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Anastácio Neto
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Sugestões, críticas e pensamentos sobre Arte e outros vícios
É um dos acontecimentos mais aguardados e relevantes do ano a atingir no universo da arte e que a imprensa portuguesa praticamente ignorou. O MoMA reabriu hoje as portas. Dois anos e meio e 850 milhões de dólares depois, um dos mais importantes museus de arte moderna do mundo domina agora Manhattan, situando-se entre 53ª e 54ª avenidas. As obras de remodelação a cargo do arquitecto japonês Yoshio Taniguchi conseguiram expandir o MoMA em mais de 50 por cento do seu espaço original (37,500 metros quadrados). O museu espera agora receber um milhão de visitantes por ano. Os bilhetes custam desde 17 euros/2 horas a 37 euros/24 horas.
O MoMA tem uma das maiores e mais representativas colecções de arte moderna do mundo, com um acervo com mais de 100 mil quadros, esculturas, desenhos e maquetes de arquitectura (algumas das quais já passaram por Serralves); 14 mil filmes; mais de 200 mil livros e publicações. É a meca de qualquer artista, curador, galerista ou simples apaixonado pela arte e agora ao reabrir as portas vai sem dúvida recentrar o mundo da arte novamente em Nova Iorque. Recorde-se que a primeira exposição do MoMA realizou-se em 1929 e centrou-se em Cézanne, Gauguin, Seurat e Van Gogh, uma opção relacionada com tentativa de situar as raizes da arte moderna no pós-Impressionismo.
Infelizmente, uma notícia tão importante para o universo da arte acabou mesmo por passar completamente desapercebida nos meios de comunicação social portugueses. Lamentável no mínimo...
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Anastácio Neto
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Labels: Artes Plásticas
Acabo de regressar a casa vindo directamente do pouco divulgado concerto dos Repórter Estrábico (RP), no mais do que improvável, inadequado, Café Concerto do Rivoli. Não passei pela casa de partida nem recebi dois contos, mas tive tempo para "profundamente desinquietado - arreliado até - com a blitragem impune e emergente", encontrar na actuação dos RP um "Requiem" oportuno com alguns momentos de eurosátira urgentes, desde logo, para agitar o marasmo em que se encontra a música feita em Portugal - actualmente sustentada artificalmente pela nova vaga de fadistas, sobre os quais lanço, desde já, as minhas mais fortes reservas, pois ainda estão por determinar, a médio prazo, pelo menos, as consequências da subtracção de alguma poesia, enquanto âmago da música sacrossanta de Amália e respectivos diáconos. Uma desconfiança que alargo desde já à hospitalidade lusa a fenómenos como Maria Rita, que amanhã ocupa, novamente, o Coliseu do Porto, sem trazer nada de novo na bagagem e com uma digressão de fazer inveja a muito boa gente.
De regresso ao Rivoli, a trupe subversiva de Luciano Barbosa revelou-se um projecto "cristalizado musicalmente", embora pertinente e mordaz na proposta "Eurovisão". Já tinha escutado em atenção o registo 2004 dos RP e, tal como no concerto, a dicotomia entre o meio e a mensagem acaba, infelizmente, por remeter o colectivo ao insucesso. Dos temas frescos apresentados em versão "live", destaque tão natural como evidente para "Arrumador", uma crónica tóxico-social ao problema da droga nas grandes cidades, com os "moedinhas" a servirem de munição para um tiro certeiro em direcção a Paulo Morais que ainda não se demitiu da Câmara do Porto. "Tens em mim um sujeito competente/capaz de lidar com toda a gente/nem pró caldo eu faço uma pausa/quando estou angriando para a causa."
Vestido de forcado, Líder apresentou-se, desde logo, disposto a dar o corpo ao manifesto, desde que "não me proíbam de fumar o meu SG Viltro com pesticidas". Sem tempo para nicotina, "Biltre" fez da sátira uma arma de destruição política. "Portugal não está de tanga, está de fio dental" (ver foto do álbum). Gritos "fascista, fascista", com apoio VJ de Paulo Américo a projectar, imagine-se, nas paredes no Rivoli Teatro Municipal, imagens de Santana, Durão & companhia. Provavelmente, o momento mais alto de todo o concerto. Ironia, sarcasmo e mensagens tão subliminares quanto subversivas. A recuperação de "MamaPapa" com apoio visual extraído via clip conseguiu ainda sustentar uma agitação distante de se concretizar, apesar dos apelos ao "mosh" do Líder.
