Tuesday, February 22, 2005

Sessão de Abertura Oficial do 25º Fantasporto


"Constantine" (2005) Posted by Hello

Sem representantes do Ministério da Cultura, por razões digestivas dos resultados eleitorais do último domingo, mas com a presença corajosa do Rui Rio e do presidente do ICAM, a cerimónia oficial de abertura do Fantasporto ficou ontem marcada, no Rivoli do Porto pela simplicidade mais do que pelo "glamour" e pela antestreia europeia de "Constantine", a mais cara produção de sempre do cinema Hollywood, cerca 300 milhões de dólares, e com Keanu "Matrix" Reeves a regressar ao grande ecrã em grande forma numa adapção hi-fi do clássico da DC/Comics.
Beatriz Pacheco Pereira tomou sobre si a responsabilidade de dar as boas-vindas do público e crítica ao certame. Para além de destacar o reconhecimento do Fantas a nível internacional, com a revista Variety a situar o Fantas nos 25 melhores festivais o mundo, e a nível nacional, com o governo a atribuir, na sessão de encerramento, a medalha de mérito cultural, a responsável evocou a memória de José Manuel Pereira, um dos fundadores do festival, na célebre conversa no café Luso, em 1980, pintor e artista gráfico responsável pelos primeiros cartazes do Fantas.
Em termos da proposta inaugural, "Constantine" afirma-se como um filme de encontro entre "O Exorcista" e "Matrix" sem conseguir superar ambos os dois títulos. Alia a pop expressionista dos irmãos Wachowski, numa ligação interessante mais do que criativa ao legado estético da DC Comics, e recupera algum do terror de "O Exorcista" sobretudo pelo "display" de efeitos especiais. As personagens, sobretudo, o próprio John Constantine e o anjo Gabriel estão bem conseguidas, os diálogos simples, directos, transculturais, prontos para serem consumidos por adolescentes da China à Argentina. No entanto, a proposta, apesar de apelativa, não leva o cinema fantástico para além dos dois títulos supracitados, ficando-se apenas por uma hora e meia de entretenimento "made in Hollywood".
Para hoje os destaques vão para o regresso de Tobe Hope, responsável pelo clássico "Massacre no Texas", que apresenta o "remake", "Toolbox Murders" e para a estreia do espanhol David Carreras Solè, com "Hypno", segundo me confessou ontem Beatriz Pacheco Pereira, "é um dos melhores filmes do festival", um "thriller" psicológico que pode surpreender público e crítica. Amanhã, o oscarizável "Sideways" chama a si todas as atenções, em mais uma antestreia limite.

Saturday, February 19, 2005

Fantasporto 25 anos


"Constantine" Posted by Hello

Arranca já na próxima segunda-feira o 25º Fantasporto. Longe da programação inicialmente prevista e anunciada pela Cinema Novo, as bodas de prata do Fantas apresentam, no entanto, uma série de novidades e títulos que valem a pena ser conferidos e que ao longo dos próximos dias terei a oportunidade de manifestar a minha opinião e lançar alguns avisos à navegação, até por que, com tem sido hábito, parte dos filmes acabam por penetrar, lá mais para o verão, o circuíto comercial.
Entretanto, tive a oportunidade de conversar, longamente, com Mário Dorminsky, tendo com base uma entrevista a ser publicada amanhã no diário "O Comércio do Porto". No essencial, uma revisitação, em três páginas, dos 25 anos do Fantas, tendo sempre presente o contexto nacional e internacional do universo cinematográfico da área do fantástico, desde a fundação do certame até à actualidade. Pelo caminho, vários episódios interessantes das maratonas do Carlos Alberto, com ambulâncias, chamadas para o Hospital de S. João, e inesperados assaltos à Alfândega de Lisboa para recuperar filmes a tempo de serem exibidos. Os loucos anos 80.
Para um futuro possível, espera-se que a Fundação Fantasporto, situada na rua da Constituição, a dois passos da minha casa, ganhe forma. Faltam apoios privados, mas sobram ideias e formas interessantes de recuperar, não só um dos muitos e belos edifícios da cidade do Porto que correm o risco de cair, como também dinamizar espaços culturais que não passem obrigatóriamente por modelos alcoólicos em regime de "after-hours". Por conhecer razoavelmente algumas das pessoas envolvidas no projecto, a sua honestidade e competência, acredito na viabilidade do mesmo e espero que passados já dois anos, a Fundação ganhe forma e abra as portas o mais depressa possível.
Entretanto, está aí o Fantas 05, sem o glamour esperado, mas certamente com títulos a não perder. Pessoalmente, estou, sobretudo, de olho nas propostas asiáticas, que nas últimas três edições, têm sido do melhor que se tem produzido na área do fantástico. Em termos comerciais, "hollywoodescos", na segunda-feira à noite, logo a abrir o certame, estreia "Constantine", mega-produção de 300 milhões de dólares. A crítica norte-americana olhou de lado, mas o público esse aproveitará a febre Matrix para exigir mais uma dose hi-fi servida pelo senhor Anderson em versão BD.

