Wednesday, December 29, 2004

Disco Nacional do Ano: "Rosa Carne" dos Clã

Da colheita discográfia nacional 04, destaque praticamente inevitável para o registo "Rosa Carne". Se o ano passado foi indubitavelmente o ano dos Blasted Mechanism, 2004 fica marcado pelo colectivo de Vila do Conde. Para além do excelente trabalho de estúdio e do aproveitamento de letras de Regina Guimarães (colaboradora dos Três Tristes Tigres e na sétima arte de Paulo Rocha), de Carlos Tê (Rui Veloso) e Adolfo Luxúria Canibal (Mão Morta), a banda de Manuela Azevedo concretizou uma superlativa digressão nacional, com concertos tão marcantes como o de apresentação do registo no Teatro Sá da Bandeira ou nas Noite Ritual Rock, nos jardins do Palácio de Cristal.Outros registos "made in Portugal" a ter em conta este ano são "Nus" dos Mão Morta; "Bom Dia" dos Pluto, ambos revelados também nas Noites Ritual, "Cinema" de Rodrigo Leão, "AM/FM" dos The Gift, recordar passagem "live" no Rivoli, devidamente comentada aqui no vício, e finalmente, "Feeding the Machine" dos X-Wife. Xutos, Moonspell e Jorge Palma, com "Mundo ao Contrário", "Antidote" e "Norte", limitaram-se a repisar terrenos seguros e pouco arrojados, não acrescentando nada de substancial às suas discografias.

Tuesday, December 28, 2004


Vítor Rua Posted by Hello

Concerto do Ano: Vítor Rua no Contagiarte

Sinceramente ignorei a dose dupla de Madonna do Atlântico e fiquei pela minha aldeia. Num 2004 algo deprimente em termos da passagem pelo Porto das grandes digressões europeias, considero que a prata da casa acabou mesmo por valer ouro. O concerto de Vítor Rua no espaço Contagiarte foi para mim o momento "live" ´04. Estive entre as 20/30 pessoas que assistiram a uma boa hora e meia de improvisação de Rua numa guitarra de oito cordas. Entre muito suor e litros de virtuosísmo, este ano o concerto mais interessante foi "after-hours" e num local algo inesperado...

Sunday, December 26, 2004

Confessionário 2004

Aproveitando as férias de Natal ´04 e antecipando, desde já, o nascimento de um novo ano, gostaria de, com este post, saber quais os momentos culturais mais marcantes de 2004. Daí que inauguro este confessionário, dado a palavra aos visitantes do blog. A ideia é partillhar experiências singulares e surpreendentes nos campos culturais (espectáculos de música, teatro, dança ou livros, CD´s, outros). O que fica na memória de 2004? O confessionário está oficialmente aberto...

Wednesday, December 22, 2004

Entrevista a Emmanuel Nunes: "Pior do que Santana será difícil"

Uma das mais importantes vozes mundiais na área da mœsica concretiza
uma radiografia do que é necessário mudar na política portuguesa e na gestão da Casa da Mœsica. Residente em Paris há praticamente quatro décadas, onde lecciona do prestigiado Conservatório de Nacional de Música, Prémio UNESCO, em 1999, Prémio Pessoa, no ano seguinte, um dos mais influentes compositores mundais, Emmanuel Nunes passou este domingo pelo Rivoli do Porto para assistir a antestreia da sua peça "Épures", interpretada pelo Remix Ensemble da Casa da Música. Aproveitei a oportunidade para entrevistar o autor de "Le Serpent Vert" e escutar as propostas, reflexões, pensamentos e críticas. O resultado final é demolidor para a classe política portuguesa e para a actual adminstração da Casa da Música.
- Tem um sabor especial ouvir a estreia mundial de uma composição sua em Portugal?
- Esta não é a primeira vez, já houve outras antestreias em Portugal, na Gulbenkian, mas não esta peça. É, sem dúvida um momento especial para mim.
- Continua desapontado com o facto de em Portugal não existir uma orquestra formada de raiz para a música contemporânea?
- Penso que não é necessário haver uma orquestra só consagrada à música contemporãnea. O que é necessário é que a mesma orquestra toque regularmente clássica e contemporãnea. A Orquestra Gulbenkian, que eu saiba, é a única que tem feito bastante no reportório contemporãnea. Mas, é de facto, importante ter uma orquestra sinfónica que esteja em permanente contacto o clássico e o contemporãneo.
- O projecto Casa da Música acredita que poderá ser importante na revonação e construção de novos pœblicos para a música clássica e contemporânea?
- Penso que sim. A minha questão é que haja um governo capaz de decidir. Não é o caso. É tudo um problema de política.
- Nessa matéria, permita-me reportar a outro Prémio Pessoa, Mário Cláudio, que recentemente, recordado o autor da "Mensagem", classificou de "provinciana" a mentalidade da classe política portuguesa, acusando-a de ter "pouco mundo". Partilha dessa adjectivação?
- Não iria tão longe. A palavra "provinciana" é demasiado geral. Agora, há necessidade de uma autêntica cultura política, com mais independência de subordinação económica e que saiba qual é a verdadeira importância da cultura para o país. Isso, sim acho que é muitíssimo importante. Tendo como primeiro-ministro que tivemos é obvio que não pode ser. Não sei se quem virá a seguir será melhor, mas pior é difícil.
- Como é que a comunidade internacional de compositores tem visto o projecto da Casa da Música? Sente que existe alguma curiosidade ou tem passado completamente ao lado?
- Tem existido interesse. Não se esqueça que o Remix é um grupo que hoje em dia já tem um início de uma carreira internacional. Agora, é como digo,o problema é quem é vai gerir a Casa da Música.
- Pensa que o modelo de fundação é o ideial?
Francamente não sei, não estou suficientemente informado nessa matéria. Mas como disse antes, reafirmo agora, o que eu acho é que a Casa da Música necessita de um conselho de administração bem
apetrechado musical e culturalmente. É o problema do Pedro Burmester
não estar no conselho de adminstração da Casa da Música.