"Velcro", versão rock de "Pump the Jam" e o delírio samplesco de "Eurovisão", com "The Final Count Down", dos Europe incluído, antecederam um longo encore de quatro temas. Apesar de toda a pertinência do projecto "Eurovisão", tendo em conta o contexto político actual e um referendo à constituição europeia que irá bater todos os recordes de abstenção, a versão "live", em 2004, revela as fragilidades sonoras de um projecto que, recusando a inclusão de um baterista, não encontra no suporte rítmico da "drum-machine" uma plasticidade sonora capaz de construir um edifício musical consistente, seguro, atractivo. Triunfa uma postura em palco e um cuidado cénico de Luciano Barbosa invulgar pela inteligência e profissionalismo, mas que infelizmente se revela insuficiente para fazer passar a mensagem ao grande auditório.
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Anastácio Neto
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Labels: Música
Hoje tive a oportunidade de entrar em contacto com a mais recente proposta teatral a atingir o PoNTI. O pertencioso e desisteressante, Thomas Bischoff encena pela primeira vez fora da Alemanha a peça "Gertrud", de Einar Schleef. O resultado é um tiro no escuro. No entanto, o PoNTI´04 aceitou o desafio e, infelizmente, acolhe até domingo, no Teatro Helena Sá e Costa, um trabalho dramatúrgico formalmente muito conservador, bastante depressivo e marcadamente austero, baseado no primado rítmico da palavra agónica de Schleef sobre o movimento, a salvação, a mudança. Num cenário impessoal, frio, desprovido de adereços - algures entre o manicómio, o lar da terceira idade ou a prisão - ecoa um extenso monólogo no feminimo, a duas vozes, que revisita as dores existenciais e a angústia da memória de Gertrud, uma idosa abandonada pelos dois filhos e pela morte recente do marido. Se a legendagem falhar, todo o espectáculo cai por terra. O próprio Bischoff, considerado na Alemanha como "o congelador" pela rigidez formal, confessa que a base de todo o seu trabalho e a gênese do fascínio pelos textos de Schleef "é a plasticidade da palavra". Algo dificilmente traduzível para a língua portuguesa.
Antecipando a estreia de hoje a noite, o encenador salientou ainda, "a importância da componente histórica do texto", que segundo Bichoff "é um dos trabalhos mais singulares da dramaturgia alemã sobre o conflito entre as duas repúblicas". Importa recordar que a obra foi escrita no início dos anos 80, refletindo, desde logo, uma Alemanha em ruínas, dividida, humilhada e complexada com a derrota e a barbárie da II Guerra Mundial.
A sexagenária, evocativa da mãe do escritor, "representa toda uma geração de mulheres que sobreviveram na Alemanha desde a Grande Guerra", contextualiza o encenador. A divisão Oriente-Ociente, a perda de identidade, o orgulho ferido, a irreversibilidade da história, o peso da culpa são debitados em frases curtas, duras, velozes, paranóicas, cansativas.
Num ano em que o PoNTI aceita a conveniência orçamental e se transfigura no Festival da União dos Teatros da Europa (UTE), trazer ao Porto a Dusseldorfer Schauspielhaus, mais do que o "gesto politicamente correcto" de acolher uma companhia associada à UTE, é sobretudo uma aposta inconsequente, triste, conservadora e arriscada, tendo em conta a idiossincrasia, não só da obra de Schleef, como também da aborgadem cénica de Bischoff. Uma peça a evitar que certamente irá gelar o PoNTI.
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Anastácio Neto
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Labels: Teatro
Hoje tive a oportunidade de ir à Fnac de Stª Catarina assitir a um intitulado "debate" centrado no IVA e instrumentos musicais. Qualquer espaço de reflexão foi prontamente anulado por um painel de convidados, escolhidos como patrocinadores do concurso-desafio da Rockmusic, pouco ou nada interessados em alterar o "status quo" do mercado. Para Renato Gomes, representante da Fender Ibérica, em Espanha é que se está bem, pois os instrumentos sofrem apenas 16 por cento de IVA, em Portugal é uma vergonha ter livros a 5; guitarras e CD a 19. Toda a gente de acordo. É só transformar Sampaio e Santana em cruzados, enviá-los numa nau para o norte de África, esperar que desapareçam e que sejamos novamente governados pelos nuestros hermanos "filipes", mas desta vez equipados pelo el Corte Inglés.