Friday, February 18, 2005

A morte de uma pop-star encenada em Serralves


Posted by Hello

Mais um episódio programático complementar da exposição de Francesco Vezzoli a atingir o Museu de Serralves. Hoje e amanhã, um coreógrafo convida dez figuras de áreas diversas para ensaiar a morte de uma pop-star. Em "Top 10 (Porto)", Miguel Pereira assume o protagonismo interpretando numa proposta de dança contemporânea contaminada pelas encenações, pensamentos, delírios e sugestões de personalidades da cultura-pop do Porto e arredores como Rui Reininho ou João Vieira (a.k.a. DJ Kitten. Ligando o conceito de Diva com as artes plásticas de Vezzoli, Miguel Pereira propõe-se penetrar o mais descarada e despudoradamente possível no território do imaginário colectivo e dos arquétipos explorados pela sociedade dos média, nos quais as estrelas também morrem na verdade do palco como na ilusão da vida. Para o intérprete "o projecto tem como centro uma persongem, a minha personagem pop-star, que tem sido recorrente nos meus trabalhos e me tem ajudado precisamente a perceber os mecanismos da mitificação do espectáculo, e das representações do fulgor, da magia, do brilho, da ilusão, da sensualidade no imaginário colectivo. Serve-me assim esta figura de meio para a encenação da morte, também como ideia de fim, seguindo assim outro mito, o mito rom‰ntico da morte do actor no palco". Em movimentos de exposição, o actor/bailarino revela-se, transfigura-se, deixa-se consumir pelo público. A figura da estrela que só existe para e quando é admirada pelo outro. Uma observação não pacífica nem gratuíta mas consequente, evolutiva e por vezes mortal. Espectáculo "Top 10 (Porto)", de Miguel Pereira, atinge hoje e amanhã à noite o palco do Auditório de Serralves, a partir das 22h00.

Wednesday, February 16, 2005

"Quem Tem Medo de Virgínia Woolf" chega ao Teatro da Trindade


António Capelo e Glória Freitas em "Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?" Posted by Hello

Aviso à navegação para o pessoal de LX, a peça "Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?" estreia na sexta-feira, dia 18, no Teatro da Trindade. Depois do sucesso aqui no Porto, a mais recente proposta teatral da Academia Contemporânea do Espectáculo finalmente chega à capital. Tive a oportunidade de assisitir à estreia no auditório da ACE e comprovar da qualidade da encenação de João Paulo Costa sobre o texto de Edward Albee. António Capelo, Glória Freitas, Mário Santos e Sandra Salomé protagonizam um pesadelo de dois casais numa qualquer sala de estar. Densidade psicológica, humor e drama num retrato imperdível sobre algumas das obsessões, contradições, paranóias e toda uma gama bipolar e simbólica de poder e contrapoder que ainda teima em dominar as sociedades contemporâneas dos dois lados do Atlântico...
À margem da recomendação fica a nota mais do que positiva pela iniciativa da ACE de encetar uma mini-digressão rumo a Sul. Espero que a coragem se torne "moda" e contagie todo o país.

Pedro Mexia, Manuel António Pina e Plaza no TCA

Sugestão para amanhã à noite, dia 17, episódio "Óculos Azuis, Mundo Azul" das Quintas de Leitura, no Teatro do Campo Alegre, no Porto. Poesia de Pedro Mexia pelas vozes de Filipa Leal, Náná Menezes e Pedro Lamares; Manuel António Pina à conversa com o escritor e numa segunda parte descarga pop a cargo dos Plaza. Ponto de encontro café-teatro do TCA, na rua de todas as estrelas, a partir das 21h30...

Wednesday, February 09, 2005

Carnaval Tóxico com Peste & Sida no Porto Rio


Peste & Sida no Porto Rio - foto: Luís Costa Carvalho Posted by Hello

Os punks e o pessoal do pontapé aproveitaram a noite de carnaval para sair à rua. Ainda bem. A bordo do Porto Rio, os Peste & Sida foram os homens do leme ao serviço do rock etílico. Noite de emoções e cheiros fortes. Entre doses de "Veneno" de outros tempos e descargas moderadas e competentes do mais recente álbum, a banda lisboeta agora liderada por João San Payo protagonizou um excelente concerto, seguro, energético, inclusivo, animando a muita malta presente, que ameaçou ontem à noite transformar o Porto Rio numa espécie de mini-Rock Rendez-Vous, numa verdadeiro "punk in rio douro". Banda fundamental para compreender o eixo mais criativo do punk/rock português na segunda metade da década de 80, os Peste&Sida reaparecem agora 12 anos volvidos sobre "Eles Andam por Aí. Sem Luís Varatojo, o projecto afasta-se da pulsão comercial do sol da caparica e dos Ramones e reactualiza-se. Apesar da ainda viver "ao vivo" das excelentes memórias do passado, oferecendo clássicos como "Veneno", "Gingão", "Vamos ao Trabalho", "Alcides Pinto" ou "Paulinha", provavelmente o mais romantica "love song" lusa, os Peste fazem falta ao panorama musical português. Em "Tóxico", para além da excelente colaboração de José Mário Branco, na inteligente versão da "Década de Salomé", de Zeca Afonso, o registo aposta numa mistura explosiva de literatura de intervenção com uma sonoridade punk e argumentos funk/ska, que sempre marcaram a identidade dos Peste. Num espectáculo de união entre a tradição e inovação, os Peste protagonizaram um excelente concerto que terminou com uma sempre bem-vinda invasão de palco. Faltaram, no entanto, os metais, mas sobrou a vontade de tocar até cair. Recorde-se que já na próxima sexta, dia 11, o colectivo assalta o Hard Club, em Gaia, numa noite, também ela, de emoções e cheiros fortes. Em 2005, provavelmente, mais do que nunca, vale a pena ouvir Peste e não passar para o outro lado da trincheira... Nunca conversa que tive com Sn Payo no ano passado, tive a oportunidade de atestar a alegria do colectivo.. não alinhados e prontos para regressar ao re/activo. Depois do concerto de ontem à noite, só me resta dizer, bem-vindos...