Sunday, December 19, 2004

Moonspell injectam "antidote" no aniversário do Hard Club

Ao celebrar ontem sete invernos de algum descontentamento, o Hard Club quis provar que ainda esta muito "Hard" mantendo a dureza granítica original e a escuridão de noites passadas à beira Douro. Para reconstruir os ambientes fundacionais, o espaço convidou pela sétima ocasião os Moonspell. Entre agradecimentos pela oportunidade e recordações de noites de lua cheia, com vampiros à espreita e lobos a uivar, o colectivo liderado por Fernando Ribeiro deixou algumas novidades para 2005 num concerto baseado em "Antidote", proposta sonora 2004 coesa e interessante, construída sobre as atmosferas poéticas de José Luís Peixoto.
Num Hard Club a ameaçar esgotar, a noite pertenceu na integra as diversas tribos urbanas plantadas no território do metal de inspiração gótica. Para além da simbologia dos casacos de couro negros e cruzes ao peito da velha guarda do metal, a "generation next" apresentou-se com alguns toques de sofisticação algo surpreendentes, num "up grade" estético-tecnológico de telemóveis 3G apontados ao palco e generosos perfumes "made in France" transformados em armas químicas de sedução maciaça.
Num ambiente em tímida ebulição, os Moonspell esperara pelo sol da meia-noite para servir "Antidote" entrecurtado com algumas "oldies" em formato "best of", com destaque inevitável para os temas "Opium", WFull Moon Madness" e "Mephisto", com memórias do histórico "Irreligious", provavelmente o melhor registo da banda, a servirem de prenda de natal para o fãs mais "hard core" da banda de "WolfHeart". O concerto não trouxe grandes novidades sonoras, limitando-se a confirmar o excelente momento da banda de metal mais viajada do micro-cosmos luso, com destaque especial para a bateria de Mike Gaspar.
Dos projectos anunciados por Fernando Ribeiro, registe-se a confirmação de actualmente o colectivo se encontrar a trabalhar no sucessor de "Antidote", a edição para breve de um DVD antológico e ainda a promessa de regressarem ao norte do país, desta vez ao lado dos britânicos Cradle of Filth, num espectáculo para M/18 agendado para 26 de Março no Coliseu do Porto.
Consciente da festa de aniversário, Fernando Ribeiro não quis terminar o concerto de anteontem sem antes considerar o Hard Club um "caso impar no contexto das salas de espectáculo portuguesas". A banda irá continuar a trabalhar no próximo longa-duração e já próximo inicia em em Fevereiro parte para a estrada acompanhando a digressão europeira dos Cradle of Filth, de Bruxelas, a Amesterdão, de Oslo a Budapeste. Entretanto, o Hard Club prepara o "Natalapalusa" para a próxima quinta-feira e a passagem de ano com propostas d´n´b e hip-hop, entre os britânicos Total Science e dos dj´s nacionais com Nuno Forte à cabeça.

