Tuesday, November 30, 2004

The Gift: AM/FM

Uma semana volvida sobre a desilusão “How To Dismantle An Atomic Bomb”, que muito sinceramente considero um dos piores álbuns dos U2 - conservador, previsível e pouco arriscado - tive a sorte de apanhar ontem, logo no dia de lançamento, o mais recente trabalho dos The Gift. Em formato duplo, “AM/FM” não só percorre os interessantes trilhos sonoros abertos em 2001 através do projecto conceptual “Film”, sobretudo na exploração inteligente dos metais e nas orquestrações desenhadas com sentido estético coerente sobre a base electrónica, como também evita erros do passado, como a sobreposição das vocalizações de Nuno Gonçalves em borboletas que nunca deveriam ter levantado voo. O registo apresenta-se como um trabalho notável, consistente, criativo e de uma produção invulgar, resistente e coesa. Sem criar rupturas desnecessárias, expande a plasticidade orgânica e aromática da banda, conduzindo-a por caminhos ainda mais seguros da electrónica devidamente equilibrada com harpas e metais.
De AM, o primeiro CD desenhado sobre um plano ambiental mais denso, soturno, misterioso, a roçar o romântico, destaque para “Are You Near”, melodia simples, com uma textura recheada de pequenos samples que navegam sobre uma guitarra eléctrica tão serena quanto envolvente. “Wallpaper” confirma a importância das orquestrações enquanto elementos sonoros que possibilitam uma urgente ampliação da gramática atmosférica dos temas de suporte rítmico digital, não raras vezes tão limitados a meras caricaturas musicais, uma das doenças mais frequentes no deficitário e subdesenvolvido hip-hop nacional
Em FM ressurge a alegria de outras primaveras. Soltam-se os agúdos de Sónia Tavares, pintam-se quadros de uma magia e felicidade sempre possíveis. Mais dançável, lembra Vinyl (1998) mas serve-se mais quente e com uma rotação bem superior. Testados em concertos de 2003, “Driving You Slow” e “Music” são duas presenças mais do que previsíveis obrigatórias. Enquanto, o cocktail “11.33” parte do soul e r&b, num piscar de olhos ao mercado norte-americano, abrindo-se num exotismo rítmico artificial que roça uma tímida e indesejável latinidade, autodestruíndo-se em seguida, num dos piores momentos do registo, “Cube” retoma o ponto de partida mais harmónico e jazzy, lançando pistas de leitura base para um segundo disco recheado de excelentes vocalizações e rítmos digitais que encontram em “An Answer”, o momento pop mais superlativo.
Aguardo para breve uma passagem do colectivo aqui pelo Porto para analisar a adaptação e a proposta visual “live” de "AM/FM". Apesar de considerar a independência e tenacidade as maiores e mais perigososas virtudes da banda de Alcobaça, sobretudo tendo em conta o desgaste de energia nas digressões pelos EUA e Espanha, os The Gift continuam a ser um dos mais interessantes exemplos do como o sucesso se contrói não nos concursos de televisão, mais com talento, sangue, suor e muito trabalho. Quando passou pelo Hard Club tive a oportunidade de conversar com Sónia Tavares e de comprovar como o colectivo, então a caminho de Austin, Texas, se encontrava exausto, mas sempre disposto a ir mais longe, a desbravar caminho. "Temos de acreditar em nós", dizia-me então a vocalista. No entanto, sinto que também é necessário ao projecto encontrar algumas bolsas de ar, pois a exaustão também pode ser fatal. Esse, na minha opinião, é um dos grande desafios e problemas de uma banda que necessita urgentemente de equilibrar a ambição com o "self control" e aprender a delegar alguma da responsabilidade do um destino criativo e experiêncial a terceiros competentes e capazes de conduzirem o colectivo a outros portos.

Saturday, November 27, 2004


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Titanic atraca no Porto

O dinamismo cultural da Câmara Municipal do Porto não pára de surpreender. O executivo liderado por Rui Rio, autarca celebrizado com histórica afirmação “cada vez que me falam de cultura saco logo a calculadora”, prepara-se agora para meter ainda mais água e afundar de vez com a cultura, trazendo o Titanic para o Porto. Não se trata de uma metáfora. Na próxima sexta-feira, a exposição importada de Barcelona sobre o célebre navio atraca no Mercado Ferreira Borges, com Rui Rio a presidir à inauguração agendada para as 17h00. É a resposta mais do que merecida da autarquia ao sucesso do Museu de Serralves. Segundo dados da divulgados pela edilidade e confirmados pela produtora catalã, nos três meses em que ocupou o Museu Marítimo de Barcelona, a exposição Titanic recebeu 150 mil visitantes. Por ironia do destino, as pinturas de Paula Rêgo conheceram no primeiro mês 50 mil visitas. Por isso, não espanta a feliz comparação, entre exposições-chocolate. A relevância dos eventos, quer se goste ou não, é medida acima de tudo pelo seu impacto junto do público/eleitor. António Sousa Lemos, o recém nomeado vereador da Cultura - que logo na primeira entrevista à imprensa não quis ficar atrás de Rio, inscreveu, desde logo, o seu nome nas páginas do pragmatismo político da autarquia como a frase-título: “a minha falta de ligações à cultura até pode ser uma vantagem” - foi ainda mais longe ao afirmar, na sexta-feira, que a exposição Titanic “enquadra-se na lógica de animação cultural da cidade”, qualificando o evento como “uma forma divertida de contar um facto histórico”.
Criada pela, no mínimo duvidosa, “Titanic Centenary 2012”, empresa sedeada em Barcelona e presidida pelo ex-animador de rádio, Jesús Ferreiro, a exposição que pretende levantar o astral do Porto e introduzir centenas de miúdos das escolas básicas da cidade no maravilhoso mundo das tragédias da navegação comercial, abrindo assim os horizontes culturais dos pequenos estudantes a um nível nunca dantes imaginado. Pretende ser, “uma viagem, sobretudo emocional”, sintetiza o produtor, Jesús Ferreiro. Em apenas 1800 metros quadrados, a companhia espanhola promete trazer até ao Ferreira Borges, blocos de gelo, reproduções dos camarotes do Titanic e milhares de objectos pertencentes ao navio, de fotografias a documentos de bordo, de alianças de casamento dos defuntos a jóias recuperadas das profundezas do oceano. Tudo e mais alguma coisa. Só falta mesmo trazerem os fantasmas ultracongelados ou na pior das hipóteses, o boneco Leonardo di Caprio a gritar, com voz metálica: “yo soy el rey del mundo… yo soy el rey del mundo”). Certo é que até 20 de Março, o circo Titanic está na cidade, mostrando como dos destroços do passado se constrói a lucrativa cultura de presente.