Sunday, February 06, 2005


A Prisioneira de Lhasa Posted by Hello

A Prisioneira de Lhasa

A Prisioneira de Lhasa livro de Daniel Laeng e Philippe Broussard
“Ao cabo da primeira semana, a pequena foi submetida a, pelo menos, três interrogatórios diários. Os seus onze anos eram indiferentes; bem pelo contrário, os guardas pretendiam humilhá-la, marcá-la para a vida, precisamente porque ela era jovem, ainda «recuperável», pelo menos em teoria. Como explicar de outra forma o seu furor? Espancada com latas de conserva, desancada com a ajuda de bastões eléctricos...”(p.94)
Philippe Broussard (jornalista no “Le Monde”) e Danielle Laeng (representante do Comité de Apoio ao Povo Tibetano) uniram esforços na elaboração da biografia de Ngawang Sangdrol, símbolo de resistência no Tibete.
Numa época em que Portugal vive um auge de compaixão pelo povo asiático, penso ser muito relevante a leitura deste livro como forma de consciencialização para outros sofrimentos, não mais pequenos, vivenciados nesse mesmo continente. Anexado pela China há mais de quarenta anos, o Tibete continua a ser vítima de uma política de anexação centrada sobretudo na força de um poder e autoritarismo tolerados pelo mundo ocidental que prefere a não interferência na política interna de uma grande potência económica. Refugiados no norte da Índia, a maior parte de comunidade tibetana luta, no exílio, pela sobrevivência da sua cultura que tem como traço principal o pacifismo e como base religiosa a compaixão por todos os seres. A Prisioneira de Lhasa relata a vida de uma monja budista feita prisioneira pelas autoridades chinesas por defender os direitos de um povo ameaçado de extinção: o povo tibetano.

Filmes da minha vida: "A Festa", de Thomas Vinterberg


"A Festa" de Thomas Vinterberg Posted by Hello

Saudades de ver bom cinema. Não é todos os dias que, terminado o filme, o público não se consegue levantar das cadeiras e permanece sentado e silencioso a ler os créditos... Uma das mais interessantes experiências cinematográficas que tive a oportunidade assistir, aqui no Nun´Álvares, já lá vão uns anitos...

Saturday, February 05, 2005

Hipocrisia política sobre a candidatura galaico-portuguesa à UNESCO:

Pela primeira vez, dois países da União Europeia apresentam uma candidatura conjunta à UNESCO. Portugal e Galiza pretendem unir esforços para verem a cultura comum ser reconhecida pela organização intergovernamental como Património Imaterial da Humanidade. Entregue à UNESCO em Outubro do ano passado, o projecto foi apresentado oficialmente ao público ontem no edifício da Alfandega, no Porto, numa operação de charme, a roçar o ridículo, em busca de apoios privados. Promovida, entre outras instituições, pela Comunidade de Trabalho Galiza - Norte de Portugal, a operação conheceu no Ministro das Cidades, José Luís Arnaut, e no presidente do Governo Antónomo da Galiza, Manuel Fraga Iribarne as figuras centrais do evento, que contou ainda com a presença do autarca do Porto, Rui Rio.
Foram repetidos de forma o mais genérica e superficial possível os aspectos mais importantes da cultura galaico-portuguesa, dos cantares às danças, da base linguística ao artesanato. A ideia é preservar e difundir uma cultura que se encontra em vias de extinção. No meu entender, antes de apelarem à UNESCO, os governantes deveriam ter alguma vergonha pelo trabalho que não têm desenvolvido nesta matéria. A começar pelo governo português que, a título de exemplo, este ano, através do Ministério da Cultura, decretou a morte, retirando o apoio habitual, ao Centro de Música Tradicional Sons da Terra, que funciona desde Setembro de 2000 em Sendim, concelho de Miranda do Douro, e que possui, entre outras valências, o maior acervo áudio de música, cantares e histórias tradicionais desta região. Este é apenas um dos muitos exemplos possíveis que revelam a importância que o governo português atribui à cultura do norte de Portugal. Em termos locais, é quase uma piada de mau gosto, encontrar Rui Rio numa cerimónia de promoção cultural. O Porto, que deveria ser a primeira cidade a fomentar a cultura da sua região, sob a presidência de Rio, tem organizado festas culturalmente tão típicas e relevantes como a do próximo baile de carnaval protagonizado pelo grupo Diapasão, naturalmente com o aval da Rádio Festival, uma ligação mais do que obscura que em breve será posta nu.
Da parte da Galiza, basta referir que o presidente desta região autónoma, Manuel Fraga Iribarne, tem tanto gosto em preservar e difundir a cultura da sua terra, que ontem, discursou em castelhano. No final da cerimónia e com muita razão, um grupo de professores galegos, a leccionar em Pontevedra, manifestou-se indignado com o facto do presidente da Galiza ter discursado em Castelhano e não na língua galega. Conversei com uma das professoras que nem queria acreditar no que tinha ouvido. "Estamos profundamente chocados com isto. Sinceramente - disse Carmen Souto Negrete - este senhor não nos representa. Viajámos várias horas para assistir a uma cerimónia de apresentação o promoção de uma cultura que tem como uma das bases a língua e se candidata a património da humanidade e ouvir falar o presidente da Galiza a falar em castelhano é no mínimo uma contradição e um escândalo".
Naturalmente, quando a UNESCO sair para o terreno, irá verificar como é que se encontram as estruturas culturais do nordeste transmontano, no Minho e na Galiza, e meterá a candidatura na gaveta, sem antes dizer aos responsáveis para terem alguma vergonha na cara, pois antes de se candidatarem a património da humanidade, devem ser os próprios a considerarem a sua cultura como um património e fazerem algum esforço para a preservar...