Saturday, December 18, 2004

"Cores, Figura e Luz" no Museu Soares dos Reis

Museu Nacional Soares do Reis (MNSR) inaugura hoje a exposição “Cores, Figura e Luz”. Trata-se de um breve mais representativo conjunto de 28 pinturas portuguesas geradas na primeira metade do séc. XVI. Reunidas e recuperadas dos acervos do MNSC e Museu de Arte Antiga, as propostas artísticas apresentam, desde logo, uma tendência figurativa de inspiração sacra, revelando um roteiro possível pelas principais oficinas de pintura durante o reinado de D. Manuel. Dividida em cinco núcleos, a exibição propõe pintura luso-flamenga; as incontornáveis oficinas de Lisboa; os trabalhos de Cristóvão de Figueiredo centrado nas histórias de Vera Cruz; as inquietantes propostas de Vasco Fernandes e da oficina de Viseu, encerrando com o inesperado maneirismo de Francisco de Campos.
Da primeira parte da exposição, o comissário José Alberto Seabra Carvalho salienta a oportunidade inédita do público poder comparar as pinturas “A Virgem com Menino Jesus do Trono” (1515-1518), “Virgem do Leite” (1520) e “A Virgem com o Menino” (1520), estas duas últimas da autoria de Frei Carlos, da importante oficina do Espinheiro, em Évora. “Há nas três obras uma linguagem comum de símbolos virginais e redentores de Maria, a nova Eva que intercede por nós no resgate do pecado original, centrada em emblemáticos frutos e flores do Paraíso”.
Num segundo momento, entrando no contexto artístico das oficinas de Lisboa, destaque para os trabalhos “Testemunho de S. João Baptista junto dos Sacerdotes e levitas de Jerusalém” (1535-154), “Santo António pregando aos peixes” (1535-1540) e “Ressurreição de Cristo” (1537), de Garcia Fernandes, que sublinham a união de dois momentos bíblicos sobre uma única pintura.
Entrando na terceira parte da exposição, o visitante é confrontado com obras de Cristóvão de Figueiredo, colega de Garcia Fernandes. Destaque evidente para o trabalho “Santíssima Trindade”, uma obra de tipo marcadamente iconográfico que apresenta uma imponente figura do Pai segurando o Filho crucificado com o Espírito Santo, em forma de pomba, repousando sobre a cruz. Apesar da temática da Trindade e da gramática pictórica ser recorrente ao longo da Idade Média, a abordagem de Cristóvão de Figueiredo sugere uma proporcionalidade figurativa não lineas com o hieratismo teológico dos respectivos elementos sacros.
Destaque final para as propostas centradas na narrativa de Vera Cruz representadas em dois trabalhos evocativos “Milagre da ressurreição do mancebo” e num terceiro “Stª Helena e o achamento das três Cruzes”.
No quarto núcleo, referente aos trabalho de Vasco Fernandes e à oficina de Viseu, o visitante é confrontado, desde logo, com as obras “Santa Catarina” e “Santa Luzia”. O comissário José Alberto Seabra Carvalho realça “a unidade compositiva e visualmente forte que as une como um cenário único amplia o efeito expressivo com a dura aridez da natureza representa”. Destaque particular para a imagem algo perturbadora de Santa Catarina que surge de pé, segurando uma espada, sobre o cadáver de um homem degolado.
Finalmente e a encerrar a exposição, o visitante a oportundade de se surpreender na secção “Um Inesperado Maneirismo”, com o “Pentecostes” de Francisco de Campos. Interessante trabalho de elevada densidade de objectos, com representações vários apóstolos e outras figuras sacras.
Inaugurada hoje ao público, a exposição “Cores, Figura e Luz” encontra-se patente no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, até ao dia 3 de Julho de 2005.