Friday, November 26, 2004

AMIarte

A Delegação Norte da Fundação AMI (Assistência Médica Internacional) está de parabéns. Para além do exímio trabalho diário no apoio social aos mais carenciados, encontrou uma forma inovadora de angariação de fundos: a Arte. A AMIarte, estrutura criada com o objectivo de promover e sensibilizar o público para o trabalho da Fundação, aproveita o 20º aniversário da AMI e celebra com dois espectáculos criados de raiz: um Recital de Música e um Ciclo de Cinema. A receita de bilheteira é inteiramente direccionada para a construção do Abrigo do Porto, junto à sua Delegação do Porto (Rua da Lomba, 153). Depois do fantástico êxito das "Transgressões Poéticas", da última segunda-feira no Bar Labirintho, no Porto, (ler post AMIarte: Amor no Labirintho) é a vez do Auditório Engº António de Almeida receber o pianista romeno Konstantin Sandu no dia 16 de Dezembro. De salientar também a qualidade dos filmes que passam no I Ciclo de Cinema "Solidariedade AMI" de 10 a 17 de Dezembro, na Casa das Artes. Apenas para aguçar a boca de alguns cinéfilos: O Quadro Negro, de Samira Makhmalbaf, Uma Mulher sob Influência, de John Cassavettes, Dogville, de Lars von Trier, Ponette, de Jacques Doillon e muitos outros... Esperamos a lotação esgotada das salas. Para isso, agradecemos a divulgação de todos. Oportunamente daremos mais detalhes...

Thursday, November 25, 2004

Coliseu do Porto oferece o pior da música brasileira

Com uma programação cada vez mais afastada das grandes digressões mundiais do planeta rock/pop (a última foi em Julho de 2002, com os Radiohead em dose tripla) e cada vez mais próxima das festas paroquiais e dos aniversários "pimba" desta ou daquela rádio para taxista e dona de casa ouvir, o Coliseu do Porto sobrevive entre bailados russos de qualidade duvidosa e o pior da música brasileira. Só neste mês de Novembro, o público do norte teve mesmo de apanhar com três artistas menores vindos outro lado do Atlântico, entre uma Ivette Sangalo e um Alexandre Pires, sobrou uma Maria Rita sobrevalorizada, exausta e sem nada de novo para apresentar. Volvida quase uma década sobre a conquista de uma das mais emblemáticas salas de espectáculos do Porto à IURD, fica a ideia de que o resultado actual arrisca-se a não compensar o esforço do passado recente. Se Maria Rita está para Alexandre Pires como Dulce Pontes para Tony Carrera, é verdade que tentei fugir à primeira, mas por motivos profissionais e de karma, vi-me obrigado a assistir ao "show" deste último, pagando assim por alguns excessos e pecados que cometi na juventude. A experiência de quase duas horas a ouvir Alexandre Pires revelou-se tão dolorosa quanto agónica, a roçar um terrorismo cultural situado algures entre a telenovela brejeira "made in Brasil" e a festa popular no bairro da Tijuca ou do Aleixo, na melhor das hipóteses.
Com um Coliseu transformado numa espécie de convenção de casas de alterne e encontro distrial de gunas brasileiros, foi aos perfumes da feira de Custóias e aos sotaques do nordeste brasileiro que a invicta casa de espectáculos ficou entregue na noite de quarta-feira. O palco transformado numa discoteca de subúrbio apresentava lençóis pretos e brancos em "background" a combinar numa sintonia desconcertante de mau gosto com a camisa branca colada ao tronco musculado e as calças de couro negras do artista de Minas Gerais. Depois de perto de duas horas de terapia de choque, durante as quais o ex-vocalista dos Só Para Contrariar encantou uma multidão de compatriotas com refrões reveladores de uma inteligência e amplitude gramatical tão singular como "amo você, meu amor" ou numa dedicatória a Roberto Carlos "amei errado, pisei na bola", o artista acabou, finalmente, o espectáculo abençoando a "galera" em nome de N.S. da Aparecida e S. N. de Fátima, pedindo aos fãs - e aqui vem a grande novidade da noite, que revela, desde logo, a elevada consideração intelectual que o cantor tem pelos seus seguidores - para não se esquecerem de que "o natal é o nascimento de Jesus". Para quê impedir a IURD de se transformar o Coliseu num "McDonald´s" da fé, quando do outro lado do Atlântico nos chegam pastores vestidos com pele de intérpretes de música popular brasileira. Que regresse ao Porto, mesmo a cantar em inglês, Caetano Veloso, que infelizmente este ano ficou-se por Lisboa, ou na pior da hipóteses, uma cada vez mais infantil e comercial Adriana Calcanhoto. Enquanto, do outro lado do Atlântico não aterrar qualquer novidade, eu insisto em ouvir "Elis & Tom", por teimosia e paixão. Lamentável é que, num país invulgarmente abençoado por inúmeros talentos musicais, a Portugal e ao Porto, em particular, só cheguem sobretudo exemplos que manifestamente transmitem uma imagem redutora da verdadeira e superlativa fescura da música e da cultura brasileiras.

