades que actualmente está a encontrar para penetrar num mercado discográfico que se revela "cada vez mais difícil para um simples guitarrista de blues".
Por falar em dificuldades, nota mais do que negativa para a ausência da comunicação social local que, provavelmente, entretida com a "Quinta das Celebridades" perdeu mais uma oportunidade singular de conhecer e divulgar um dos grandes guitarrista da música moderna. O disco vale a pena, não só pelos refinados blues, mas também como instrumento leitura sonora para a uma compreensão mais esclarecida e profunda do monumento chamado "The Wall".


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Sugestão de Cinema: "Olha para Mim"

Anteontem tive a feliz oportunidade de assistir à antestreia do filme "Olha Para Mim", mais uma infeliz tradução do original "Comme Une Image". Trata-se da segunda proposta cinematográfica da francesa Agnès Jaoui, depois do "Gosto dos Outros". O filme, que chega aos ecrãs nacionais já na próxima quinta, dia 11, sinceramente agradou-me bastante. Trata-se de uma crónica social com irressistíveis momentos de humor e não menos intensas atmosferas dramáticas sobre as ambivalentes relações de poder inteligentemente sustentadas em dois cenários que acabam por se cruzar ao longo da narrativa desde o início: os cínicos ambientes editoriais parisienses e as problemáticas relações familiares.
Figura central do filme, Lolita Cassard (Marilou Berry) surge como uma adolescente asfixiada pela fama do pai, Etienne Cassar (Jean-Pierre Bacri), um reconhecido, arrogante e egocêntrico escritor francês a atravessar uma crise inspiracional, e um corpo obeso que a coloca à margem do "status quo" estético da "belle france". Entretida em aulas de canto, a jovem estabelece uma relação de amizade com a professora Sylvia Millet (interpretada pela própria realizadora, Agnès Jaoui) que, apesar de não se interessar muito pela aluna, acaba por lhe dar toda a atenção do mundo, tendo em vista a fama do pai e a promoção de um livro do seu marido, Pierre Millet, que sente dificuldade em triunfar como escritor.
Jogos de interesse e teatros de aparência atingem com uma naturalidade assustadoramente cómica o limite do suportável, com os personagens femininos a serem as primeiras vítimas. A começar por Lolita, que não consegue de forma alguma despertar qualquer espécie de atenção do pai, e a terminar na sua professora de canto, que após ver o marido alcançar o sucesso editorial, sente que este coloca a amizade com Etienne e a sua carreira como escritor "da moda" à frente de tudo e de todos.
Vencedor do prémio para melhor argumento na Festival de Cannes, "Olha ParaMim" apresenta-se como um filme a não perder. Para além do excelente texto e brilhantes interpretações, a música clássica, rock e mesmo rap conferem ao filme um ritmo e uma emoção rara, sem descambar nos estereótipos e manipulações fáceis de uma narrativa cativante, inteligente e divertida.


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Concerto: Tim Booth no Hard Club

Os centenas adeptos mais "hard core" dos James, dos quais não faço parte, fizeram questão de comparecer, na sexta à noite, num Hard Club que ameaçou esgotar para ouvir Tim Booth. Embora o primeiro registo a solo, "Bone", fosse o prato princípal, o auditório queria essencialmente escutar um "best of" da banda de Manchester e recordar os bons velhos tempos, tendo sempre presente na memória o concerto em 2001 no Coliseu do Porto. O sonho acabou por se tornar parcialmente real, quando Tim Booth ofereceu três temas dos James ("Laid", "Sometimes" e "Ring the Bells"). Como seria previsível, o que acabou mesmo por triunfar não foram as novidades editadas em Junho, mas fantasma dos James que se elevou num revivalismo pop anacrónico a roçar o karaoke.Demasiado híbridas e hesitantes, as sonoridades do disco de estreia de Booth transportadas para o palco ensaiam, sem sucesso, um ténue e difícil equilíbrio de conquista entre a pesada e relevante herança os James, bem patente nos singles "Down To The Sea" e "Wave Hello", ambas rapidamente consumidas pelo público e pelas rádios FM, e a abertura a melodias "groove", como "Bone" ou "Eh Mamma". O resultado final revelou-se demasiado modesto e previsível, tendo em conta, não só o imponente legado "mainstream", sobretudo na segunda fase da vida dos James, pós-Laid, e a pouca consistência e originalidade das composições de Booth e da banda que o acompanha. Entre a ressaca mais pop dos New Order e dos desvios pelas estruturas rítmicas de Brian Eno a caminho da Irlanda, "Bone", sobretudo ao vivo, carece de substância e de novidade, ficando-se pelo simplesmente agradável e inconsequente.Com um público suplicante pela ressurreição mais do que forçada impossível dos James, Tim Booth fez a vontade aos fãs abrindo o concerto com uma versão maníaco-depressiva de "Laid". Transformada em balada, a canção foi servida a frio sem os essenciais arranjos de guitarra de Saul Davies, substituídos, entretanto, pelo modesto Lee "Muddy" Baker, produtor e guitarrista de serviço.Dos temas de "Bone", "Eh Mamma" é uma promessa por cumprir. Abre com uma linha de baixo muito "groovy", esbarrando em seguida com uma estrutura rítmica tão rígida quanto previsível, colocando um ponto final a uma extensão melódica que poderia transportar o tema para um nutritivo universo jazzy. "In The Darkness" afirma-se como mais uma canção pop inofensiva e inconsequente e, finalmente, "Bone" não expande o efeito Brian Eno, remetendo-se a um refrão simples e aprazível.Para saborear melodias de interesse foi necessário recuar a 1996, colocar no palco do Hard Club o registo "Booth and the Bad Angel" e contemplar o toque de Midas de Angelo Badalamenti, especialmente em "Dance Of The Bad Angel", provavelmente o melhor tema da noite, entre texturas "funk" de Beck e vocalizações a fazerem relembrar a poesia rouca e intemporal de Leonard Cohen.A encerrar um concerto sinceramente modesto, embora agradável, "Careful What You Say", a única novidade em relação ao alinhamento de Lisboa, com algum público a abandonar antecipadamente o edifício e a saborear uma "chuva de Novembro" a beira Douro.