Friday, December 17, 2004


Adolfo Luxúria Canibal Posted by Hello

Atmosferas nas Quintas de Leitura ´04

Indubitavelmente um dos mais interessantes e criativos projectos sobreviventes da Porto 2001 e, mais recentemente, do Euro 2004. As "Quintas de Leitura" no Teatro do Campo Alegre evitam operações plásticas com ou sem botox de outras celebridades ainda por (re)conhecer, desenhando momentos e atmosferas poéticas mais ou menos nobres numa cidade geneticamente lírico-depressiva. Com Nuno Júdice do topo da lista para os oscarizáveis da colheita 2004, ontem o evento encerrou a estação com a modesta proposta "Autógrafo, autocolantes", uma antestreia literária a editar em Janeiro pela Quasi, do encenador/actor Paulo Campos Reis. Nota mais para o pronto-socorro Ana Deus e o dimanismo competente e criativo de Alexandre Soares. Entre saudosos Tigres à beira do suicídio e recordações de Canijo numa desconcertante "Noite Escura", com criadora Regina Guimarães sempre à espreita, a componente musical acabou vencer a poesia, num duelo a evitar.
Em final de estação, conversei com João Gesta, confrontei memórias passadas e futuras, entre merecidos aplausos e confessadas angústias, pedindo num balanço anual e uma antevisão 05. Nos próximos dias revelarei mais detalhadamente algumas das novidades projectadas para a versão ´05, destacando, para já, em forma de "teeser" a presença de Vítor Rua, que, registe-se, este ano ofereceu um dos melhores concertos realizados no Porto, no espaço Contagiarte, que infelizmente passou ao lado dos "media" das especialidade, provavelmente destraídos com as festas de aniversário no Coliseu ou com as pop-stars do Atlântico.
Pelo caminho 04 entre poetas e músicos, recordo noites mal aproveitadas de Lúxuria e algum Canibalismo, momentos sonoros únicos e geniais com os "Uivos" de Adolfo e a Mesa bem posta de JPSimões. Registe-se ainda as descargas líricas de José Luís Peixoto em conversas off tipo Sic Radical.
Em noite de até para o ano fica um sinal mais para o cocktail nutritivo servido nas "Quintas" entre poetas novos a novos poetas passando por autores consagrados, sobra quase sempre boa música num dos espaços mais criativos e interessantes da cidade do Porto. Uma espécie "best of" do Pinguim com o olhar cultural virado para uma paisagem além Rio e Douro.

Thursday, December 16, 2004

Manoel de Oliveira: "onde está a inteligência dos homens?"

Noite de antestreias no 10 aniversário das salas do Cinema Cidade do Porto. Prato princípal "O Quinto Império - Ontem como Hoje", de Manoel de Oliveira. Guardo para 27 de Janeiro, data da estreia em Portugal, a respectiva análise crítica do filme. Para já ficam algumas pontos de reflexão e de intensão deixados ontem à noite em jeito de "flash-interview" pelo realizador. Não é de todo inocente a escolha pela peça de Régio sobre o mais poderoso mito da nossa cultura e nacionalidade. A actualidade da película é construída, segundo Oliveira, sobre dois pilares base: uma analogia política e uma inversão do confronto religioso. O primeiro considera a ideia de União Europeia próxima da noção de Quinto Imperio, tendo como pano de fundo o sonho, a loucura e a ambição centralizadora de El-Rei D. Sebastião, (nas palavras do padre António Vieira "um só rei, um só papa") e a sede constitucional e federalista da UE. Para Oliveira "a democracia tem vindo a aproximar-se da ideia do Quinto Império" ou seja um poder centralizador e globalizante que tende a "fazer uno e que é desuno". Do ponto de vista religioso, para o realizador as cruzadas do Desejado reaparecem invertidas: "agora são os muçulmanos contra os católicos". Finalmente, numa incursão teórica algo surpreendente, muito próxima da teologia da libertação e da ecologia humana de Gutierres a Boff, Oliveira relaciona ainda a problemática da globalização com a dignidade do homem e com respeito pelo meio ambiente, desabafando perante o suicídio da destruição do nosso habitat: "onde está a inteligência do homem".
Apesar concordar no essencial com Oliveira, importa, no entanto, separar as águas em termos do carácter imperialista da UE e do novo rosto do Império denominado de globalização. Enquanto o primeiro possui um suporte político que se encontra em crise por falta de espaço não ideológico mas sim empírico, em parte resultado de uma estrutura centralizadora cada vez mais barroca e incapaz de fazer frente ao poder económico; o segundo cresce precisamente pela subjugação da poder político e pela metamorfose perversa para uma estrutura já não unificada e piramidal mas antes descentralizadora com tentáculos semi-independentes capazes de se autoreproduzirem numa expansão que não reconhece fronteiras geográficas, nem necessita de referendos populares.