Wednesday, November 24, 2004


a mais pequena luz penetra o mais duro coração... Posted by Hello

AMIarte: Amor no Labirintho

Quando os sentimentos são belos encontram-se em noites de beleza mágica.
Foi no Bar Labirintho. Primeiro falei com o Zé Carlos, (o Tinoco) que ficou encantado. Convidei-o a visitar a Delegação Norte da AMI (Assistência Médica Internacional), ele aceitou e aí surgiram logo mil ideias para o projecto AMIarte. Bom, depois surgiu o encontro com o Filipe (d'O Contador de Histórias). Pelo telefone ficou claro que há almas que têm que se encontrar um dia e ficarão firmemente unidas. O auge foi mesmo naquela segunda-feira fria, fria no Labirintho. Contrariamente ao habitual, havia consumo obrigatório (claro, o propósito é angariar fundos para a AMI, tirar os Sem Abrigo da rua, dar-lhes roupa, alimentos, calor humano... e para isto a boa-vontade também se constroi com dinheiro, a ingenuidade fica para os loucos!...) O jantar no Triplex foi muito bom; ao sabor dos alimentos juntava-se a alegria de um projecto solidário. A seguir o Labirintho. Os pequenos detalhes da luz, o som, a melhor maneira de distribuir as revistas da AMI, o que se deveria dizer à porta ... A seguir foi esperar ... Os primeiros clientes entravam com a revista na mão, um sorriso tímido e olhar expectante. Depois, pareciam aparecer aos magotes, muitos, muitos até não haver espaço sentado. Começaram a preencher todos os sítios livres onde um desnível pudesse servir de suporte. A escadaria estava bonita enfeitada pelas raparigas sorridentes. As bebidas começaram a circular. À porta, eu aconselhei "quanto mais consumirem, mais oferecem à AMI..." "Que bom, então hoje quero-me embebedar", dizia um jovem com ar traquina. As 23 horas chegaram. Esperamos ainda um pouco mais. O Zé Carlos um pouco nervoso. O Filipe a precisar de um café duplo "é sempre assim, preciso de um café duplo e de reler tudo outra vez, embora tenha a certeza que conheço o Príncipe Feliz de cor e salteado" Oscar Wilde vinha mesmo a calhar. Nem de encomenda. A solidariedade para com os socialmente não aceites...
Começou. A música parou. A voz quente do Zé Carlos inaugurou a noite. Apresentou o projecto AMIarte (um pequeno núcleo do Porto que coloca a Arte ao serviço da AMI), a seguir apresentou o Filipe Lopes e começou. A noite abriu com o conto de Oscar Wilde. A estátua do Príncipe Feliz com o coração partido e a andorinha morta aos pés. Os dois corações fundidos na brasa do Amor, da Compaixão (sinónimos para quem possui elevação de alma). Tal como anunciado, o Filipe não leu o conto, nem o dramatizou. Sem leitura nem dramatização, mas uma síntese, uma simibiose de sentimentos que contagiam, se entranham e rasgam véus da indiferença. As lágrimas do público não manifestavam emoções fugazes de melodramatismo, mas simbolizavam as pérolas e rubis arrancados da estátua para dar de comer ao povo da Terra do Príncipe Feliz, eram jóias mais preciosas que as de qualquer reino ou Estado, as lágrimas que correram na noite de segunda-feira no Labirintho era as jóias do sentimento da Compaixão (ou Amor). O Juca manipulou sentimentos com a mesma destreza com que manipula as teclas, ora Paso Doble, ora Tocata e Fuga de Bach, para se transformar em samba e acabar em lamento de jazz. Os aplausos eram sinceros. O Filipe olhava para mim "O que é que faço agora?", perguntou-me; "Não trouxeste poemas? Lê alguns poemas", aconselhei. E o Zé Carlos anunciava os poemas do Filipe. Pablo de Neruda, Álvaro de Campos, José Régio, Filipa Leal... alternadamente O Zé Carlos e o Filipe gritavam, gemiam, choravam os versos arrebatando a audiência. Ninguém queria arredar pé. A magia da noite sobrepunha-se ao cansaço. No fim, todos nos abraçávamos e beijávamos. Correra bem esta primeira experiência. Primeira de muitas, comprometeram-se ambos publicamente na despedida. Aplausos para eles, aplausos para o trabalho do grupo AMIarte, aplausos para o público que aderiu e participou neste projecto ambicioso de mostrar ao mundo que a solidariedade e o amor existem.
Escrito por isabel de http://isabelbodhisattva.blogs.sapo.pt/