Empenhado em animar o "debate", Ricardo Dias, da loja Rockmusic, confessou que o pessoal ligado ao sector de música (vendedores, importadores, músicos, editoras, etc) tinha era de se juntar para alterar o estado das coisas, fazer pressão, barulho qualquer coisa. De acordo. No entanto, à pergunda atirada para a mesa: então por que é que não se juntam e fazem qualquer coisa? Estão à espera do quê? Depois de muitas hesitações e alguns desvios, a resposta do lojista foi tão lacónica quanto desconcertante: "porque existe muito comodismo, sobretudo na geração mais velha". Ficámos a saber que a questão do IVA é desde logo um problema geracional.
Na verdade, o OE para 2005 não prevê qualquer mudança ao nível das taxas de IVA para os instrumentos musicais, e pelos vistos, se depender do sector de venda, importação ou revenda, não será de prever grandes alterações pelo menos enquanto a "geração mais velha" continuar a reinar. Até por que, no final das contas, quem paga a factura é mesmo o consumidor. E quando digo consumidor estou a referir os pais do jovem adolescente que está a começar a tocar e quer fazer uma banda na garagem mais próxima e não aos "ruis velosos" nem aos "pedros abrunhosas". Mas esses, os consumidores, fétichistas ou não, estranhamente ficaram do outro lado da mesa a ouvir palermices...
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Anastácio Neto
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Labels: Música
Após a estreia em Janeiro, na capital espanhola e da subsequente digressão nacional, que recolheu aplausos da crítica e público por todo o país, a encenação de José Luis Gómez, pelo Teatro de La Abadía, do texto "O Rei Está a Morrer", de Eugène Ionesco, conhece nos próximos três dias no palco do Teatro Nacional de S. João (TNSJ), inserido no PoNTI'04, o fim de uma existência feliz, plena de consequentes, urgentes e importantes reflexões sobre a consciência a partir da morte, enquanto situação limite e absurda do ser humano, sobretudo no contexto da cultura ocidental impregnada de conceitos judaico-cristãos nem sempre esclarecidos.
Em "O Rei Está a Morrer", Berenguer, a figura omnipresente nos textos de Ionesco, é atingido, a meio de uma festa, por um ataque cardíaco, ficando às portas da morte. A consciência de que não passa de um simples mortal, impotente perante as leis de transformação comuns a todo o universo, atinge-lhe a mente com uma violência proporcional ao tamanho do seu ego. Do choque nasce a negação geradora de ilusões e delírios a roçar o surreal. Imagina-se um Rei. Luta contra a morte. Encontra na primeira mulher, Rainha Margarita, uma espécie de guia tibetana que o orienta numa viagem mais do espiritual, profundamente humana rumo consciência plena, vazia de ilusões, preenchida de vacuidade.
Para o encenador, que ontem à tarde se encontrou no TNSJ a prepara a última série de três representações, o texto de Ionesco "é a mais importante obra dramática alguma vez escrita sobre a morte". Colocando de lado as didascálias e uma série de anacronimos, a abordagem da companhia espanhola centrou-se, sobretudo, nos aspectos mais contemporâneos da obra, tentando enfatizar o drama pessoal e experiencial do protagonista e o facto "da morte estar mais perto de nós do que poderíamos à partida pensar". Dos aspectos mais siginificativos na construção do edifício conceptual e representativo da peça de Ionesco, José Luis Gómez destaca, desde logo, a união entre a poesia do escritor e textos extraídos da filosofia budista tibetana. "O final da obra - afirma o encenador - é quase uma transcrição de momentos fundamentais do "Livro Tibetano dos Mortos" (Bardo-Thödol). É o livro que mais informação tem sobre a morte ou o acto de morrer", salienta. A inflexão sobre o budismo, apesar do Bardo-Thödol não ser um livro propriamente para noviços, conduz, inevitavelmente, ao tema central da peça: a morte do ego. A forma como o ser humano se considera a si próprio, a importância que atribui a uma existência que, não raras vezes, se distancia da verdadeira consciência dos fenómenos. E este é precisamente um dos tema que actualmente me fascina cada vez mais, por razões, sinceramente não me atrevo ainda aqui a confessar.