Friday, February 04, 2005

Arte Comunitária: projecto Circunvalação

Confrontar criadores estrangeiros com comunidades da área metropolitama do Porto, pouco habituadas à fruição cultural, numa produção conjunta de propostas artísticas contemporâneas oferece-se como o eixo central da iniciativa "Circunvalação" que foi apresentada na passada quinta-feira aqui no Porto. Tive a oportunidade de assistir ao arranque do evento e conversar com organizadores, artistas e representantes das comunidades escolhidas. O projecto merece destaque e espaço de divulgação, daí a presente "post" que recupera no essencial um trabalho publicado por mim no diário "O Comércio do Porto".
Organizado e produzido pela Cassiopeia, a ideia do evento recupera o conceito de Arte Comunitária nascido no contexto artístico inglês, na transição das décadas de 60/70, reactualizando-o com o fenómeno da imigração. As freguesias e bairros de Avintes (Vila Nova de Gaia), Gandra (Gondomar) e Lomba (Bonfim/Porto), acolhem, até dia 20, três artistas estrangeiros: Farida Batool, do Paquistão, Luís Pedro, de Moçambique, e Taras Polataiko, da Ucrânia, respectivamente. O desafio é produzirem em conjunto, artistas e comunidade, arte inspirada e projectada sobre a identidade e o espaço próprio de acolhimento.
Paralelamente, o projecto "Circunvalação" dinamiza, nas referidas comunidades, oficinas de vídeo dirigidas a crianças, orientadas pelos cineastas Tiago Afonso, Saguenail e Regina Guimarães. O resultado final dos trabalhos das oficinas será exibido no auditório da Fundação de Serralves nos dias 19 de Março e 18 de Junho.
Com apoios essenciais do Instituto das Artes (IA), Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimédia (ICAM) e Gaianima, entre outras instituições públicas, o projecto de inclusão social através da criação e formação artística apresenta um orçamento de 70 mil euros.
Avintes "bottled"
Acolhido e apoiado desde a primeira hora pelo Parque Biológico de Gaia e pela Gaianima, a iniciativa de intervenção social através da arte conhece em Avintes um primeiro ponto de paragem rumo à criatividade. Convidada a "olhar" artisticamente para a freguesia gaiense, Farida Batool propõe-se apresentar duas intenções artísticas inspiradas não só na geografia própria de Avintes, como tambem, no encontro com as histórias e a identidade colectiva da comunidade local.
Numa primeira aposta, e aproveitando a margem esquerda do Rio Febros, afluente do Douro, a artista paquistanesa irá colocar fotografias da população dentro de garrafas suspensas sobre a paisagem fluvial. "A ideia é num contexto imagético unir conceitos de memória e história na natureza envolvente", afirma Battol, que se encontra a visitar as habitações e a conhecer os rostos da população de Avintes. "Tem sido uma experiência interessante - afirma - as pessoas têm-se mostrado extremamente receptivas".
Num segundo trabalho, a artista irá construir uma moldura-móvel, de 5x3 metros, na qual apresentará pinturas das histórias do povo de Avintes. A estrutura irá circular por toda a freguesia, confrontando a população com a sua história.
Da Gaianima, Nelson Cardoso, adminstrador da empresa municipal, presente na apresentação do projecto, fez questão de realçar a importância do evento pelo envolvimento da população na produção e formação artística, lamentanto porém que o projecto não tenha sido acolhido por todas as autarquias da área metropolitana.
Gandra em retratos
Em Gondomar, apesar da autarquia não ter apoiado o projecto, a Associação de Moradores de Conjunto Habitacional de Gandra fez questão de abrir as portas à arte e acolher a iniciativa. O presidente da referida associação, Altamiro Araújo, esclarece: "A arte não é só para os ricos, nós também temos direito a aprender qualquer coisa. As crianças nas oficinas de vídeo, para além de aumentarem os seus conhecimentos, mantêm-se ocupadas e longe de problemas".
Luís Pedro, o artista moçambicano de serviço, prepara uma exposição-instalação de fotografias no local que será a futura sede da associação de moradores. "Para já ando a conhecer os sítios e as pessoas. Não quero adiantar muito sobre o trabalho - afirma - mas terá como base a fotografia e o retrato".
Lomba em labirintos
Última paragem da "Circunvalação", bairro da Lomba, na freguesia portuense do Bonfim. Iniciativa apoiada localmente, entre outras, pela Fundação para o Desenvolvimento Social do Porto e pela Associação de Moradores da Lomba, a intervenção acolhe como artista residente, Taras Polataiko, da Ucrânia. Fascinado pela geometria e arquitectura das casas do bairro, Polataiko prepara-se para produzir, em material inquebrável, um labirinto. A instalação "que deve ter uma componente prática, podendo ser utilizada pelas crianças, representa a própria arquitectura das casas e a disposição geométrica do bairro", afirma o artista.
A orientar as visitas do novo morador pelo bairro, o presidente da associação local confessou que a população tem recebido o artista com tanto entusiasmo que "até já tem um clube de fãs".
As três propostas encontram-se em desenvolvimento, em construção e abertas a visitas. A conclusão das obras está agendada para o próximo dia 20. Até lá, artistas e população trabalham em conjunto num processo criativo rumo à integração e valorização socio-cultural.

