Thursday, March 31, 2005

Resultados do concurso do IA ou a táctica do elefante

Foram conhecidos ontem os resultados dos concursos do Programa de Apoio Sustentado às Artes do Espectáculo. Apesar do ligeiro aumento relativamente a 2004, o Norte ficou na cauda das regiões a apoiar pelo IA. Apesar de conhecer excelentes profissionais do teatro, dança e música aqui no Porto, e que certamente terão a partir de hoje as suas vidas bem mais complicadas, não sou "bairrista" acreditem, até por que passei uma parte considerável da minha vida em Lisboa, no entanto, quando se conhece as pessoas, a sua honestidade e esforço de criação, dói olhar para a injustiça de certos números. O problema é ser-se português, descupem a franqueza. Bons profissionais existem de Norte a Sul do país. Quando só se têm 0,6 por cento do OE reservado à Cultura, apoiar o acto criativo em Portugal é equivalente a tentar cobrir um elefante com um guardanapo...

Tuesday, March 29, 2005

Pensamento


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"Só se consegue amar alguém quando não se necessita do amor dessa pessoa", Tsering Paldron

Monday, March 28, 2005

QOTSA - "Lullabies to Paralyze"


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Estou neste momento a ouvir o mais recente "Lullabies to Paralyze", enquanto escrevo estas linhas. Talvez expectativas demasiado elevadas levam-me a colocar esta viagem quase surreal pela iconografia audiovisual dos contos de fadas num plano inferior às "canções para surdos", no entanto, "Little Sister" é indubitavelmente o primeiro grande single rock a atingir rádios e televisões este ano. Recordo-me perfeitamente da conversa com Mark Lanegan no Hotel Meridian, aqui no Porto. Saudades dos Nirvana, paixões de PJ Harvey e viagens pelo deserto californiano, com algumas sessões orientadas por Homme à mistura. Depois o concerto no TSB. Fiquei com um zumbido nos ouvidos durante três dias. Altíssimo e com muito bom som, os QOTSA ofereceram um dos melhores concertos que aquele templo, actualmente ocupado por La Féria, alguma vez recebeu. Depois foi no histórico Paredes de Coura 2003. Ano de grandes novidades na área do rock. YYY e a Karen em grande destaque numa estreia em território nacional que não poderia perder.
Volvidas algumas primaveras e outras tantas saídas, temporárias acredito, as novas canções de embalar não possuem a mesma dose tóxica e inebriante de "Songs" ou "R". No entanto, "Someone Is In The Wolf", "The Blood Is Love" e "Broken Box" afirmam-se como propostas musicais da mais elevada qualidade. Riffs do Josh lembram Page, os coros Sabbath, tudo misturado com a ironia feliz e descontraída da Califórnia. Continua a ser um prazer ouvir os QOTSA e um ruído ler as infelizes comparações entre Castillo e Grohl.


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Sunday, March 27, 2005

TV OFF

Oito dias com a televisão desligada. Já pensei em simplemente oferecer o electrodoméstico, mas ainda não estou tão "clean" quanto pensava...

Cradle of Filth no Coliseu e novidades discográficas

Passei a noite de ontem no Coliseu do Porto a assisitir ao novo espectáculo dos britânicos Cradle of Filth, após a escuta prévia da proposta 2005, "Nymphestamine", numa edição especial de dois CD, com seis faixas-bónus e o vídeo-clip do single. Apesar de não ser um adepto do black metal, longe estou dos tempos da secundária ao som dos vinis de King Diamond, Slayer, Sepultura e Metallica, considerei o trabalho dos Cradle bastante interessante em termos estéticos e sonoros. Justifiquei a minha presença e as sensações e conceitos do espectáculo num artigo a pulbicar amanhã no "Comércio do Porto".
O disco é bem mais interessante que a apressado espectáculo "live". Apesar da considerar que a inclusão da voz e do visual de Sarah Jezebel ser uma piscadela de olho ao lucrativo mercado dos adolescentes, tendo como referência a explosão Amy Lee, dos Evanescence, e do design e encenação em palco serem marcadamente importado das propostas cinematográficas dos anos 80, entre o "Exorcista" e "Hellraiser", alias ainda me recordo da conversa com Doug "Pinhead" Bradley no Fantas, que novamente colabora como narrador neste novo trabalhos dos Cradle, não dei a noite como perdida.
Tenho na bagagem uma série de discos para ouvir. Os novos trabalhos dos Queens of The Stone Age, que numa breve audição deixa muito a desejar em comparação com o poderoso "song for the deaf" e destaco ainda o novo EP dos RAMP, com uma "cover" interessantíssima de "Planet Earth" dos Duran Duran, que bem pode servir de cavalo de Tróia para LP "Nude", que, apesar da qualidade, tem sido muito mal tratado pelos "media".