Sunday, November 21, 2004


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Especial U2: como transformar limões gigantes em bombas atómicas

Bono encontra-se frequentemente com Paul McGuinness para lanchar e discutir a estratégia para melhor desmantelar a próxima bomba discográfica. Na mansão do manager dos U2 em Annamoe, a uma hora a Sul de Dublin, ambos falam de alinhamentos, partilham ideias e croissants. Após 11 milhões de cópias vendidas de "All That You Can´t Leave Behind" e de 104 milhões de dólares arrecadados com a "Elevation Tour", é tempo de arregaçar as mangas de veludo para preparar mais um assalto às princípais tabelas de vendas de discos (Reino Unido e EUA), colocar mais um álbum no sapatinho de milhares de melómanos e agendar mais uma viagem à volta do mundo. O disco sai a partir das próximas 12 badaladas, a digressão arranca, do outro lado do Atlântico, a 1 de Março, em Miami. Entretanto, nada pode ficar ao acaso, os U2 competem na "premier league" das melhores bandas do planeta, rivalizando com monstros do rock como Rolling Stones ou Metallica. É necessário estar atento às movimentações da concorrência e saber, antecipandamente, quando e onde é que os adversários vão atacar com editações e digressões. Em Inglaterra, Eminen já está fora da corrida. Bastou lançar "Vertigo".
Milhares de "bloody sundays" depois, o quarteto de Dublin apresenta nesta segunda-feira em todo o mundo o 11º álbum de estúdio. Para a mais famosa, bem sucedida e mediática banda irlandesa do planeta rock, "How To Dismantle An Atomic Bomb" não pode ser um simples CD com 11 faixas, tem mesmo de se afirmar como um produto de cultura transversal, capaz de encantar o adolescente de Detroit e, simultaneamente, despertar a curiosidade do adulto residente em Moscovo. As letras não devem ser muito complicadas, nem os temas demasiado longos. O design deve ser reconhecível a pelo menos 100 metros a partir de qualquer prateleira nas lojas de discos de todo o mundo. O single "Vertigo" é desde logo sinal da excelente estratégia comercial por detrás registo. As palavras são curtas, multiculturais, compreensíveis por japoneses e argentinos. Bono grita "Hello, Hello" e do outro lado do mundo toda a gente atende e entende do que se trata. O single já desbravou, desde dia 8, o caminho do sucesso, trepando as tabelas de vendas no Reino Unido e tirando Eminen da "pole position" das ofertas natalícias. Mas nem tudo foram rosas para os autores de "Pop" no fabrico desta bomba. A começar desde logo com a mudança de produtor, deitando para o lixo um ano de trabalho; passando pela indefinição do alinhamento e terminando na pirataria on-line, que, no início deste mês, quase adiou o lançamento do CD. Com o Natal à porta seria um desastre e meio, com efeitos colaterais na Universal e Island Records incalculáveis. Apesar do susto, a data manteve-se e a partir da meia-noite meio mundo pára para desmantelar a mais recente bomba irlandesa.
Espremidos até à última gota os limões gigantes de "Achtung Baby" e "Pop" , os U2 parece que ainda não encontraram aquilo que tanto procuram. Para sobreviver no novo milénio, o colectivo reinventou-se nas origens rock dos domingos sangrentos dos anos 80 com "All That You Can´t Leave Behind". Num exercício funambulista, a banda recuperou o público adulto de "War" e os "teenagers" de "Pop". Nada se perde tudo se transforma. "How To Dismantle An Atomic Bomb" é um passo em frente de "All the Things..." em direcção ao universo "Boy", mas sem a americanização de "Joshua Tree". Mais riffs, menos política, mais bombas, menos limões, mais rock, menos pop. O título remete para a violência e a paranóia do terrorismo, sonhos de paz, mas sem fragmentar públicos com desnecessários manifestos políticos. A música serve-se simples, quente, pronta a conquistar meio-mundo e a reclamar para os U2 o trono de melhor banda rock do mundo.
Gerados e criados em Dublin no Outono de 1976, os U2 conhecem-se a partir de um anúncio colocado pelo adolescente com 14 anos, Larry Muller, nas paredes da escola secundária, procurando músicos para formar uma banda. Paul Hewson (Bono), David Evans (the Edge), Adam Clayton e Dick Evans respondem ao apelo e formam os Feedback, uma banda de acólitos rock que se limita a tocar versões dos Beatles e Rolling Stones. Rebaptizada, em 1977, de Hype, e finalmente, depois da saída de Dick Evans para fundar os Virgen Prunes, a banda recebe o nome definitivo de U2.
O primeiro concerto surge em 1978, num concurso de talentos, na Dublin natal. Os U2 ficam em primeiro lugar e conquistam, desde logo, a atenção de Paul McGuiness, então manager dos Stranglers. No Outono do ano seguinte, os miúdos editam na Irlanda, pela CBS, o EP "Three". A digressão por Inglaterra é desastrosa. Com single "Another Day" abrem-se mais portas e acabam por assinar pela Island. Em 1980, editam "Boy" com produção a cargo de Steve Lillywhite (mesmo de "How To Dismantle"). Finalmente, conquistam a tabela de vendas do Reino Unido, ficando num interessante 11º lugar. Os singles "I Will Follow" e "Gloria" começam a abrir terreno nos EUA através da MTV. Na Primavera de 1983 "War" fica em 12º na tabela de vendas dos EUA, com "New Year´s Day" e "Sunday Bloody Sunday" em destaque, ambos os temas elevam o EP "Under a Blood Red Sky" ao 2ª posto no Reino Unido. Depois de conquistada a terra de Sua Majestade, a "pole position" nos EUA não resiste a "Joshua Tree" (1987). O sucesso é tal que nasce o projecto audiovisual "Rattle and Hum". O CDs, bandeiras, camisas e o filme esgotam comercial e criativamene a banda que atinge o ponto de ruptura. A separação parece inevitável. Os U2 são praticamente dados como mortos.
No entanto, contra todas as expectativas, segue-se o milagre da ressurreição na Berlim de Brian Eno, em 1990. Os U2 reinventam-se com "Achtung Baby". Misturam Bowie dos anos 70 com a cena electrónica de Manchester e encontram uma nova identidade, novamente explorada até ao limite do suportável em megadigessões que marcaram uma nova forma de entertenimento. Pude experimentar essa droga chamada Zoo-TV em Alvadade. Depois dessa experiência, a minha noção de concerto ficou irremediavelmente alterada. Os efeitos secundários marcaram toda uma geração.
Esgotada a "electro" com o fracasso de "Pop", os U2 encontram-se novamente num beco sem saída. A solução foi fazer marcha a trás e regressar às origens. Primeiro ensaio, 2000, com "All That You Can´t Leave.." tirou a temperatura, apalpou o terreno, segue-se o recuo mais desinibido e passional com "How To Dismantle An Atomic Bomb" à venda a partir da meia-noite numa discoteca perto de si.