Poesia, humor, drama, transcendência são alguns dos pontos fortes de uma peça que importa conhecer. Inserida, no contexto da programação do Teatro de La Abadia, no ciclo "Velhice, Morte e Poder" - uma triologia inaugurada com "Rei Lear" , de Shakespeare, e a encerrar com a encenção "Édipo em Colono", de Sófocles - a proposta que hoje sobe ao palco do TNJS promete atingir a mente e a consciência de muitos dos espectadores. Uma sugestão de teatro para quem tiver a sorte ou conhecimentos internos para conseguir uma entrada para "O Rei Está a Morrer".
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Anastácio Neto
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Labels: Teatro
Estreia hoje noite na Sala Latino, anexa ao Teatro Sá da Bandeira, no Porto, a peça “Ratos e Homens”, de John Steinbeck. Uma viagem guiada ao âmago das ilusões do sonho americano, das promessas por cumprir, numa encenação de Fernando Moreira para a companhia Art´Imagem.
Dois homens, Lenny e George, deambulam pela América da Grande Depressão à procura de emprego. Acabam a trabalhar numa herdade, carregando caixotes de laranjas. Ambos perseguem o “american dream”. Ambos ambicionam um pedaço de terra, um espaço de liberdade, uma autonomia impossível de concretizar. As devastadoras e desumanas relações de poder entre a força trabalhadora e o capital, a problemática da emigração o e o triunfo antecipado das forças ecomómicas sobre o bem comum e a “res publica” são alguns dos conceitos analíticos possíveis na obra de Steinbeck. Volvidas mais de sete décadas, e tendo as eleições norte-americanas e a constituição europeia como pano de fundo da actualidade internacional, “Ratos e Homens” continuam a comer migalhas, a sonhar com dias de felizes de paz e a serem aniquilados por forças político-económicas cada vez mais poderosas que, colocando em causa a autonomia dos estados-nação, exploram o mundo como se de uma herdade norte-americana dos anos 30 se tratasse.
Para José Leitão, director da companhia que estreia hoje a sua 80ª representação – “depois de Paul Auster e David Mamet visitámos a América de Steinbek. Afinal três américas que são todas a mesma América. Uma América que se alimenta de mitos e promessas que nunca chegam a cumprir-se”. Já para Fernando Moreira, encenar “Ratos e Homens” foi a concretização de um sonho antigo. Um sonho alimentado pela força e actualidade simbólica dos personagens. “Muitos são imigrantes que partiram do México para a Califórnia à procura de trabalho e de uma vida melhor. É dessas pessoas que queria falar, pessoas que não se deixam ficar na crise, e de alguma maneira procuram trabalho num novo país, numa nova cidade, atravessando diariamente para o outro lado do rio”.
Com um interessante desenho de luz a cargo de Leuman Ordep sobre um cenário simples mas eficaz de Ricardo Preto e com um suporte musical inteligente e talentoso de Carlos Adolfo, a proposta “Ratos e Homens” que inaugura hoje uma temporada na Sala Latino até dia 19 de Dezembro, surge uma peça fundalmental, não só para conhecer a idiossincracia do autor do clássico “A Pérola”, como também para revisitar uma América superlativa, profunda, construída sobre a fome de liberdade e a utopia do sonho.
De realçar ainda que tendo em conta o importante trabalho que a delegação do Norte da AMI - Assistência Médica Internacional, e da AMIarte, em particular, têm vindo a desenvolver no universo dos sem-abrigo e na angriação de fundos através de eventos culturais para a construção do Abrigo Social, na freguesia portuense do Bonfim, a bilheira do espectáculo da próxima sexta-feira irá reverter em favor da referida fundação. “Um sinal de que não fazemos arte pela arte”, justifica José Leitão.