Wednesday, March 23, 2005

Apego e sofrimento


Vasily Kandinsky, Composition 8, Julho 1923.
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O luto de alguém que amo levou-me a refletir sobre o apego e a forma como nunca estamos preparados para deixar partir a pessoa amada ou o objecto da nossa afeição. Todos os encontros nesta vida acabam inevitavelmente com uma separação. Quanto mais profunda e antecipadamente tomarmos consciência desta impermanência menos estamos sujeitos ao sofrimento...

Monday, March 21, 2005

Império Blasted: Episódio III - Avatara

Império Blasted editou hoje episódio III: "Avatara". Com "Namaste", 2003 afirmou-se como o ano de todas as emiss~ees intergalácticas dos Blasted Mechanism. De Paredes de Coura aos noites Ritual, assisiti a pelo menos uma boa meia dúzia de espectáculos, "Are You Ready", single revelado em vídeo-clip no Fantas, dominou o território "live" de Portugal e arredores. Volvidos dois anos, os mensageiros mutantes reinventam-se com "Avatara", terceiro episódio discográfico a libertar hoje nas discos, aventura cósmica do colectivo karkoviano renascido há uma década algures na margem direita do rio Tejo, planeta Terra. Em termos conceptuais a quarta mutação transforma o trio Ary, Karkov e Valdjiu em elementos congregadores. Depois de guerreiros, recolectores e apaziguadores, "Avatara" (designação referente a encarnações divinas na teologia brimânica; do original sânscrito "avatar":"descida do céu"), o planeta Terra surge novamente como o território de todas asmanipulações. Para os Bastled a salvação dos humanos ainda é possível.Mais orgânico e menos electrónico, "Avatara" não se desvia no essencial das sonoridades formalizantes do colectivo. "Blasted Empire" inaugura, em velocidade "wrap", uma viagem sónica por um registo equilibrado, entre renovadas incursões tribais de cítaras e didjiridoos, com a voz de Maria João em destaque, e na assunção de atmosferas urbanas, desta vez, simplificadas pelo "rap" profético dos Dealema. Em conversa via telefone, Ary confessou-me que "Avatar" um disco mais espiritual". Para o baixista e co-produtor, "a presenãa de Maria João singnifica a concretização de um sonho", "os Dealema oferecem um cáracter urbano" e o "DJ Nelassassin um virtuosismo na área do djing". Ao vivo, os Blasted prometem um "up grade" tecnológico. Novas roupas de Gerardo Haro, concretizam a quarta metamorfose, acompanha por uma reactualização do espectáculo de som e luz. Depois da digressão de apresentação antecipada, que passou pelo Porto na passada sexta-feira, (infelizmente não pude assistir), "Avatara" será certamente um dos pratos princípais da temporada de concertos a atingir o verão 2005. Sem surpreender, em termos musicais, possui a essência destilada nas vibrações orientais dos Blasted. Uma banda que ao vivo vampiriza-se com a proposta estética. As narrativas e os personagens "live" devoram os músicos por detrás das máscaras.

Friday, March 18, 2005

As politicas culturais da minha aldeia

Infelizmente, Rui Rio parece mesmo empenhado em se recandidatar à Câmara Municipal do Porto. Para tal não olha a meios para atingir fins. Desta vez a vítima, para além do habitual bom senso, foi Filipe La Féria. Rio teve o descaramento ontem de manhã de convidar os jornalistas para assistirem à assinatura de um protocolo entre a CMP e La Féria no Teatro Sá da Bandeira. Para além de convidar terceiros para uma casa que não é sua, quando li o documento tomei consciência de que a peça de teatro já estava a ser representada e não era "A Rainha do Ferro-Velho", pois essa estreia hoje à noite, nas sim "O Homem da Máquina de Calcular", um clássico cá da aldeia. Rio e La Féria eram de facto dois actores em plena laboração, sendo o segundo um "casting" algo inesperado, confesso. No protocolo, Rio é obrigado a ceder locais para afixação de cartazes e "mupis" à produção do espectáculo, a comprar bilhetes para as peças "A Rainha do Ferro-Velho" e "A Menina do Mar", e finalmente, numa espécie de pré-campanha eleitoral, a oferecer essas entradas a idosos e crianças do Porto. Mais imoral ainda, o documento obriga a empresa de La Féria, Bastidores, a ficar no Teatro Sá da Bandeira durante três meses e a recuperar o malogrado teatro. Agora, pergunto-me, sendo o TSB um espaço privado, gerido por uma empresa privada, como é que é possível a Câmara do Porto assinar um documento que obriga La Féria não só a ficar numa casa que não é sua e para a qual naturalmente teve de pagar renda ou aluguer, como também o compromete a fazer obras (naturalmente de fachada e cosmética, pinturas e limpezas de pó) num espaço que não pertence nem à Bastidores nem à CMP, os dois outorgantes do documento. Estamos na esfera do ridículo e da encenação, no seu sentido mais puro.
PS: Nota negativa para a colega de curso e de profissão, Joana F., da RTP, que de microfone em riste e sorriso rasgado, em frente a Rio, habita esta mesma esfera do ridículo e da encenação, ao fazer as perguntas e a oferecer as respostas."Estas obras, senhor presidente, são o primeiro passo na tão espera renovação do Teatro Sá da Bandeira?"