Saturday, November 20, 2004


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MoMA reabre as portas

É um dos acontecimentos mais aguardados e relevantes do ano a atingir no universo da arte e que a imprensa portuguesa praticamente ignorou. O MoMA reabriu hoje as portas. Dois anos e meio e 850 milhões de dólares depois, um dos mais importantes museus de arte moderna do mundo domina agora Manhattan, situando-se entre 53ª e 54ª avenidas. As obras de remodelação a cargo do arquitecto japonês Yoshio Taniguchi conseguiram expandir o MoMA em mais de 50 por cento do seu espaço original (37,500 metros quadrados). O museu espera agora receber um milhão de visitantes por ano. Os bilhetes custam desde 17 euros/2 horas a 37 euros/24 horas.
O MoMA tem uma das maiores e mais representativas colecções de arte moderna do mundo, com um acervo com mais de 100 mil quadros, esculturas, desenhos e maquetes de arquitectura (algumas das quais já passaram por Serralves); 14 mil filmes; mais de 200 mil livros e publicações. É a meca de qualquer artista, curador, galerista ou simples apaixonado pela arte e agora ao reabrir as portas vai sem dúvida recentrar o mundo da arte novamente em Nova Iorque. Recorde-se que a primeira exposição do MoMA realizou-se em 1929 e centrou-se em Cézanne, Gauguin, Seurat e Van Gogh, uma opção relacionada com tentativa de situar as raizes da arte moderna no pós-Impressionismo.
Infelizmente, uma notícia tão importante para o universo da arte acabou mesmo por passar completamente desapercebida nos meios de comunicação social portugueses. Lamentável no mínimo...

Repórter Estrábico no Rivoli

Acabo de regressar a casa vindo directamente do pouco divulgado concerto dos Repórter Estrábico (RP), no mais do que improvável, inadequado, Café Concerto do Rivoli. Não passei pela casa de partida nem recebi dois contos, mas tive tempo para "profundamente desinquietado - arreliado até - com a blitragem impune e emergente", encontrar na actuação dos RP um "Requiem" oportuno com alguns momentos de eurosátira urgentes, desde logo, para agitar o marasmo em que se encontra a música feita em Portugal - actualmente sustentada artificalmente pela nova vaga de fadistas, sobre os quais lanço, desde já, as minhas mais fortes reservas, pois ainda estão por determinar, a médio prazo, pelo menos, as consequências da subtracção de alguma poesia, enquanto âmago da música sacrossanta de Amália e respectivos diáconos. Uma desconfiança que alargo desde já à hospitalidade lusa a fenómenos como Maria Rita, que amanhã ocupa, novamente, o Coliseu do Porto, sem trazer nada de novo na bagagem e com uma digressão de fazer inveja a muito boa gente.
De regresso ao Rivoli, a trupe subversiva de Luciano Barbosa revelou-se um projecto "cristalizado musicalmente", embora pertinente e mordaz na proposta "Eurovisão". Já tinha escutado em atenção o registo 2004 dos RP e, tal como no concerto, a dicotomia entre o meio e a mensagem acaba, infelizmente, por remeter o colectivo ao insucesso. Dos temas frescos apresentados em versão "live", destaque tão natural como evidente para "Arrumador", uma crónica tóxico-social ao problema da droga nas grandes cidades, com os "moedinhas" a servirem de munição para um tiro certeiro em direcção a Paulo Morais que ainda não se demitiu da Câmara do Porto. "Tens em mim um sujeito competente/capaz de lidar com toda a gente/nem pró caldo eu faço uma pausa/quando estou angriando para a causa."
Vestido de forcado, Líder apresentou-se, desde logo, disposto a dar o corpo ao manifesto, desde que "não me proíbam de fumar o meu SG Viltro com pesticidas". Sem tempo para nicotina, "Biltre" fez da sátira uma arma de destruição política. "Portugal não está de tanga, está de fio dental" (ver foto do álbum). Gritos "fascista, fascista", com apoio VJ de Paulo Américo a projectar, imagine-se, nas paredes no Rivoli Teatro Municipal, imagens de Santana, Durão & companhia. Provavelmente, o momento mais alto de todo o concerto. Ironia, sarcasmo e mensagens tão subliminares quanto subversivas. A recuperação de "MamaPapa" com apoio visual extraído via clip conseguiu ainda sustentar uma agitação distante de se concretizar, apesar dos apelos ao "mosh" do Líder.
"Velcro", versão rock de "Pump the Jam" e o delírio samplesco de "Eurovisão", com "The Final Count Down", dos Europe incluído, antecederam um longo encore de quatro temas. Apesar de toda a pertinência do projecto "Eurovisão", tendo em conta o contexto político actual e um referendo à constituição europeia que irá bater todos os recordes de abstenção, a versão "live", em 2004, revela as fragilidades sonoras de um projecto que, recusando a inclusão de um baterista, não encontra no suporte rítmico da "drum-machine" uma plasticidade sonora capaz de construir um edifício musical consistente, seguro, atractivo. Triunfa uma postura em palco e um cuidado cénico de Luciano Barbosa invulgar pela inteligência e profissionalismo, mas que infelizmente se revela insuficiente para fazer passar a mensagem ao grande auditório.