Wednesday, December 15, 2004

Evento/reflexão: Cinema na cidade do Porto

As quatro salas de cinema do Cidade do Porto celebram hoje dez anos de existência, aproveito a oportunidade para uma breve reflexão e algumas memórias sobre a sétima arte no Porto, mas primeiro fica o convite para logo à noite, a partir das 21h30, assistir a uma das quatro estreias em simultâneo que ocupam a quatro salas do Multiplex, numa amostra do que segue já para os ecrãs em Janeiro 05. Confirmadas estão também as presenças especiais do realizador Manoel de Oliveira e do actor Ricardo Trêpa, ambos tomam sobre si a responsabilidade de apresentar, em antestreia nacional o mais recente projecto de Oliveira: “O Quinto Império - Ontem como Hoje”, com estreia oficial marcada para o próximo dia 27 de Janeiro.
Volvida uma década sobre o pioneirismo tecnológico e dos sustos gerados pelos então inovadores sistemas de som Dolby Digital, com espectadores a saltarem das cadeiras e a reclamarem na bilheteira do Cidade do Porto pelos sustos acústicos, concretizando assim experiências cinematográficas feitas de emoções fortes, o espaço desenhado no atelier de Manuel Graça Dias e Egas José Vieira apresenta-se hoje como uma ilha de resistência cultural, revelando uma programação sustentável entre propostas "mainstream", como "Alexandre, o Grande", e produções de autor europeias, como "Olhem para Mim" de Agnès Jaoui, acolhendo ainda a Festa do Cinema Francês e os alguns dos mais significativos títulos do cinema português, a estreia de logo à noite, do "Quinto Império" é um exemplo mais do que superlativo.
No actual contexto comercial, o cinema encontra-se dominado, sobretudo a partir de segunda metade da década de 90, pelas grandes superfícies que debitam semanalmente um volume de estreias absolutamente incomportável e cada vez mais viradas para a teoria do mastiga e deita fora, impossibilitando assim a entrada no circuito de obras menos convencionais. O que triunfa é, sobretudo, o cinema industrial norte-americano que, especialmente, na última década, tem refinado até aos limites do absurdo, com o profissionalismo de marketing desconcertante, produtos especificamente desenhados para conquistar público à escala mundial, simplificando argumentos, linguagem, personagens, apostando em temáticas "worldwide", adaptações de vídeo-jogos, heróis da BD, qualquer símbolo que já tenha penetrado entre culturas e seja facilmente reconhecível e consumível nos quatro cantos do mundo. São cada vez mais raras as surpresas nos filmes de Multiplex. O mais dramático é que o público já nem exige uma novidade, em espanto, contentando-se simplesmente com uma boa dose de sustos no ouvido, três toneladas de efeitos especiais e uma dupla de caras conhecida.
Neste contexto, duas das quatro salas do Cidade do Porto, bem como o Nun´Alvares afirmam-se, desde logo, como locais de culto para um público cinéfilo que procura, sobretudo, assistir aos títulos premiados nos festivais de Cannes, Veneza ou Berlim, em detrimento do ir ao cinema para ver qualquer coisa que acompanhe a digestão de um saco de pipocas. No Nun´Alvares vivi experiências cinematográficas tão marcantes como a exibição d´ “A Festa”, de Thomas Vinterberg, com o público a ficar agarrado à cadeira uns bons cinco minutos após o final do filme, ou já no Cidade do Porto, uma extraordinária e cativante conversa com João Botelho a propósito da comédia "A Mulher que Acreditava Ser Presidente dos EUA" ou ainda ao entrar em contacto com um dos melhores filmes que vi este ano: “O Regresso” do russo Abdrey Zvyagintsev.
Actualmente, e depois do dramático, para não dizer ridículo e autoritário, encerramento do Terço, mesmo aqui à beira de minha casa (lembro-me perfeitamente da última sessão, com interessantíssimo “As Horas”, de Stephen Daldry), o Porto sobrevive com apenas dez salas de cinema, enquanto só o Arrábida, em Gaia, propõe 20 cinemas. É triste, no mínimo, assistir ao abandono, à morte por indefinição, do Batalha e da sua sala Bébé, na qual o cineclube do Porto tantas obras referenciais da sétima arte exibiu, criando uma geração de cinéfilos actualmente em vias de extinção. É doloroso ver o Teatro Sá da Bandeira a cair aos bocados e a passar filmes porno, onde, no início do século XX, Aurélio Paz dos Reis apresentava ao país a mágia do cinema no intervalo de sessões de teatro popular. A média de 100 mil espectadores/ano das salas do Cidade do Porto e a ressurreição do Passos Manuel (sobre o qual sempre coloquei algumas reservas quanto ao formato e à intencionalidade), ambas significam uma pequena amostra de resistência cultural numa cidade pioneira e fundamental na história do cinema português, mas que,infelizmente, caminha a passos bem largos para um deserto de alternativas de qualidade. Ao Porto, sobram pipocas e coca-cola e faltam espaços dedicados ao cinema enquanto arte.