Tuesday, March 15, 2005

A filosofia de Tino Navarro


"Um Tiro no Escuro", filme de Leonel Vieira Posted by Hello

É já na próxima quinta-feira que estreia em Portugal a mais recente produção de Tino Navarro, "Um Tiro No Escuro". Não posso comentar a qualidade da proposta realizada pelo seguríssimo Leonel Vieira, pois ainda não tive a oportunidade de assisitir à antestreia. No entanto, na semana do Fantasporto, travei-me de razões com Tino Navarro, uma das figuras em homenagem na versão 05 do certame, e foi uma das pessoas que sinceramente mais gostei de conhecer. Para além da clareza de pensamento, agradou-me sobretudo a humildade e a forma profissional e humana como comanda suas produções e gere os egos de realizadores e actores. Sem nunca perder de vista as temáticas sociais, Navarro, que nasceu em Vila Flor, conhece e não esquece, o que ainda é mais raro, o Portugal profundo. Através de propostas cinematográficas indubitavelmente comerciais tenta, e não raras vezes consegue, comunicar com as massas, dizer o que pensa, sente e sonha. Das temáticas da droga, em "Tentação", às utopias de Cunhal, na excelente mini-série "Até Amanhã Camaradas", Navarro preocupa-se com o concreto. Recordo que a propósito da "Tentação", o produtor confessou que sentiu necessidade de abordar a temática da toxicodependência a partir de uma notícia que leu, na qual uma mãe, já idosa, habitante de uma aldeia do Portugal rural, foi entregar-se a uma esquadra da GNR. A história que a senhora contou às autoridades foi desconcertante. A velhota tinha um único filho que era tóxicodependente. Perante a incapacidade de o curar e ao conviver diariamente com a espiral de autodestruição e sofrimento do filho, acabou por pegar numa caçadeira e assassinar o próprio filho enquanto este dormia, na cama de sua casa.
No meio cinematográfico, Navarro tem fama de ditador, mas é no respeito pelo esforço e na responsabilidade social e humana que nasce uma exigência com a qual Portugal infelizmente ainda não se habituou a conviver. Apesar de sinceramente não me atrair grande parte das suas propostas, aplaudo a capacidade, o talento e a urgência de também em Portugal haver quem seja capaz de produzir cinema para todos, sem estar constantemente a queixar-se e a mendigar subsídios para depois fazer cinema para o umbigo. Necessitamos de ter uma indústria cinematográfica autosuficiente. O público português precisa de se reconciliar com o seu cinema. A àrea comercial, mais do que qualquer outra, tem uma palavra a dizer neste contexto. Gosto de Oliveira, adoro Canijo, admiro Rocha, mas duas ou três andorinhas não fazem uma Primavera, que necessita de flores, cores e aromas para todos os gostos.