Friday, November 19, 2004


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A Alemanha austera, depressiva e sombria gela PoNTI

Hoje tive a oportunidade de entrar em contacto com a mais recente proposta teatral a atingir o PoNTI. O pertencioso e desisteressante, Thomas Bischoff encena pela primeira vez fora da Alemanha a peça "Gertrud", de Einar Schleef. O resultado é um tiro no escuro. No entanto, o PoNTI´04 aceitou o desafio e, infelizmente, acolhe até domingo, no Teatro Helena Sá e Costa, um trabalho dramatúrgico formalmente muito conservador, bastante depressivo e marcadamente austero, baseado no primado rítmico da palavra agónica de Schleef sobre o movimento, a salvação, a mudança. Num cenário impessoal, frio, desprovido de adereços - algures entre o manicómio, o lar da terceira idade ou a prisão - ecoa um extenso monólogo no feminimo, a duas vozes, que revisita as dores existenciais e a angústia da memória de Gertrud, uma idosa abandonada pelos dois filhos e pela morte recente do marido. Se a legendagem falhar, todo o espectáculo cai por terra. O próprio Bischoff, considerado na Alemanha como "o congelador" pela rigidez formal, confessa que a base de todo o seu trabalho e a gênese do fascínio pelos textos de Schleef "é a plasticidade da palavra". Algo dificilmente traduzível para a língua portuguesa.
Antecipando a estreia de hoje a noite, o encenador salientou ainda, "a importância da componente histórica do texto", que segundo Bichoff "é um dos trabalhos mais singulares da dramaturgia alemã sobre o conflito entre as duas repúblicas". Importa recordar que a obra foi escrita no início dos anos 80, refletindo, desde logo, uma Alemanha em ruínas, dividida, humilhada e complexada com a derrota e a barbárie da II Guerra Mundial.
A sexagenária, evocativa da mãe do escritor, "representa toda uma geração de mulheres que sobreviveram na Alemanha desde a Grande Guerra", contextualiza o encenador. A divisão Oriente-Ociente, a perda de identidade, o orgulho ferido, a irreversibilidade da história, o peso da culpa são debitados em frases curtas, duras, velozes, paranóicas, cansativas.
Num ano em que o PoNTI aceita a conveniência orçamental e se transfigura no Festival da União dos Teatros da Europa (UTE), trazer ao Porto a Dusseldorfer Schauspielhaus, mais do que o "gesto politicamente correcto" de acolher uma companhia associada à UTE, é sobretudo uma aposta inconsequente, triste, conservadora e arriscada, tendo em conta a idiossincrasia, não só da obra de Schleef, como também da aborgadem cénica de Bischoff. Uma peça a evitar que certamente irá gelar o PoNTI.

Thursday, November 18, 2004

Debate: Instrumentos musicais e IVA

Hoje tive a oportunidade de ir à Fnac de Stª Catarina assitir a um intitulado "debate" centrado no IVA e instrumentos musicais. Qualquer espaço de reflexão foi prontamente anulado por um painel de convidados, escolhidos como patrocinadores do concurso-desafio da Rockmusic, pouco ou nada interessados em alterar o "status quo" do mercado. Para Renato Gomes, representante da Fender Ibérica, em Espanha é que se está bem, pois os instrumentos sofrem apenas 16 por cento de IVA, em Portugal é uma vergonha ter livros a 5; guitarras e CD a 19. Toda a gente de acordo. É só transformar Sampaio e Santana em cruzados, enviá-los numa nau para o norte de África, esperar que desapareçam e que sejamos novamente governados pelos nuestros hermanos "filipes", mas desta vez equipados pelo el Corte Inglés.
Empenhado em animar o "debate", Ricardo Dias, da loja Rockmusic, confessou que o pessoal ligado ao sector de música (vendedores, importadores, músicos, editoras, etc) tinha era de se juntar para alterar o estado das coisas, fazer pressão, barulho qualquer coisa. De acordo. No entanto, à pergunda atirada para a mesa: então por que é que não se juntam e fazem qualquer coisa? Estão à espera do quê? Depois de muitas hesitações e alguns desvios, a resposta do lojista foi tão lacónica quanto desconcertante: "porque existe muito comodismo, sobretudo na geração mais velha". Ficámos a saber que a questão do IVA é desde logo um problema geracional.
Na verdade, o OE para 2005 não prevê qualquer mudança ao nível das taxas de IVA para os instrumentos musicais, e pelos vistos, se depender do sector de venda, importação ou revenda, não será de prever grandes alterações pelo menos enquanto a "geração mais velha" continuar a reinar. Até por que, no final das contas, quem paga a factura é mesmo o consumidor. E quando digo consumidor estou a referir os pais do jovem adolescente que está a começar a tocar e quer fazer uma banda na garagem mais próxima e não aos "ruis velosos" nem aos "pedros abrunhosas". Mas esses, os consumidores, fétichistas ou não, estranhamente ficaram do outro lado da mesa a ouvir palermices...