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Anastácio Neto
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Labels: Teatro
A RTP tem um novo caso que promete, desde logo, agitar a cena política nacional e alimentar ainda mais o debate, até agora intencionalmente muito mal conduzido, sobre o poder político-ecomómico que se abate nas redacções dos meios de comunicação social, uma reflexão que repite tem passado ao lado dos verdadeiros temas. Mas regressando ao actualidade, segundo fontes próximas do canal de serviço público, que actualmente emite o programa 1, 2, 3 com a arrepiante Teresa Guilherme em horário nobre, na origem da tragédia está, como seria de esperar, uma tão tradicional cunha, uma das maiores armas da confiança e destruição política da adminstração pública e privada portuguesa que, na comunicação social caminha a grande velocidade para os padrões de desenvolvimento muito próximos dos países do terceiro mundo.
Na origem da hecatombe de ontem à tarde, que levou a demissão em bloco de toda a direcção de informação da RTP, está a ingerência do conselho de adminstração no concurso interno de selecção de candidatos a correspondentes no estrangeiro. Este processo é dirigido pela direcção de informação e presidido, naturalmente, por José Rodrigues dos Santos, que toma sobre si a tarefa de analisar as candidaturas e apresentar os nomes dos vencedores ao conselho de administração que normalmente se limita a dar luz verde. Ao que tudo indica, no concurso para correspondente da RTP em Madrid, o nome de Rosa Veloso ficou num modesto quarto lugar. Quando a direcção de informação viu a dita jornalista a ser destacada para a capital espanhola pediu no dia seguinte, quinta-feira, uma reunião com a adminstração do canal para saber qual o motivo da inesperada subida no ranking. Depois da segunda reunião de ontem, José Rodrigues dos Santos, não satisfeito com as respontas que naturalmente colocavam em causa o seu trabalho, bateu mesmo com a porta, levando consigo toda a direcção de informação (Judite de Sousa, Miguel Barroso, Manuel da Costa, Maria José Nunes e Carlos Daniel).
Entretanto, os partidos da oposição já exigiram uma audição parlamentar ao director de informação da RTP para que este esclareça de uma vez por todas as verdadeiras razões da sua demissão. Depois do caso Marcelo, o PSD parece que aprendeu a lição e aceita o jogo mas com uma pequena condição: não meterem Morais Sarmento ao barulho.
Será por isso de esperar mais agitação em S. Bento, com os bloquistas a falarem do controlo dos meios de comunicação social por parte de Morais Sarmento, elevado ao estatuto de novo Goebbels ao serviço do regime de Santana, e o PSD a repetir que pelo menos esta cunha é da exclusiva responsabilidade do conselho de adminstração da RTP e que o ministro desta vez não teve nada a ver com o favor.
Se não houver mais revelações hoje de tarde e se as alegada cunha se confirmar, trata-se de trazer para a praça pública um mal geral e recorrente das adminstrações públicas e privadas das empresas "made in Portugal". Para grande tristeza de quem teve a má sorte de nascer neste jardim à beira mar plantado, quinta onde o mérito e a competência são factores secundários para arranjar emprego e para construir uma carreira de sucesso. Infelizmente os jornalistas como os restantes concidadãos não escapam a esta tragédia de também eles sem portugueses.
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Anastácio Neto
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A Plateia - Associação de Profissionais das Artes Cénicas, que reúne mais de 20 companhias e produtoras teatrais do Norte do país, escreveu ontem uma carta à ministra da Cultura, pedindo a esta corrija a "grave situação de injustiça e desinvestimento que representam o montante de financiamento e o número de projectos a apoiar anunciados na abertura do concurso a apoio sustentado à produção teatral na região norte", segundo fez saber a representante da Plateia Catarina Martins. Na realidade é escandaloso, não só o montante dos apoios previstos para esta região (que representa o investimento "per capita" mais baixo de todo o país), como também o facto do referido concurso limitar os apoios a apenas 18 das 25 projetos candidatos.
Assim, uma companhia do Norte tem a seu cargo cerca de 230 mil habitantes, enquanto a média nacional ronda os 130 mil. Lisboa, para não variar, fica no top das beneficiadas, assim existe uma estrutura teatral financiada pelo MC para cada 84 mil lisboetas. Se se acrescentar a este número, o facto das companhias do Norte receberem menos do que a maioria, o cenário fica ainda mais negro. Existem no concurso várias estruturas que vão receber montantes na ordem de meio milhão de euros, enquanto no Norte, a produtora que terá mais apoio ficará com cerca de metade desse valor e é caso único. As restantes ficam-se em média pelos 100 mil euros.