Sunday, March 13, 2005

corpo/máquina/identidade

Filmes como Matrix ou eXistenZ que têm como tema central a questão de corpo/máquina fazem-nos reflectir sobre a velha ambição humana de recriar a máquina à sua semelhança.
As novas tecnologias reformulam a noção de corpo, matéria, espaço e tempo. Uma nova dimensão do que é o corpo e do que é a realidade pode ser vivida cada vez que olhamos à nossa volta e experienciamos as novas tecnologias. No ciberespaço, espaço não-linear, podemos criar novas identidades, eliminando conceitos como o de género, por exemplo (nos chats, cada um pode construir-se, adoptando o tipo de personalidade que desejar, o sexo que preferir, em suma inventando e vivendo uma identidade). Assim, e por essa mesma razão, a definição de corpo passa a ser desnecessária, importando apenas a identidade criada através da máquina (no caso o computador pessoal ligado ao super-computador que o conecta aos outros através das hiper-redes). O corpo e a máquina integram-se em simbiose no espaço virtual da internet. Até que ponto é que a ser que conhecemos no chat é real? Será mais real o ser com um corpo com quem falamos no dia-a-dia? Do mesmo modo, impõe-se a questão da identidade de um corpo ligado a uma máquina hospitalar. Retirados os tubos, os ventiladores, soros, alimentação artificial que se interlaçam unidos ao computador, o ser humano morre. Então, nessa simbiose corpo/máquina, onde está a identidade? Marvin Minsky, do Massachussets Institute of Technology, diz claramente: "a próxima geração de computadores será tão inteligente que teremos sorte se eles nos permitirem manter-nos em casa como animais domésticos. Se desejamos assim tanto criar máquinas que facilitem a nossa existência, perpetuando a nossa ancestral vertente egoísta e preguiçosa, é muito importante, urgente até, diria eu, responder às velhas questões ontológicas de "quem somos, de donde viemos, para onde vamos". Onde está a individualidade e a consciência? Onde é que reside a vida? No corpo ou na máquina? A minha resposta é que a vida não está nem no corpo nem na máquina, mas é algo de transcendente. O ser humano tem essa transcendência que lhe está limitada pelo corpo. Essa consciência ou identidade tem a livre opção de partir, pois existe num outro espaço que não se deixa controlar por nenhuma máquina. É um espaço de liberdade e de felicidade. Mas poucas pessoas se preocupam com uma reflexão sincera e metodológica sobre esse espaço, sobre essa transcendência...

Saturday, March 12, 2005

"Ossário", de Mark O`Rowe, pela Assédio

Depois da estreia d´ “A Testemunha”, da sueca Cecilia Parkert, a companhia Assédio regressa ao Pequeno Auditório do Rivoli, à temática violência contemporânea, em formatdo de monólogo. A mais recente proposta, “Ossário”, do irlandês Mark O´Rowe estreia hoje à noite com encenação a cargo de João Cardoso. Uma descarga centrada no poder da palavra poética, brilhantemente traduzida por Francisco Luís Parreria, ganhar carne e rosto em três mulheres que partilham numa viagem marcada pela perda de humanidade numa cidade imaginária, mais perto de nós que se provavelmente seria de desejar. Da sarjeta mais suja e repelente ao rio mais límpido e inocente, as emoções brutam do verbo dito no feminino.
Estreante na Assédio, Isabel Queirós é Olive Day, uma marginal sem pudor nem receio da morte; a experiente Rosa Quiroga, Allison Ellis, uma mãe angustiada com a velhice e o declínio físico, e finalmente, a seguríssima Alexandra Gabriel é Tilly McQuarrie, uma “Christiane F”, sem qualquer espécie de futuro ou esperança de humanidade.
Olive Day inaugura a tríade de monólogos descrevendo uma paisagem ribeirinha, onde brincam alguns miúdos. Apesar de rapidamente se dissipar na violência suburbana, a aguarela de paz e tranquilidade do rio funciona como chave de abertura e encerramento de toda a narrativa. Allison Ellis. Envergonhada por estar a envelhecer confessa a pulsão pela segurança e o dever de cuidar o rebento. “O meu filho tornou-se um estranho para mim”, confessa. Finalmente, Tilly McQuarrie. Uma arrumadora de carros perto de si, vende o corpo para arranjar dinheiro para a heroína. Um esquelo humano em decomposição, a caminho da morte.
Três mundos que se cruzam numa narrativa de vingança, marcada por um dramatismo visceral, pungente, sugestivo e imagético. Entre crimes sem castigo, histórias gangsters e chulos, as atmosferas de subúrbio omnipresentes na obra de Mark O´Rowe, fica a oportunidade de conhecer um dos mais jovens talentos da dramaturgia irlandesa. "Ossário" permanece no Pequeno Auditório do Rivoli até ao próximo sábado, dia 20 de Março.