Tuesday, December 14, 2004


X-Wife ao vivo no CBGB´s em Nova Iorque/DR
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X-Wife: memórias de New York

Após uma conversa telefónica, no final da tarde de ontem, com João Vieira, registo em "blog" alguns postais sonoros da operação Nova Iorque 2004 dos X-Wife. Entre 14 e 28 de Novembro, a banda de "Feeding The Machine" tomou de assalto a cidade de todas as insónias, concretizando uma série de quatro concertos e um "radio-show". Os efeitos transatlânticos ainda por determinar, congelam para já a edição do segundo longa-duração, num "wait n´ see". De regresso a casa e na véspera de voltarem à estrada ao lado dos Way Gunn ficam algumas impressões digitais de uma incursão ousada pelas por terras do Tio Sam.
Convém antes de mais situar a génese da mini-tour. A ligação Porto-Nova Iorque nasceu via digital com a blogosfera a afirmar-se como ponte intercontinental. A internet transportou até aos EUA os primeiros acordes do tema "Eno", no tão perseguido como abençoado formato mp3. Primeiro no site newflux, de Matthew Perpetua, mais tarde no blog do produtor e “rocker” de New Jersey, James Murphy, mentor da "label" DFA, índo posteriormente parar às prateleiras da discoteca "Other Music", no cruzamento da Broadway com East 4th. "Foi através desses contactos que fomos recebendo algum "feedback" positivo e medindo o impacto da nossa música no circuíto mais "underground" de Nova Iorque", revela João Vieira. "Foi-se criando uma certa curiosidade e algum interesse em conhecer os X-Wife ao vivo".
Após meia-dúzia de e-mails e outros tantos telefonemas, a banda juntou poupanças dos concertos, comprou air-tickets, confirmou os "gigs" e o repouso no mítico Hotel 17, em East Side ("pousada" onde Woody Allen rodou “Manhattan Murder Mistery”), finalmente, o trio aterrou em Nova Iorque. Primeira paragem na discoteca "Other Music", na East 4th. "é uma das mais importantes discotecas da cidade. Ficámos, naturalmente, satisfeitos por saber que adoram o nosso trabalho e que tinham o disco em grande destaque". O colectivo aproveitou a oportunidade para efectuar um depósito na loja de 25 discos, dos quais 20 esgotaram em apenas três dias. "Foi a reacção aos concertos", justifica João Vieira. "No final das actuações, as pessoas vinham ter connosco para comprar o disco e saber onde é que íamos tocar a seguir". Segundo o guitarra-voz, o púbico foi crescendo em cada concerto, com algumas caras a repetirem a dose de X-Wife.
Primeiro palco CBGB´s. Sala-epicentro do fenómeno punk nova-iorquino, na década de 70, por onde passaram Ramones e Blondie, entre outras referências. "Serviu mais como uma espécie de ensaio geral para o fim de semana", confessa Vieira. A banda tocou ainda no Rothko, Sin-é e Pianos, com uma "radiosession" pelo meio, no programa "The Cherry Blossom Clinic", tempo de antena de Terre T., na WFMU, espaço que já acolheu projectos locais de “hype” internacional, via NME, com The Stokes e Yeah, Yeah, Yeahs (saudades de Paredes de Coura´03). Conclusão: "Temos mesmo de sair do Portugal para criar algum burburinho", dispara Vieira. "Este foi só um primeiro contacto, esperamos regressar em 2005”, prometeu.
Tendo em conta o sucesso da primeira incursão nos EUA, João Vieira aguarda pelas ondas de choque da operação NYC´04, colocando, para já, em "stand-by", no congelador, a edição do segundo longa-duração."Não faz muito sentido lançar este ano um álbum, quando o primeiro começa agora a ser conhecido lá fora. Entretanto - revela o músico - vamos apresentando ao vivo os novos temas. Evitamos repetições. Queremos mostrar ao público que os X-Wife continuam a trabalhar". No regresso à estrada lusa, ao lado dos Way Gunn, o próximos concertos dos X-Wife, ocupam, no próximo dia16, o espaço Le Son, em Coimbra, e no dia seguinte o Santiago Alquimista, em Lisboa.
Depois de entrevistar o colectivo mais de três ou quatro vezes, em situações diversas, desde ensaios de garagem a actuações do HC ao TSB, com prestações bastante irregulares, diga-se em abono da verdade, fica, sobretudo, a nota positiva do ir para a estrada, do arriscar, do não se contentar com o lugarzinho ao sol e com os 15 minutos de fama. Longe de seguir o trajecto dos The Gift, da electrónica via Texas, ao rock de Nova Iorque, as diferenças são mais do que muitas, fica o estado de espírito e a convicção "pro" de que sem trabalho, sem um certo sentido de risco, de ousadia e de coragem pouco ou nada se consegue nesta ou noutras vidas.