Apesar da ministra se orgulhar de ter mais 0,1 por cento do OE 2005 para a gastar na Cultura, fica a sensação de que a responsável entende que Portugal acaba algures entre os rios Mondego e o Douro e o resto ou é paisagem ou pertence à Xunta da Galiza...
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Anastácio Neto
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Sendo "Noite Escura" um dos mais relevantes filmes portugueses de 2004 e uma das propostas cinematográficas mais arrojadas dos últimos anos, tomo a liberdade de partilhar parte de uma entrevista que tive a oportunidade de realizar com João Canijo, nas vésperas da estreia, na cidade de Porto. Depois do intenso "Ganhar a Vida", que confirmou Rita Blanco como uma das mais empenhadas e viscerais actrizes portuguesas, "Noite Escura" abre a porta para uma triologia dedicada ao Portugal profundo e sustentada, desde logo, com um elenco de luxo, com Beatriz Batarda, naturalmente, em grande plano.
Da conversa que tive com Canijo fica a ideia de uma realizador apostado em usar a sétima arte como observatório psicossociolígico de estado da nação e como arma arremesso contra o cinzentismo muitas vezes pseudo-intelectual e uma cultura das massas que, alimentada pelos média, transforma a informação em entretenimento, afogando o pensamento e a reflexão num primitivismo emocional e a roçar o populismo político. Não é de todo acidental que na exaustiva preparação para Noite Escura, Canijo tenha constatado que Portugal é o país europeu com maior densidade de casas de alterne. Ficam algunas das ideias centrais do filme vistas por um dos mais cativantes, talentosos e atentos cineastas portugueses.
-Como é que nasceu a ideia para este filme centrado nas atmosferas das casas de alterme?
-A ideia não começou pelo alterne. Começou pela Rita, Beatriz e pelos personagens gregos da peça que serve de base ao argumento, "Ifigénia em Aulis", de Eurípedes. Só depois é que andei à procura de um sítio no qual pudesse encaixar essa história. A ideia central foi mergulhar a tragédia na indiferença ou como diz Philip Roth, o triunfo da banalização sobre a tragédia.
-Mas essa vitória da banalização não acaba inevitavelmente por se converter numa tragédia?
-Sim, mas a tragédia é indiferente ao mundo que a rodeia, ninguém dá por ela. É como se não tivesse ocorrido. Essa era a ideia fundamental, afogar a tragédia na rotina de uma casa de alterne.
-Para conhecer essa rotina encetou um périplo por várias casas de alterne. Que aspectos o surpreenderam nessa experiência?
Foi um trabalho de preparação feito por mim e que demorou quase dois anos. Quando os actores entraram no projecto, eu já saiba os sítios que eles deveriam visitar.
-Fez uma espécie de roteiro...
-Exactamente. Esse roteiro foi feito a partir de visitar que fiz a casas de alterne do Minho ao Algarve.
- Ao todo quantas casas visitou?
Tenho uma ideia muito precisa. Foram no total: 85.
-Impressionou-o a dimensão do fenómeno?
-Já sabia que o Minho, em geral, e Braga, em particular tinham uma grande concentração. O que verifiquei foi que isso já não é bem verdade, pois com a aberura da A3, toda essa concentração transitou para a Galiza e Guimarães. Mas o que mais me impressionou foi saber que, não é só no Minho que existem muitas casas de alterne, mas por todo o país, acompanhando a densidade populacional de cada região. Verifiquei ainda outra coisa espantosa: Portugal é o país da Europa com maior densidade de casas de alterne por quilómetro quadrado.
-Como que é que reflete sobre esse surpresa?
-É uma reflexão interessante, pois dos países que conheço Portugal é concerteza onde se fala mais de sexo e que tem, simultaneamente, mais dificuldades de relacionamento com o sexo. Essas dificuldades relacionais têm muito a ver com a noção de pecado. Basta ver que Portugal é um dos dois países europeus onde o aborto ainda continua a ser a ser proibido.
-Temos uma raíz cultural muito católica...