Sunday, March 06, 2005

Gala de encerramento da 25ª edição do Fantasporto


"Old Boy" Posted by Hello

A 25ª edição do Fantasporto encerrou ontem à noite, no Grande Auditório do Rivoli, no Porto, com uma intensa chuva de estrelas que juntou algumas figuras relevantes da história do cinema fantástico, como John Hurt e Doug Bradley, as quais tive o privilégio de conversar, Karen Black, Guilhermo del Toro, passando pelo grande vencedor da noite o jovem Vincenzo Natali foram outras das presenças a ter em atenção. Sem grandes surpresas, mas com muita justiça e algum bom gosto, "Nothing", de Natali, que depois de "O Cubo" e "Cypher" soma o terceiro galardão no Fantas, e "Old Boy", do sul-coreano Chan-Wook Park, venceram os prémios para melhor filme nas categorias de Fantástico e Semana dos Realizadores, respectivamente. Mais do que assistir a cerimónia, que este ano foi registada pela RTP, tive o privilégio, a convite da organização do Fantas, de entregar o Prémio da Crítica ao alemão Ayassi por "Vinzent".
Depois de uma intensa semana de trabalho, fico com memórias interessante. Desde logo as entrevistas a Doug "pinhead" Bradley, John Hurt e Tino Narravo, e uma série de filmes recomendáveis, entre os quais destaco, na área mais comercial, "Saw" e "Constantine". O primeiro para os fãs do "Seven", sem o talento de Fincher, mas com um argumento inteligente, e o segundo, pela abordagem, sobretudo, estética, ligado às atmosféras da banda desenhada para adultos da DC Comics, da qual nutro as propostas "Sandman", de Neil Gaiman e Dave Dave Mckean, que considero francamente mais consistentes. Numa vertente mais de autor, a grande recomendação vai para "Old Boy", o justo vencedor do Fantas. Filme imperdível pela inteligência e originalidade do argumento, pelas referências subtis e equilibradas à cultura do vídeo-game, com mensagens "animé" quase subliminares pelo meio, por um trabalho de fotografia e gestão narrativa absolutamente invulgar.
Notas negativas, para a grande maioria do cinema espanhol, que este ano, com a ligeira excepção de "Hypnos", perdeu muita da qualidade apresentada em anos anteriores e para a falta de acompanhamento e inteligência dos meios de comunicação social. Com personalidades tão interessante da sétima arte em Portugal, o futebol do pontapé na canela e a política de fim-de-semana continuam, infelizmente, a ter mais relevância mediática, sobretudo, na televisão. Apesar da RTP ter registado, pela primeira vez a gala de encerramento, vendo-se assim forçada a cumprir a promessa de duplicação de verbas do Morais Sarmento, a ressaca nos noticiários do dia seguinte ficou num nível inferior aos concertos do Toni Carrera nos coliseus. As vezes, viver em Portugal é estar condenado a um terceiro-mundismo entre o deprimente e o boçal. Até quanto?

Friday, March 04, 2005

À conversa com Doug Bradley


Doug Bradley no papel de Pinhead da saga "Hellraiser" Posted by Hello

Uma das figuras tutelares do cinema de horror no final dos anos 80, o britânico Doug Bradley encontra-se no Porto a convite do Fantas. Tive a oportunidade de realizar uma breve entrevista com o reconhecido "Pinhead" da saga "Hellraiser" no Hotel Infante Sagres. Entre vários temas, conversámos sobre a ascensão da máquina Hollywood dos sustos para a adolescentes e a forma como a indústria norte-americana do espectáculo tem aniquilado toda e qualquer proposta séria numa área tendenciamente tão criativa como a do horror. Actualmente a própria série "Hellraiser" encontra lançamento directo para vídeo, ou melhor DVD. Uma realidade que tem os dias contados, pois Clive Baker, criador da série que já conta com pelos menos sete títulos, encontra-se a escrever o episódio final da saga, que inclui a morte, ou melhor, o desaparecimento, de Pinhead.
Bradley revelou-se uma figura serena com um humor particulamente interessante. Fã dos Coolplay e Beatles, apesar das colaborações com os Cradle of Filth; admirador do personagem Hannibal Lecther e estudioso do fenómeno das máscaras na sua transposição do teatro para o cinema de terror. Um rosto que faz parte da galeria de horrores da sétima arte. Gentil, é um dos casos em que o personagem acaba por aniquilar o actor. Pela segunda vez no Porto, Bradley passou a manhã a visitar igrejas. Amanhã à noite será uma das figuras em destaque na gala dos 25 anos do Fantasporto do Rivoli. A RTP fará o favor de cumprir a promessa dos 150 mil euros de Morais Sarmento e registará a cerimónia.