Sunday, January 30, 2005


heroi
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"O Herói" português triunfa em Sundance

É a primeira vitória portuguesa em Sundance. A proposta “O Herói”, de Zézé Gamboa, co-produzida entre Portugal, França e Angola, conquistou, ontem, o recém criado “World Cinema Dramatic Jury Prize”, prémio reservado ao melhor filme dramático estrangeiro. A narrativa da longa-metragem gira em torno da figura de Vitorino, um jovem guerrilheiro que regressa à capital angolana para, em tempos de paz, tentar refazer uma vida desfeita pela guerra civil. Depois de viver 15 anos num cenário de violência, com uma mina a custar-lhe uma perna, o regresso a casa transforma-se noutra batalha pela sobrevivência, num contexto de desestruturação social, marcado pelo desemprego e pela corrupção generalizada. Estreado em Portugal, no ano passado, o filme não conheceu o êxito de bilheteira, tendo passado completamente ao lado do grande público consumidor de cinema. As estatísticas do ICAM dão ao “Herói” cerca de 300 espectadores nas duas semanas de exibição no circuito comercial português. No entanto, Zézé Gamboa afirmou à RTP que o seu filme conheceu valores de assistência muito próximos das 5 mil presenças, contando, desde logo, com antestreias e sessões especiais. Colocando de lado a guerra de números, no Fantasporto no ano passado, o filme foi recebido com apatia e relativo desinteresse. Com argumento de Carla Baptista e produção de Fernando Vendrel, “O Herói” é a terceira proposta cinematográfica dirigida por Gamboa. O realizador angolado estreou-se na sétima arte com a direcção de ”Dissidência”, em 1999, avançando depois para “Desassossego de Pessoa”, em 2001.

Friday, January 28, 2005

"O Quinto Império" de Manoel de Oliveira

Após a antestreia mundial no Festival de Veneza, em Setembro último, com Manoel de Oliveira a receber o Leão Douro, por uma vida dedicada ao cinema, Portugal conheceu ontem a entrada em cena d´"O Quinto Império - Ontem como Hoje". Já tive a oportunidade de ver o filme e, tal como tinha prometido aqui no VA, após uma breve conversa com Oliveira e respectivo "post", o filme merece uma reflexão pela temática que sugere e pela atitude simbólica que encerra. Mantendo a ligação história-literatura-memória, basilar na cinematografia de Oliveira, o realizador apropria-se da peça teatral "El Rei D. Sabastião", de José Régio, propondo uma releitura e confronto com a geopolítica do mundo actual, tendo a União Europeia, o terrorismo de islâmico e a guerra norte-americana como principais fantasmas. Em comum, ontem como hoje, emerge o sonho imperialista das grandes potências, os conflitos religiosos, a
supremacia político-ecnomónica do hemisfério Norte, a democracia dos países ditos desenvolvidos imposta e defendida pelo poder bélico. Em Veneza, houve mesmo, entre a assistência, quem visse o filme de Oliveira como uma crítica anti-Bush.
Mais urgente pela actualidade das questes que levanta do que surpreendente pela estética ou narrativa que apresenta, "O Quinto Império" não é o melhor de Oliveira, no entanto, é um filme de sugestão, de pensamento, de solidez inabalável. É na penumbra do sonho sem concretização possível, é no território da utopia, entre o Mosteiro da Batalha e o Convento de Cristo, que Oliveira filma um D. Sebastião (interpretado pelo neto Ricardo Trêpa) em constante equilíbrio entre o rei louco,obcecado com a expansão do império, desejoso por cumprir Portugal, e o santo/martir predestinado por Deus a espalhar a cristandade. Da visita ao túmulo de D. João II à dramaticidade profética do Sapateiro Santo (Luís Miguel Cintra) passando pela obsessão simbólica da espada de D. Afonso Henriques lançada ao ar, num voo premonitório de uma queda inevitável, num dos melhores planos de todo o filme, "O
Quinto Império" surge na filmografia de Oliveira como um "manifesto" inteligente e conservador sobre incapacidade da alma humana em se transcender na diferença cultural, política e religiosa do outro.

Wednesday, January 26, 2005


Dia Maior Posted by Hello

"Dia Maior", de Né Barros, no TeCA

Uma das coreógrafas mais interessantes do panorama nacional de dança contemporânea, Né Barros regressa amanhã, quinta-feira, ao TeCA com mais uma proposta a não perder. Sobre "Dia Maior" já tive a oportunidade, à convite da própria para o TNSJ e por sugestão editorial para "O Comércio do Porto", de expressar por duas vezes a minha leitura sobre o projecto. Observei o espectáculo em dois contextos diferentes, a criatividade, ousadia e profundidade das questões Né Barros levanta continuam a seduzir-me profundamente e a cativar-me pela sua inteligência na abordagem do universo semiótico e relacional do corpo. Depois do desconcertante "Vaga", que para além de ter absorvido grande parte das referências cinematográficas, de Lynch a Cronenberg, que povoam o meu imaginário, levantou-me uma série de questões tão pertinentes quanto inquietantes sobre as extensões autónomas da memória genética do corpo, com o uso, inteligente, das "mala-monitor" e com um conjunto de construções coreográficas cativantes e coerentes, em "Dia Maior" a experimentação, o abandono viagiado, a fuga para as sombras do tempo produziram um espectáculo mais orgânico, conduzindo a problemática das relações inter/corporais, espacio/temporais e de comunicabilidade/identidade por territórios provocantes, sedutores e inquietantes. Na sua quinta colaboraçã com N+e Barros, Alexandre Soares sobe ao palco, contagiando, desde o nascimento até à morte, o mais recente trabalho de Né. Apesar de manter a referências que lhe são quase genéticas da sétimas arte, tão bem expressas na obras de Canijo, o guitarrista dos TTT alimenta movimentos de ruptura com o preconcebido, protagonizando sobreconstruções arrepiantes, surpreendendo pelo dinamismo e criatividade do "live act" apontado em várias direcções do abstrato, outro território que me atrai bastante. "Dia Maior" resulta de vários dias menores em perpétua reconstrução, interiores/exteriores, plurais e unos, dilatados e comprimidos, em micro-narrativas do acordar solitário, do conflito do corpo enquanto objecto de um desejo, símbolo, emissor de signos, à epifania do Outro, enquanto possibilidade última de salvação na descoberta da identidade na comunicação, na transcendência, na metafisicalidade. Proposta a não perder, "Dia Maior" inaugura a amanhã a programação 2005 do TeCA. Dança contemporânea no seu melhor nível no Teatro Carlos Alberto, do Porto, até sábado às 21h30.