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"O Rei Está a Morrer" no PoNTI´04

Após a estreia em Janeiro, na capital espanhola e da subsequente digressão nacional, que recolheu aplausos da crítica e público por todo o país, a encenação de José Luis Gómez, pelo Teatro de La Abadía, do texto "O Rei Está a Morrer", de Eugène Ionesco, conhece nos próximos três dias no palco do Teatro Nacional de S. João (TNSJ), inserido no PoNTI'04, o fim de uma existência feliz, plena de consequentes, urgentes e importantes reflexões sobre a consciência a partir da morte, enquanto situação limite e absurda do ser humano, sobretudo no contexto da cultura ocidental impregnada de conceitos judaico-cristãos nem sempre esclarecidos.
Em "O Rei Está a Morrer", Berenguer, a figura omnipresente nos textos de Ionesco, é atingido, a meio de uma festa, por um ataque cardíaco, ficando às portas da morte. A consciência de que não passa de um simples mortal, impotente perante as leis de transformação comuns a todo o universo, atinge-lhe a mente com uma violência proporcional ao tamanho do seu ego. Do choque nasce a negação geradora de ilusões e delírios a roçar o surreal. Imagina-se um Rei. Luta contra a morte. Encontra na primeira mulher, Rainha Margarita, uma espécie de guia tibetana que o orienta numa viagem mais do espiritual, profundamente humana rumo consciência plena, vazia de ilusões, preenchida de vacuidade.
Para o encenador, que ontem à tarde se encontrou no TNSJ a prepara a última série de três representações, o texto de Ionesco "é a mais importante obra dramática alguma vez escrita sobre a morte". Colocando de lado as didascálias e uma série de anacronimos, a abordagem da companhia espanhola centrou-se, sobretudo, nos aspectos mais contemporâneos da obra, tentando enfatizar o drama pessoal e experiencial do protagonista e o facto "da morte estar mais perto de nós do que poderíamos à partida pensar". Dos aspectos mais siginificativos na construção do edifício conceptual e representativo da peça de Ionesco, José Luis Gómez destaca, desde logo, a união entre a poesia do escritor e textos extraídos da filosofia budista tibetana. "O final da obra - afirma o encenador - é quase uma transcrição de momentos fundamentais do "Livro Tibetano dos Mortos" (Bardo-Thödol). É o livro que mais informação tem sobre a morte ou o acto de morrer", salienta. A inflexão sobre o budismo, apesar do Bardo-Thödol não ser um livro propriamente para noviços, conduz, inevitavelmente, ao tema central da peça: a morte do ego. A forma como o ser humano se considera a si próprio, a importância que atribui a uma existência que, não raras vezes, se distancia da verdadeira consciência dos fenómenos. E este é precisamente um dos tema que actualmente me fascina cada vez mais, por razões, sinceramente não me atrevo ainda aqui a confessar.
Poesia, humor, drama, transcendência são alguns dos pontos fortes de uma peça que importa conhecer. Inserida, no contexto da programação do Teatro de La Abadia, no ciclo "Velhice, Morte e Poder" - uma triologia inaugurada com "Rei Lear" , de Shakespeare, e a encerrar com a encenção "Édipo em Colono", de Sófocles - a proposta que hoje sobe ao palco do TNJS promete atingir a mente e a consciência de muitos dos espectadores. Uma sugestão de teatro para quem tiver a sorte ou conhecimentos internos para conseguir uma entrada para "O Rei Está a Morrer".

Wednesday, November 17, 2004


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Teatro: "Ratos e Homens", de Steinbeck