-E isso faz com que o sexo, em vez de ser encarado de forma natural, seja escondido e clandestino. Isso está, também, directamente ligado ao referendo sobre o aborto, no qual o "Não" venceu. De facto, quem venceu foi a abstenção, o que não deixa de ser significativo.
-Pode significar, entre outras coisas, que o "Sim" optou por ir à praia e não às urnas.
-Que não se assumiram. O que revela uma certa hipocrisia, muito típica aliás, não só das casas de alterne, como também dos próprios países católicos.
-Em "Noite Escura" existe uma hipocrisia, um jogo de fingimentos entre as profissionais da noite e os clientes que é transposto para a vida familar dos proprietários da casa de alterne. A fronteira entre a realidade e a ficção acaba por se diluir. As pessoas transformam-se nas personagens numa interpretação perpétua...
-Completamente. No filme, Celeste, que foi uma alternadeira de prestígio, já não consegue diferenciar a vida profissional da familiar. Beatriz Batarda disse a certa altura: "o mundo da noite é viciante". É-o precisamente no sentido em que as pessoas perdem a noção daquilo que são, da sua própria identidade.
-O filme começa em continuidade, apresentando uma cena, desde logo, dramática: a Beatriz Batarda, ao lavar o chão, encontra, com uma naturalidade desconcertante, uma prostituta degolada na casa de banho. O espectador fica com a sensação de ter chegado a meio do filme, que este já comecou e houve algo que ele perdeu, alguma coisa de importância capital...
-Essa é a ideia. Quando vê um quadro, a história já começou. Não me interessava explicar como é que as coisas começaram. Pretendia apanhá-las a meio. A ideia era partir do irremediável.
-Apesar de não ser um documentário, o filme acaba por ser um retato muito realista do Portugal profundo...
-Sim sem dúvida. É realista. O filme é tão realista que teve dois argumentos paralelos: a história da familia e as conversas das meninas da casa.
-Que surgem em "voz off".
-Em "off" por contingências de montagem. Todos os diálogos estavam em "in". O argumento final tinha duas colunas paralelas com diálogos da família e das meninas. A ideia era afogar a tragédia na rotina de uma casa de alterne. Todos os diálogos das meninas são reais, foram retirados do trabalho de preparação nas casas de alterne.
-Que noites tem projectadas para o futuro?
-Este filme é o primeiro de uma triologia baseada em peças gregas. O próximo será sobre o crime organizado. O terceiro sobre o Portugal profundo, tendo em conta o crime da Figueira, em Portimão e a família da Joana.
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Anastácio Neto
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Na noite de sexta-feira, deparei-me como uma notícia da Reuters que me chamou a atenção. Resumindo, podia ler-se que a CBS News tinha despedido o produtor responsável pela interrupção dos últimos cinco minutos da série policial CSI: NY com (imagine-se a ousadia) uma reportagem especial sobre a morte do líder palestiniano Yasser Arafat. Exactamente, o produtor achou por bem que a morte de uma figura com a importância e influência histórica de Arafat seria de alguma forma mais relevante para o público do que saber se os McGyvers do polícia forense de NY conseguiriam ou não desvendar mais um misterioso crime ocorrido algures na grande maçã. Puro engano. O génio da CBS acabou mesmo por ser despedido pela imperdoável incompetência de não entender os gostos e interesses dos telespectadores norte-americanos.
Mais ainda, a notícia do despedimento surge na sequência do pedido desculpas formal emitido pela própria CBS aos seus telespectadores pelo súbito corte na emissão do drama policial, uma das séries de maior audiência nas noites de quinta-feira, nos EUA. Registe-se ainda que as duas maiores rivais da CBS, NBC e ABC foram bem mais inteligentes e não interromperam a programação normal após a morte de Arafat.
Com este triunfo da ficção sobre a realidade, ultrapassando o mais aterradores dos pesadelos de Orwell, fica uma sugestão: contratar a equipe do CSI para descobrir as causas de morte do líder palestiniano e produzir num episódio especial a emitir a partir de França. CSI: Paris.