Monday, February 28, 2005

Fantasporto: "The Doll Master", de Young-ki Jeong


"The Doll Master" Posted by Hello

Na última década, a cinematografia asiática tem produzido alguns dos mais interessantes e criativos títulos da área do Fantástico. A palma de ouro conquistada por "Old Boy" no mais recente Festival de Cannes não surge por mero acaso e não surpreende que tem assistido a algumas das mais arrojadas propostas do Fantasporto nos últimos quatro ou cinco anos. Na presente edição, comemorativa dos 25 anos, os momentos mais intensos têm vindo do Oriente via expresso. Para além de "One Missed Call", do realizador do culto, Takashi Miike, autor entre outras obras do filme sensação de 2003, "Audition", e do não menos desconcertante "Vital", de Shinya Tsukamoto, que depois dos "Tetsuo", dirigiu o deslumbrante "Snake of June", o destaque do dia vai para a primeira obra de "Young-ki Jeong, "The Doll Master", em antestreia logo à noite.
Para além da criatividade dos argumentos, marcados por um invulgar requinte de horror e sadismo, o cinema asiático revela-se, tal como o de autor, por um cuidado estético notável, entre texturas "animé" do extravagante "Ichi, the Killer", a propostas "hi-tec" e paisagens evocativas do deslumbrante natural, de "Natural City", existe uma austeridade espiritual ou uma claustrofobia urbana que conferem aos filmes asiáticos uma originalidade e um deslumbre absolutamente singulares e que importa conhecer. O Fantas'05 têm sido uma janela virada para Oriente, revelando títulos francamente interessante e que já souberam construir em seu redor um culto intenso e um grupo cada vez mais significativo de adeptos, que encontra na Ásia uma organicidade e autênticidade profunda, não compatível com a formatização das propostas EUA, sempre condicionadas pela ditadura do M/12 e pela obrigatoriadade, de não chocar o auditório, de agradar nas bilheterias aos públicos adolescente e jovem. Para quem gosta de suspence, horror e fantástico é do Oriente que vem a novidade. Para esta noite fica a sugestão, conhecer "The Doll Master", a partir das 23h15, no Grande Auditório do Rivoli, no Porto. Bons sustos e bom cinema.

Saturday, February 26, 2005

Fantasporto: "Old Boy", de Chan-wook Park


"Old Boy" Posted by Hello

É a confirmação do excelente momento do cinema asiático na área do fantástico. Depois de conquistar o Grande Prémio do Juri em Cannes, "Old Boy" conheceu ontem à noite a estreia nacional na abertura da secção competitiva do Fantasporto reservada à Semana do Realizadores. Num Grande Auditório completamente esgotado, o público teve a oportunidade de se deixar deslumbrar com a imaginação do Chan-woon Park. O argumento gira em torno de uma desconcertante e maquiavélica história de vingança de dois colegas de liceu. Influenciada pela estética dos vídeo-jogos e pelo traço da Manga, com alguns requistes de crueldade à mistura, "Old Boy" triunfa, sobretudo, pela originalidade do argumento e por uma irrepreensível direcção de actores e trabalho de câmara.
Ainda ontem à noite, novamente num auditório esgotado, fica o aviso para os cinéfilos que gostam de chegar em cima da hora, nota final para outra estreia que promete tornar-se num filme de culto e repetir na Europa o sucesso de bilheteira dos EUA. "Saw", escrito e dirigido por James Was, abriu a secção do Cinema Fantástico e surpreendeu o público, sobretudo, pela criatividade da história. Desde "Seven" que os adeptos do "thriller" não eram confrontados com um serial-killer com tamanha inteligência e sublime crueldade. Um filme obrigatório para os amantes do género, arrisca-se a ser um clássico. Apesar de ter alguns pontos fracos, sobretudo na gestão da narrativa do segundo terço do filme, "Saw" oferece um final desconcertante e criativo, abrindo caminho para uma sequela que aliás já está a ser produzida em Hollywood. Uma obra em breve atingirá as salas dos cinemas mais comerciais, onde certamente causará uma onda de emoções fortes há muito negligenciada pela ditaduta do M/12. Filme não perder. Darei mais alguns pormenores na data de estreia no circuito comercial, para já fica o aviso a navegação.
Para logo à noite, o destaque centra-se no trabalho visualmente encantatório de "Natural City", de Byung-chum Min, uma história de amor em ambiente "Blade Runner" que pode fazer estragos no Fantas, e naturalmente para a estreia em Portugal do filme vencedor de Sundance, "Primer", uma das propostas mais inteligentes do ano. Ambas para descobrir hoje a partir das 21h00, no Rivoli do Porto. Bons filmes.