Saturday, December 11, 2004


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Lou Reed inaugura Casa da Música

Provavelmente o rumor mais interessante da semana coloca Lou Reed na inauguração da Casa da Música, aqui no Porto, finalmente agendada para 14 de Abril. O Blitz reparou que no site oficial do músico a data estava reservada para Portugal e tendo em conta o silêncio, do não confirmo nem desminto, por parte do sector da programação da mais polémica infra-estrutura herdada do pesadelo 2001, tudo leva a crer que o rumor possa transformar-se em realidade já em Janeiro, data da apresentação oficial das primeiras propostas a subirem ao palco da CM, definidas, desde logo, pelo director artístico de serviço, o britânico proíbido de falar com a imprensa, Anthony Withworth-Jones.
Esperam-se fantasmas dos "Velvet Under mais um menos ground" dependendo ainda do Metro na Boavista, com Lou Redd a protagonizar um "Walk on the Rui Rio Side", pois no que diz respeito a ministros da cultura, ou outros dentro do género, os passeios são improváveis e tudo menos alegres. Salve-se tão esperado com urgente metamorfose em fundação para acabar de vez com a dança das cadeiras laranjas ou cor de rosa. Olhando para Serralves, o melhor mesmo e deixar que os privados entrem na música e arrumem a casa de uma vez por todas. Ontem Belmiro de Azevedo confirmou que já foi convidado para o projecto, mas só entra com uma gestão igual à de Serralves, ou seja, menos dependente do poder regional e central.

Thursday, December 09, 2004

Crítica: The Gift no Rivoli

Acabei de regressar do Rivoli, no Porto, onde assisti à apresentação “live” do registo “AM/FM” dos The Gift. Globalmente, faltaram metais, sobraram “samples” numa aposta visual fortíssima, cativante e coerente com o conceito global do álbum, deixando antever um interessante 2005. O espectáculo mais maduro em termos de trabalho de luz e imagens digitais do que a proposta anterior, coloca de lado alguma inocência definitivamente perdida na digressão “Film”, elevando ainda mais a importante componente estética do colectivo de Alcobaça. No entanto, como seria de prever e tendo em conta de que se trata de um concerto de apresentação de um álbum recém editado, alguns dos temas sucumbiram na adaptação ao vivo, sobretudo, pela ausência de orquestração de cordas e metais, em propostas como “Wallpaper” e a “american radio-friendly” “11:33”, outras, como “Wake Up” revelaram entradas fora de tempo e falhas de afinação. Em ambos os casos, na estrada, o colectivo irá certamente rever o alinhamento e eliminar alguns excessos e carências geradoras de alguns momentos demasiado ásperos nos “samples” e carente do tal suporte orgânico de cordas e metais que, francamente considero urgente e catalizador da energia e da força contagiante da banda.
Dos momentos mais felizes, destaque para “Bonita”, melodia encantatória que ao vivo ganha em amplitude e num sentido vocal de Sónia Tavares recheado de uma ausência grave e cativante. “Are You Near”, o single mais do que perfeito, lembra Brian Eno, contém referências electrónicas provocantes, letra inteligente, necessitando apenas de uma guitarra mais desinibida, que transporte o tema para outra dimensão, à qual parece aspirar sem no entanto a conseguir atingir. “Cube”, “Driving You Slow”, “An Answer” “Music” e “Pure” são apostas ganhas que certamente irão incorporar o alinhamento do colectivo para 2005 e anos seguintes.
Em encore, o público teve a oportunidade de rever outros filmes: “Front Of”, “Question of Love”, com o auditório a ameaçar arrancar as cadeiras e começar a dançar, e finalmente, “So Free”. Pelo meio regresso a FM com “Red Light” em versão XL, impecável num encerramento quase perfeito. O espectáculo revelou alguns pontos fracos e uma nova e ousada aposta visual que certamente agradará aos fãs da banda e à nova geração MTV. Uma renovação estética que, tal como o álbum, sem criar rupturas desnecessárias nesta fase, consegue recriar um ambiente digital coerente com o conceito geral do colectivo. Depois da feira Texana em Austin, espera-se um verão 2005 com alinhamento mais maduro e uma prestação mais descontraída, alegre e sem tantas arestas por limar. O disco de prata é obrigatório e certamente atingirá pelo menos as 20 mil cópias.