Estreia hoje noite na Sala Latino, anexa ao Teatro Sá da Bandeira, no Porto, a peça “Ratos e Homens”, de John Steinbeck. Uma viagem guiada ao âmago das ilusões do sonho americano, das promessas por cumprir, numa encenação de Fernando Moreira para a companhia Art´Imagem.
Dois homens, Lenny e George, deambulam pela América da Grande Depressão à procura de emprego. Acabam a trabalhar numa herdade, carregando caixotes de laranjas. Ambos perseguem o “american dream”. Ambos ambicionam um pedaço de terra, um espaço de liberdade, uma autonomia impossível de concretizar. As devastadoras e desumanas relações de poder entre a força trabalhadora e o capital, a problemática da emigração o e o triunfo antecipado das forças ecomómicas sobre o bem comum e a “res publica” são alguns dos conceitos analíticos possíveis na obra de Steinbeck. Volvidas mais de sete décadas, e tendo as eleições norte-americanas e a constituição europeia como pano de fundo da actualidade internacional, “Ratos e Homens” continuam a comer migalhas, a sonhar com dias de felizes de paz e a serem aniquilados por forças político-económicas cada vez mais poderosas que, colocando em causa a autonomia dos estados-nação, exploram o mundo como se de uma herdade norte-americana dos anos 30 se tratasse.
Para José Leitão, director da companhia que estreia hoje a sua 80ª representação – “depois de Paul Auster e David Mamet visitámos a América de Steinbek. Afinal três américas que são todas a mesma América. Uma América que se alimenta de mitos e promessas que nunca chegam a cumprir-se”. Já para Fernando Moreira, encenar “Ratos e Homens” foi a concretização de um sonho antigo. Um sonho alimentado pela força e actualidade simbólica dos personagens. “Muitos são imigrantes que partiram do México para a Califórnia à procura de trabalho e de uma vida melhor. É dessas pessoas que queria falar, pessoas que não se deixam ficar na crise, e de alguma maneira procuram trabalho num novo país, numa nova cidade, atravessando diariamente para o outro lado do rio”.
Com um interessante desenho de luz a cargo de Leuman Ordep sobre um cenário simples mas eficaz de Ricardo Preto e com um suporte musical inteligente e talentoso de Carlos Adolfo, a proposta “Ratos e Homens” que inaugura hoje uma temporada na Sala Latino até dia 19 de Dezembro, surge uma peça fundalmental, não só para conhecer a idiossincracia do autor do clássico “A Pérola”, como também para revisitar uma América superlativa, profunda, construída sobre a fome de liberdade e a utopia do sonho.
De realçar ainda que tendo em conta o importante trabalho que a delegação do Norte da AMI - Assistência Médica Internacional, e da AMIarte, em particular, têm vindo a desenvolver no universo dos sem-abrigo e na angriação de fundos através de eventos culturais para a construção do Abrigo Social, na freguesia portuense do Bonfim, a bilheira do espectáculo da próxima sexta-feira irá reverter em favor da referida fundação. “Um sinal de que não fazemos arte pela arte”, justifica José Leitão.

Tuesday, November 16, 2004

Caso RTP cheira a cunhas

A RTP tem um novo caso que promete, desde logo, agitar a cena política nacional e alimentar ainda mais o debate, até agora intencionalmente muito mal conduzido, sobre o poder político-ecomómico que se abate nas redacções dos meios de comunicação social, uma reflexão que repite tem passado ao lado dos verdadeiros temas. Mas regressando ao actualidade, segundo fontes próximas do canal de serviço público, que actualmente emite o programa 1, 2, 3 com a arrepiante Teresa Guilherme em horário nobre, na origem da tragédia está, como seria de esperar, uma tão tradicional cunha, uma das maiores armas da confiança e destruição política da adminstração pública e privada portuguesa que, na comunicação social caminha a grande velocidade para os padrões de desenvolvimento muito próximos dos países do terceiro mundo.
Na origem da hecatombe de ontem à tarde, que levou a demissão em bloco de toda a direcção de informação da RTP, está a ingerência do conselho de adminstração no concurso interno de selecção de candidatos a correspondentes no estrangeiro. Este processo é dirigido pela direcção de informação e presidido, naturalmente, por José Rodrigues dos Santos, que toma sobre si a tarefa de analisar as candidaturas e apresentar os nomes dos vencedores ao conselho de administração que normalmente se limita a dar luz verde. Ao que tudo indica, no concurso para correspondente da RTP em Madrid, o nome de Rosa Veloso ficou num modesto quarto lugar. Quando a direcção de informação viu a dita jornalista a ser destacada para a capital espanhola pediu no dia seguinte, quinta-feira, uma reunião com a adminstração do canal para saber qual o motivo da inesperada subida no ranking. Depois da segunda reunião de ontem, José Rodrigues dos Santos, não satisfeito com as respontas que naturalmente colocavam em causa o seu trabalho, bateu mesmo com a porta, levando consigo toda a direcção de informação (Judite de Sousa, Miguel Barroso, Manuel da Costa, Maria José Nunes e Carlos Daniel).
Entretanto, os partidos da oposição já exigiram uma audição parlamentar ao director de informação da RTP para que este esclareça de uma vez por todas as verdadeiras razões da sua demissão. Depois do caso Marcelo, o PSD parece que aprendeu a lição e aceita o jogo mas com uma pequena condição: não meterem Morais Sarmento ao barulho.
Será por isso de esperar mais agitação em S. Bento, com os bloquistas a falarem do controlo dos meios de comunicação social por parte de Morais Sarmento, elevado ao estatuto de novo Goebbels ao serviço do regime de Santana, e o PSD a repetir que pelo menos esta cunha é da exclusiva responsabilidade do conselho de adminstração da RTP e que o ministro desta vez não teve nada a ver com o favor.
Se não houver mais revelações hoje de tarde e se as alegada cunha se confirmar, trata-se de trazer para a praça pública um mal geral e recorrente das adminstrações públicas e privadas das empresas "made in Portugal". Para grande tristeza de quem teve a má sorte de nascer neste jardim à beira mar plantado, quinta onde o mérito e a competência são factores secundários para arranjar emprego e para construir uma carreira de sucesso. Infelizmente os jornalistas como os restantes concidadãos não escapam a esta tragédia de também eles sem portugueses.