Wednesday, February 23, 2005

Estreia: "Mar Adentro" de Alejandro Amenábar


"Mar Adentro" Posted by Hello

Entre uma descarga demencial de antestreias esta semana via Fantasporto e, em vésperas dos óscares, um mediatísmo desenfreado sobre dois títulos aglutinadores de quase todas as atenções do público e desvaneios da crítica, "Contantine" e "Sideways", destaco um filme que merece mais do que um "post" de atenção, arriscando-me a fugir ao assédio obsceno, sobretudo nestas alturas, das "majors". Trata-se de "Mar Adentro", um filme que infelizmente arrisca-se, por azares de "timing" de estreia, a cair no esquecimento e a passar desapercebido.
Tive a oportunidade de assistir à sessão para a imprensa, no início desta semana, e comprovar de que se trata de uma excelente proposta cinematográfica, que interessa e importa conhecer. Apesar de toda a polémica que envolve a temática da eutanásia, a realização de Alejandro Amenábar, para além de revelar um extraordinário trabalho de câmara, numa série de planos absolutamente encantatórios, que me fizeram lembrar um Mathieu Kassovitz pré-hollywood, a abordagem da vida de Ramón Sanpedro evita a dramaticidade fácil, concretizando, de forma equilibrada uma releitura da questão urgente da eutanásia e da dignidade da vida, situada algures entre a luminosidade poética do mártir e a aspereza, não raras vezes, cruel da realidade agónica do condenado.
Uma palavra final, e colocando, desde já, de lado interpretações possíveis sobre a simbologia do mar na fortíssima gramática visual de Amenábar e para a excelente banda-sonora que acompanha o filme, destaque para o mais do que impressionante Javier Bardem que se reafirma como um dos melhores actores espanhóis da sua geração. Notável, inteligente, cativante, "Mar Adentro" um excelente filme que importa conhecer e que vale a pena encontrar já a partir desta quinta-feira num cinema de qualidade.

Tuesday, February 22, 2005

Sessão de Abertura Oficial do 25º Fantasporto


"Constantine" (2005) Posted by Hello

Sem representantes do Ministério da Cultura, por razões digestivas dos resultados eleitorais do último domingo, mas com a presença corajosa do Rui Rio e do presidente do ICAM, a cerimónia oficial de abertura do Fantasporto ficou ontem marcada, no Rivoli do Porto pela simplicidade mais do que pelo "glamour" e pela antestreia europeia de "Constantine", a mais cara produção de sempre do cinema Hollywood, cerca 300 milhões de dólares, e com Keanu "Matrix" Reeves a regressar ao grande ecrã em grande forma numa adapção hi-fi do clássico da DC/Comics.
Beatriz Pacheco Pereira tomou sobre si a responsabilidade de dar as boas-vindas do público e crítica ao certame. Para além de destacar o reconhecimento do Fantas a nível internacional, com a revista Variety a situar o Fantas nos 25 melhores festivais o mundo, e a nível nacional, com o governo a atribuir, na sessão de encerramento, a medalha de mérito cultural, a responsável evocou a memória de José Manuel Pereira, um dos fundadores do festival, na célebre conversa no café Luso, em 1980, pintor e artista gráfico responsável pelos primeiros cartazes do Fantas.
Em termos da proposta inaugural, "Constantine" afirma-se como um filme de encontro entre "O Exorcista" e "Matrix" sem conseguir superar ambos os dois títulos. Alia a pop expressionista dos irmãos Wachowski, numa ligação interessante mais do que criativa ao legado estético da DC Comics, e recupera algum do terror de "O Exorcista" sobretudo pelo "display" de efeitos especiais. As personagens, sobretudo, o próprio John Constantine e o anjo Gabriel estão bem conseguidas, os diálogos simples, directos, transculturais, prontos para serem consumidos por adolescentes da China à Argentina. No entanto, a proposta, apesar de apelativa, não leva o cinema fantástico para além dos dois títulos supracitados, ficando-se apenas por uma hora e meia de entretenimento "made in Hollywood".
Para hoje os destaques vão para o regresso de Tobe Hope, responsável pelo clássico "Massacre no Texas", que apresenta o "remake", "Toolbox Murders" e para a estreia do espanhol David Carreras Solè, com "Hypno", segundo me confessou ontem Beatriz Pacheco Pereira, "é um dos melhores filmes do festival", um "thriller" psicológico que pode surpreender público e crítica. Amanhã, o oscarizável "Sideways" chama a si todas as atenções, em mais uma antestreia limite.