Monday, January 24, 2005

"AMI Pela Ásia": O poder extraordinário da Solidariedade

Ainda estou a ressacar a experiência verdadeiramente singular do concerto "AMI pela Ásia", do passado sábado à noite, no Coliseu do Porto. Para além do evento ter reunido um "best of" da música feita em Portugal, o que mais me impressionou foi o facto do público ter interiorizado, sem recurso a sensacionalismos baratos, o poder da solidariedade e a alegria interior de ajudar os outros. Sentiu-se uma harmonia entre público e bandas absolutamente única, autêntica e invulgarmente emocionante. O prazer de oferecer, de dar sem exigir nada em troca foi, de facto, o elemento essencial que catalizou uma energia superpositiva que fez vibrar o Coliseu do Porto. Hoje falava com a Isabel Martinho, da AMIarte, sobre uma entrevista que deu a uma colega minha de um jornal e perguntei-lhe o que tinha dito, o que é que a marcou mais na noite de sábado, a resposta foi desconcertante: "o facto das crianças e adolescentes que foram ao concerto terem sentido, algumas se calhar pela primeira vez, a alegria de ser-se solidário. Espero que esse sentimento seja marcante nas suas vidas que os torne adultos mais sensíveis às necessidades dos outros". Acredito sinceramente nesse carácter pedagógico do evento, que não nasceu dos discursos, nem dos choradinhos, mas da prática da alegria experiênciada de dar, do poder extraodinário da solidariedade, da partilha. Espero sinceramente que a AMI organize todos os anos um concerto dentro deste formato, para uma causa específica, para um público dos 8 aos 80. Motivos não faltam. Basta recordar que o número de crianças que morrem à fome equivale a um tsunami de cinco em cinco dias. Para além da crueldade e abstração por detrás das estatísticas, ao salvar uma vida estamos, de facto, a salvar um mundo. Obrigado AMI e Porto. Emocionei-me bastante com as boas vibrações do Coliseu.

Saturday, January 22, 2005


Cartaz "AMI Pela Ásia" Posted by Hello

Concerto: AMI pela Ásia no Coliseu do Porto

Grande noite hoje no Coliseu do Porto. Xutos, The Gift, Clã, Mesa entre muitos outros juntam-se logo a partir das 21h00, no Coliseu do Porto, para o megaconcerto "AMI pela Ásia". Naturalmente, lá estarei, não só pela causa e conceito arte-solidária, mas também pelo som e pela amizade que me une as várias pessoas que organizam o evento, em especial à Isabel Martinho, a incansável mentora e produtora de grande parte da iniciativa. A alma anónima por detrás do projecto. Últimas novidades antes do espectáculo: Álvaro Costa será o animador de serviço com Cátia Sul no apoio VJ. Logo à tarde a partir das 18h00, Xutos, Mesa e Fingertips passam pela Fnac de Sta. Catarina para uma maratona preparatória, em formato "show-case", com sessões de autógrafos pelo meio. Após o concerto no Coliseu, "after-party" de descompressão no ACT. Fica o convite. Apareçam...

Friday, January 21, 2005


Casa da Música Posted by Hello

Programa da Casa da Música: "Ritual do lo habitual"

Se a presença respeitável do veterano Lou Reed não espantou ninguém, o que dizer da inclusão dos Xutos e Pontapés e Pedro Abrunhosa no programa de abertura da Casa da Música, agendado de 14 a 24 de Abril. Soa, naturalmente, a uma união de facto entre Queima das Fitas e Porto Sound, sobretudo quando os responsáveis apresentam o cartaz como sendo de nível europeu. Segue-se um concerto de Gala, com a Orquestra Nacional do Porto a interpretar "Fanfarra" dirigida pelo maestro António Vitorino e o pianista Alfred Brendel a revisitar Mozart, Shumann, Schubert e Beethoven. Uma desilusão no mínimo ou será que a Europa começa na VCI e termina na Ribeira?

Música: Vítor Rua no TCA

Para os leitores mais atentos esta chamada de atenção na surpreende, visto que considerei, para espanto de algumas tribos, o concerto do Vítor Rua, no Contagiarte, como o melhor momento "live" de 2004. Para quem não teve a oportunidade de assistir ao referido espectáculo fica a recomendação de logo à noite ir até ao Teatro do Campo Alegre, onde o guitarrista subirá novamente a "Caravan". Registe-se que o concerto insere-se no 2º e inesperado Encontro Internacional de Poesia e Performance do Porto - "Em Voz Alta", evento comissariado por Rosa Alice Branco, com as participações de Alberto Pimenta, Ana Hatherly, Rodolfo Hasler, Valter Hugo Mãe e Dead Combo, entre outros.