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Anastácio Neto
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Labels: Televisão
Entre rumores políticos e algumas certezas jornalísticas ainda por confirmar, o Instituto das Artes (IA), dirigido por Paulo Cunha e Silva, uma das mais brilhantes estrelas da Porto 2001 contratadas pelo governo de Durão, irá ocupar parte do Centro Português de Fotografia (CPF), na Antiga Cadeia da Relação do Porto, abrindo assim uma espécie de delegação no Norte do IA. O facto de, quer Teresa Siza, pelo CPF, quer Paulo Cunha e Silva, pelo (IA), não poderem falar nem comentar o assunto, significa per si que a notícia avançada, nas muitas entrelinhas do discurso da ministra da cultura, na passada terça-feira, na Assembleia da República, tem, de facto, fundamento.
Resta saber se, com a Cultura a merecer os tristes 0,6 por cento do Orçamento de Estado para 2005 (mais 0.1 que no ano anterior), Maria João Bustorff não seguirá a mesma política "gueterrista" de Pedro Roseta: dialogar para dilatar, até ao limite de suportável, qualquer tipo de decisão. O regime jurídico da Casa da Música surge desde logo com um dos mais lamentáveis exemplos desta forma de governar um futuro eternamente adiado, mas recheado de reflexão.
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Anastácio Neto
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Labels: Artes Plásticas, Política
O Centro Português de Fotografia (CPF) homenageou e muito bem, no final da tarde de anteontem, na Cadeia da Relação do Porto, o artista e pensador português Fernando Lemos, com a estreia do documentário homónimo realizado pelo cineasta brasileiro Olívio Tavares de Araújo. O filme afirma-se, sobretudo, como uma ferramenta analítica indispensável, contendo material de consulta obrigatória para a concretização de trabalhos académicos sobre a vida e obra de tão singular e influente figura no meio artístico luso-brasileiro.
Apesar de reconhecido em Portugal, sobretudo nas últimas décadas, pelo seu importante legado fotográfico, tendo recebido em 2001 o Prémio Nacional de Fotografia, Lemos afirma-se sobretudo como artista plástico com frequentes incursões pela pintura e desenho, inserido no movimento surrealista português dos anos 40. O próprio homenageado desvaloriza ou pelo menos marginaliza a sua obra fotográfica confessando que "foi atrás da fotografia como poderia ter ido atrás da cerâmica ou de outra coisa qualquer."
O trabalho em formato vídeo de Olívio Tavares de Araújo inicia e termina uma viagem pela vida e obra de Lemos a partir dos seus trabalhos fotográficos realizados essencialmente nas décadas de 40/50 e que retratam de forma intuitiva e plena de sensibilidade uma geração de notáveis da cultura portuguesa, de Sophia de Mello Breyner a Mário Cesariny passando por Jorge de Sena e José Viana.
Homem de esquerda, simpatizante não filiado no PCP e naturalmente asfixiado pelo Antigo Regime, Lemos refugia-se do outro lado do Atlântico, em 1953, desenvolvendo a partir de S. Paulo grande parte da sua importante produção artítica. Apenas quatro anos mais tarde, em 1957, participa na IV Bienal de São Paulo, dividindo o prémio de Desenho com Wega Nery, conquistando, desde logo, a atenção, respeito e admiração da comunidade artística brasileira.
Portugal recupera, a partir do Porto, "a minha Lisboa a preto-e-branco", o legado fotográfico de Lemos, na exposição colectiva "A fotografia na arte moderna portuguesa", realizada no final da décda de 70. Já, em 1982, Lisboa, cidade natal do artista, desperta, para os seus trabalhos com a mostra "Refotos dos anos 40". Mais tarde, e por iniciativa do fotógrafo português Jorge Molder, a Gulbenkian organiza duas exposições individuais: a primeira, em 1992, em Paris, reunindo meia dezena de fotografias, durante o "Mois de la Photo", e uma segunda e mais ampla incursão pela obra de Lemos, já em formato de retrospectiva, intitulada "À sombra da luz", em 1994.
Pensador livre e conversador compulsivo, Fernando Lemos afirmou-se bastante satisfeito com o documentário de Olívio Tavares de Araújo, "um amigo que me conhece bem" e contente por se reencontrar com uma cidade geneticamente fotográfica, que tem permanecido atenta à sua obra. Um apontamento final para destacar o excelente trabalho que Teresa Siza tem vindo a desenvolver à frente do CPF, um raro mais pleno exemplo de como dinamismo, bom senso e criatividade podem sobreviver no seio de uma institução pública.
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Anastácio Neto
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