Wednesday, December 08, 2004


"Memory Bucket", Jeremy Deller (2004) foto: TM, Reuters Posted by Hello

O efeito Bush e Gordon no Turner Prize

Patrocinado pela primeira vez pelo gin Gordon´s, uma vídeo-digressão entre dois dos mais famosos ranchos dos EUA conquistou anteontem o Turner Prize, na Tate londrina. Importa esclarecer que os jurados não estavam com os copos. Certo é que, para não variar, a política pesou certamente na decisão. O artista britânico, Jeremy Deller arrecadou o prémio, levando para casa 48,500 dólares através da instalação vídeo "Memory Bucket" que recorda uma viagem entre o rancho do presidente George W. Bush, em Crawford, e o não menos conhecido quartel-general do líder religioso Davidian, em Waco. Com uma lista de prováveis vencedores muito mais politiziada do que em anos anteriores e sem a presença de qualquer pintor, o que não deixa "per si" de ser significativo, o Turner Prize apresentou como principais possíveis ganhadores nomes como Ben Langlands e Nikke Bell, cuja inspiração se centrou em Osama Bin Laden, em outra proposta vídeo de uma vila abandonada algures no Afeganistão, por onde o homem mais procurado do mundo Ocidental teria passando uns dias, provavelmente de férias. Gill Hedley, director da Contemporany Art Society, justificou à Reuters que não acreditava que os jurados perderam a noção do que é a arte, mas que, simplesmente, “vivemos numa altura em que esta coincide com política”. Sobre a possível influência do gin Gordon´s na decisão dos júri, nem uma palavra. Provavelmente por que em 1988, Chris Ofili ganhou o Turner com a "The Holy Virgem Mary" uma representação negra e considerada por muitos pouco elegante da virgem Maria e, em 1995, Daminen Hirts ganhou mais um punhado de dólares na Tate com trabalho "Away From The Flock", apresentado uma ovelha dentro de uma caixa. Outra das sensações da história do Turner foi protagonizada por Tony Kaye, em 2001, ao tentar submeter à consideração do júri como obra de arte um insuspeito trabalhador metalúrgico sem-abrigo.
Anualmente, para além de trazer para o circo mediático um artista cujos trabalhos se vêem subitamente inflacionados no mercado da arte internacional, o Turner Prize levanta questões, essas sim interessantes, sobre a identidade e as novos percursos da arte contemporânea. Este ano, arte e política andaram de mãos dadas. Nem importa recordar que na Sétima, em Cannes, Michael Moore também não saiu de mãos a abanar e não foi certamente pela excelência cinematográfica da proposta “F9/11”, ao contrário do que Quentin Tarantino jurou. Pessoalmente, penso que George W. Bush e o gin Gordon´s são, sem sombra de dúvidas, os grandes protagonistas da revolução artística contemporânea, levando-a por caminhos nunca dantes calcorreados.

Tuesday, December 07, 2004

Luciano Barbosa com Ana Sousa Dias

Acabei, há minutos, de desligar a televisão, onde pude assistir a mais uma excelente entrevista de Ana Sousa Dias no programa "Por Outro Lado". O convidado, Luciano Barbosa teve a inteligência suficiente para colocar o dedo na grande maioria das feridas que neste momento afectam o sector da música em Portugal. Da estúpida taxa do IVA nos CD e instrumentos musicais, transformando bens culturais e intrumentos de trabalho em artigos de luxo, ao "lobbie", cada vez mais escandaloso, das editoras sobre as rádios, que depois de aniquilarem por completo os programas de autor, fabricam "playlists" em troca de motas de águas, percentagens das vendas de CD e outras ilegalidades que, neste momento, atingem os limites escandalosos do terceiromundismo, entre uma série essencial de outros temas greves e prementes que merecem ser discutidos na praça mediática, não fosse esta uma das principais cúmplices do "status quo" vergonhoso e decadente dos grandes interesses económicos que asfixiam, não só o poder político, transformando a democracia republicana num exercício de plutocracia clássica legítimada pelo povo, como também acaba por aniquilar a própria arte e cultura. Neste contexto, a diferença entre Santana e Sócrates é puramente estética.
De regresso à cultura, apesar de já ter manifestado aqui no blog a minha preocupação quanto a abordagem sonora dos Repórter Estrábico, depois de, não só ter escutado atentamente "Eurovisão", como de ter assistido ao concerto no Rivoli, a 20 de Novembro, considerando, entre outras coisas, que o meio que utilizam nem sempre me parece o mais adequado para fazer passar uma mensagem tão inteligente quanto burlesca e urgente, a supracitada entrevista fez-me desde logo relembrar conversas soltas como Luciano Barbosa nesse labirinto de salas de ensaio em que se converteu o Stop e em projectos e utopias de transformar o decadente centro comercial num verdadeiro centro musical. Entre Stop, que acolhe mais de três dezenas de bandas, o Sirius, com Kitten em versão X-Wife, passando outras salas de ensaios, como Baixa a Tola, em Matosinhos, ou "Poltergeist", no cruzamente da Boavista com Cedofeita, locais que tive a oportunidade de visitar e reportar, em labor "afterhours", falta, ao fim e ao cabo, investimento privado, vontade pública e sobram obstáculos políticos e económicos para quem quer fazer música em Portugal. A começar nas garagens e a terminar nas rádios, o cenário é equivalente ou pior a alguns países sul-americanos por onde andei.

Monday, December 06, 2004


 Posted by Hello