Dança Contemporânea: "Em Resumo" no Rivoli

A primeira certamente de poucas propostas de dança contemporânea a subir ao palco do do Rivoli. Projecto "Em Resumo" conhece hoje à noite uma única apresentação no Grande Auditório. Fui espreitar parte do ensaio e fiquei com boas indicações. O trabalho lança uma série de pistas de reflexão sobre o corpo enquanto objecto, matéria, utensílio do processo criativo, que me pareceram interessantes, apesar de carecerem de desenvolvimento e alguma criatividade. A concepção e direcção artística é da responsabilidade de Joclécio Azevedo, jovem natural do Brasil, formado no Balleteatro, com grande parte do seu trabalho desenvolvido no Porto, com algumas residências no estrangeiro, a última das quais no Laban de Londres. Dividido em duas partes, a proposta apresenta primeiramente uma reflexão centrada no carácter utilitário do corpo, recorrente dos ambientes marcadamente performativos da obra Joclécio, para depois avançar para um segundo momento de desconstrução de narrativas, procurando oferecer ao espectador uma obra aberta com várias leituras interpretativas.

Thursday, January 20, 2005


Eugénio de Andrade Posted by Hello

Literatura: 82º aniversário de Eugénio de Andrade

Acabo de chegar a casa vindo da Fundação Eugénio de Andrade, aqui no Porto, onde há poucas horas atrás se celebrou o 82º aniversário do poeta. A ocasião foi oportunamente aproveitada pelo Centro de Estudos Comparatistas, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, para editar o nº 5 da revista "Textos e Pretextos", integralmente dedicada à vida e obra de Eugénio de Andrade. Num auditório completamente esgotado, após a vertente académica de apresentação da excelente publicação, a cargo de Rosa Maria Martelo, poetas consagrados, como Manuel António Pina ou Jorge Sousa Braga, e jovens talentos, Rui Lage e Filipa Leal, emprestaram voz à lírica de Eugénio de Andrade recitando poemas e confessando a admiração, respeito e amizade que os une à vida e obra de um dos escritores mais influentes da literatura portuguesa do século XX. Tive, naturalmente, a oportunidade de conversar com algumas das figuras presentes e testemunhar que, para além da habitual troca de galhardetes entre habitantes da mesma "tribo", triunfou uma troca de afectos, experiências e memórias que unem o poeta a uma parte bastante significativa da força intelectual da cidade do Porto. Arnaldo Saraiva, como presidente da Fundação Eugénio de Andrade, presidiu à cerimónia, confessando, no final, que este encontro geracional de autores acaba por manifestar que "apesar da saúde do escritor se encontrar débil, a obra do poeta está viva e com boa saúde".
Destaque final, para a publicação "Textos e Pretextos", dirigida por Margarida Gil dos Reis. Neste nº 5, sob coordenação de José Pedro Ferreira, os estudiosos de literatura têm a oportunidade de encontrar um manancial bibliográfico, passivo e activo, absolutamente incontornável para futuras investigações e um série rigorosa de sete ensaíos sobre as grandes temáticas em torno da obra de Eugénio de Andrade, dos "lugares marítimos", de Rute Beirante, a "plantas, frutos, e animais", de Ricardo Paulouro, passando pela "forma de pensar a sexualidade", de Paulo Simões Mendes. Para além, de poemas e cartas manuscritas e uma completíssima cronologia, os interessados em penetrar no universo de Eugénio de Andrade têm ainda à sua disposição um conjunto de testemunhos sobre o impacto da obra do poeta da autoria de figuras das artes e letras como António Lobo Antunes, Mário Cláudio, Ângelo de Sousa, e Nuno Júdice, entre outros.

Monday, January 17, 2005


Jean-Marc Bouju (AP) Posted by Hello

World Press Photo no Fórum da Maia

Pelo 5º ano consecutivo, o Fórum da Maia acolhe a exposição "World Press Photo". Tive a oportunidade de assistir a inauguração do evento, no sábado à noite, e de visitar a excelente colheita fotográfica 2003. Em termos gerais, a Guerra no Iraque acabou mesmo por dominar a atenção dos trabalhos mais superlativos, com alguns desvios chocantes pela condição da mulheres no Afeganistão. Realidade que importa descobrir ou reconhecer.
Em conversa com a respresentante da Fundação World Press Photo, Emily Kerckhoff salientou as histórias por detrás das imagens, destacando, inevitavelmente, o trabalho do francês Jean-Marc Bouju, da Associated Press, que conquistou o prémio de fotografia do ano, pela forma como "apresenta uma imagem de ternura, num contexto violento", justificou a comissária holandesa. A fotografia revela um prisioneiro de guerra encapuçado abraçando o seu filho, de cinco anos, na base militar de An Najaf, no sul do Iraque. Triunfa precisamente pelo valor simbólico e emocional. Paralelamente, encontram-se também patentes trabalhos do Prémio Visão. Com um júri da 4ª edição presidido por Sabastião Salgado, o trabalho vencedor é da autoria do "free lancer" José Manuel Bacelar, que assim substitui com mérito o meu amigo e colega Paulo Freitas. A fotografia revela da tragédia dos incêdios no Verão de 2003, representada na luta de um popular contra o avanço das chamas num incêndio florestal na Sertã. Presente na inauguração, tive a oportunidade de conversar com o autor que recordou a noite em que realizou o trabalho. Alertado para o incêndio pela televisão, saltou à meia noite do dia 6 de Agosto de 2003 para um carro numa viagem Braga-Sertã, de dias horas e meia. No final, valeu o sacrifício. Conseguiu um fotografia notável. Ambas exposições, de exelente qualidade, estão patentes ao público no Fórum da Maia até dia 6 de Fevereiro.