Saturday, February 19, 2005

Fantasporto 25 anos


"Constantine" Posted by Hello

Arranca já na próxima segunda-feira o 25º Fantasporto. Longe da programação inicialmente prevista e anunciada pela Cinema Novo, as bodas de prata do Fantas apresentam, no entanto, uma série de novidades e títulos que valem a pena ser conferidos e que ao longo dos próximos dias terei a oportunidade de manifestar a minha opinião e lançar alguns avisos à navegação, até por que, com tem sido hábito, parte dos filmes acabam por penetrar, lá mais para o verão, o circuíto comercial.
Entretanto, tive a oportunidade de conversar, longamente, com Mário Dorminsky, tendo com base uma entrevista a ser publicada amanhã no diário "O Comércio do Porto". No essencial, uma revisitação, em três páginas, dos 25 anos do Fantas, tendo sempre presente o contexto nacional e internacional do universo cinematográfico da área do fantástico, desde a fundação do certame até à actualidade. Pelo caminho, vários episódios interessantes das maratonas do Carlos Alberto, com ambulâncias, chamadas para o Hospital de S. João, e inesperados assaltos à Alfândega de Lisboa para recuperar filmes a tempo de serem exibidos. Os loucos anos 80.
Para um futuro possível, espera-se que a Fundação Fantasporto, situada na rua da Constituição, a dois passos da minha casa, ganhe forma. Faltam apoios privados, mas sobram ideias e formas interessantes de recuperar, não só um dos muitos e belos edifícios da cidade do Porto que correm o risco de cair, como também dinamizar espaços culturais que não passem obrigatóriamente por modelos alcoólicos em regime de "after-hours". Por conhecer razoavelmente algumas das pessoas envolvidas no projecto, a sua honestidade e competência, acredito na viabilidade do mesmo e espero que passados já dois anos, a Fundação ganhe forma e abra as portas o mais depressa possível.
Entretanto, está aí o Fantas 05, sem o glamour esperado, mas certamente com títulos a não perder. Pessoalmente, estou, sobretudo, de olho nas propostas asiáticas, que nas últimas três edições, têm sido do melhor que se tem produzido na área do fantástico. Em termos comerciais, "hollywoodescos", na segunda-feira à noite, logo a abrir o certame, estreia "Constantine", mega-produção de 300 milhões de dólares. A crítica norte-americana olhou de lado, mas o público esse aproveitará a febre Matrix para exigir mais uma dose hi-fi servida pelo senhor Anderson em versão BD.

Friday, February 18, 2005

A morte de uma pop-star encenada em Serralves


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Mais um episódio programático complementar da exposição de Francesco Vezzoli a atingir o Museu de Serralves. Hoje e amanhã, um coreógrafo convida dez figuras de áreas diversas para ensaiar a morte de uma pop-star. Em "Top 10 (Porto)", Miguel Pereira assume o protagonismo interpretando numa proposta de dança contemporânea contaminada pelas encenações, pensamentos, delírios e sugestões de personalidades da cultura-pop do Porto e arredores como Rui Reininho ou João Vieira (a.k.a. DJ Kitten. Ligando o conceito de Diva com as artes plásticas de Vezzoli, Miguel Pereira propõe-se penetrar o mais descarada e despudoradamente possível no território do imaginário colectivo e dos arquétipos explorados pela sociedade dos média, nos quais as estrelas também morrem na verdade do palco como na ilusão da vida. Para o intérprete "o projecto tem como centro uma persongem, a minha personagem pop-star, que tem sido recorrente nos meus trabalhos e me tem ajudado precisamente a perceber os mecanismos da mitificação do espectáculo, e das representações do fulgor, da magia, do brilho, da ilusão, da sensualidade no imaginário colectivo. Serve-me assim esta figura de meio para a encenação da morte, também como ideia de fim, seguindo assim outro mito, o mito rom‰ntico da morte do actor no palco". Em movimentos de exposição, o actor/bailarino revela-se, transfigura-se, deixa-se consumir pelo público. A figura da estrela que só existe para e quando é admirada pelo outro. Uma observação não pacífica nem gratuíta mas consequente, evolutiva e por vezes mortal. Espectáculo "Top 10 (Porto)", de Miguel Pereira, atinge hoje e amanhã à noite o palco do Auditório de Serralves, a partir das 22h00.

Wednesday, February 16, 2005

"Quem Tem Medo de Virgínia Woolf" chega ao Teatro da Trindade


António Capelo e Glória Freitas em "Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?" Posted by Hello

Aviso à navegação para o pessoal de LX, a peça "Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?" estreia na sexta-feira, dia 18, no Teatro da Trindade. Depois do sucesso aqui no Porto, a mais recente proposta teatral da Academia Contemporânea do Espectáculo finalmente chega à capital. Tive a oportunidade de assisitir à estreia no auditório da ACE e comprovar da qualidade da encenação de João Paulo Costa sobre o texto de Edward Albee. António Capelo, Glória Freitas, Mário Santos e Sandra Salomé protagonizam um pesadelo de dois casais numa qualquer sala de estar. Densidade psicológica, humor e drama num retrato imperdível sobre algumas das obsessões, contradições, paranóias e toda uma gama bipolar e simbólica de poder e contrapoder que ainda teima em dominar as sociedades contemporâneas dos dois lados do Atlântico...
À margem da recomendação fica a nota mais do que positiva pela iniciativa da ACE de encetar uma mini-digressão rumo a Sul. Espero que a coragem se torne "moda" e contagie todo o país.