Friday, January 14, 2005

Quintas de Leitura com mais música em 2005

O Teatro do Campo Alegre (TCA) acolheu "Duelos ao Sol", a primeira sessão das Quintas de Leitura deste ano. Assisti, resisti e dirigi com satisfação o espectáculo não só pelas propostas poéticas a duas vozes, como também, e sobretudo, pelo brinde Ana Mar e J. P Simões. No final, conversei com João Gesta e com o Belle Chase fora do Hotel. Deixo algumas pistas para o cartaz 2005, que promete, desde já, reforçar a aposta na música "made in Porto". O confronto entre escritores consagrandos com nomes menos conhecidos da arena literária prossegue ao longo do ano, enquanto o formato das entrevistas parece morto e enterrado.
Produzido pela Caixa Geral de Despojos, projecto "resindente" do TCA, a proposta "Duelos ao Sol" triunfou, num primeiro momento com a dupla Filipa Leal e Naná Menezes a navegar sobre a maré surreal de Alexandre O´Neill, depois com Sandra Salomé e Pedro Lamares a recitarem extractos das "Três Cartas da Memória das Índias" de Al Berto, e finalmente, na descarga poética central do espectáculo, com Isaque Ferreira e Daniel Maia-Pinto Rodrigues algures entre o lírismo de Fausto e a "América" desconcertante de Ginsberg. J. P. Simões e Ana Deus fecharam uma noite com temas adaptados: "Se Por Acaso", "Vestido Vermelho" e "A Lenda do Homem Pássaro". Sessão nutritiva, equilibrada, satisfatória, sobretudo, criativa e audaz.
Quando às novidades das "Quintas" para este ano ficam alguns avisos à navegação. Já em Fevereiro os Plaza, com Quico Serrano ao leme, atacam com pop textos de Pedro Mexia; em Março, mês Reininho, o público pode contar com presença do GNR e as ballas de Armando Teixeira. No mês seguinte, num dos espectáculos a não perder, Vítor Rua e Nuno Rebelo dão música ao corpo de Vera Mantero, com a obra "Investigações Geométricas", de Gonçalo M. Tavares a conhecer a luz do dia. Finalmente, em Maio, José Luís Peixoto regressa às "Quintas" para celebrar o 5º aniversário do nascimento de "Morreste-me" com concerto a cargo do excelente Old Jerusalem. A encerrar o semestre, a Caixa Geral de Despojos propõe o audacioso "T3+Rum", uma descaga de álcool e poesia a ocupar um dos apartamentos do TCA.

Wednesday, January 12, 2005


Oldboy Posted by Hello

Fantasporto: linhas gerais do cartaz 2005

Assisti ontem à primeira apresentação oficial do programa do Fantasporto 2005. Ao celebrar as bodas de prata do certame instiga, a partir do próximo dia 21 de Fevereiro, ao confronto artístico entre Ocidente e Oriente, com cinema norte-americano e sul coreano na linha da frente de uma batalha com final imprevisível. Entre "bockbusters" norte-americanos, como "Constantine", e propostas de autores asiáticos, como "One Missed Call", do japonês Takeshi Miike, o cartaz 2005 contém várias novidades de interesse, enquanto, por outro lado as actividades paralelas ficam um pouco aquém das iniciativas inicialmente previstas. Recorde-se que no ano passado a Dorminsky anunciou uma maratona de 25 filmes no Rosa Mota, espectáculos de teatro... Apesar das limitações e dos cortes financeiros de mais de dezena e meia de empresas e instituições privadas, o Fantas arranca e promete ser um dos eventos mais interessantes do primeiro trimeste 2005.
Das novidades da edição comemorativa dos 25 anos, destaque para duas novas secções "Porto em Curtas", que rivaliza com as Curtas de Vila do Conde, e "Anima-te", que coloca em xeque o Cinanima de Espinho. Acrescente-se ainda heterogéneo programa de música, "Fantas Sound", o Porto Sound que se cuide, que inclui uma série de oito espectáculos do rock ao pop, do folk ao jazz e blues, no eternamente por restaurar Teatro Sá da Bandeira.
Do cartaz 2005, destaque inicial e incontornável para a estreia europeia, do mega projecto "Constantine" de Francis Lawrence. Com um orçamento recorde de 300 milhões de euros, a adaptação ao grande ecrã da obra de banda-desenhada "Hellblazer", editada pela DC/Vertigo e escrita Kevin Brodbin,Mark Bomback e Frank Capello, apresenta Keanu Reeves como protagonista, numa obra que segundo Mário Dorminsky, se
aproxima de "Matrix". Entre candidatos a óscares e vencedores de festivais internacionais, sublinhe-se a exibição no Fantas do surpreendente "Oldboy", do sul-coreano Chan-Wook Park, um "thriller" criativo que arrecadou, entre outros, o prémio especial do júri em Cannes; e o mais do que provável vencedor dos alguns Globos de Ouro e candidato às estatuetas douradas, "Sideways", de Alexandres Paine, um dos filmes do momento nos EUA. Na área competitiva registe-se a antestreia de "Nothing" e a presença especial do respectivo realizador Vincenzo Natalli ("O Cubo" e "Cypher"). Para aos amantes de emoções fortes, o certame reserva "Saw", de James Wan, considerado com um mais assustadores filmes de terror dos últimos tempos. Destaque ainda para "Primer", de Shane Carrut, um cocktail de ficção-científica recheado de efeitos especiais venceu o Festival de Sundance.
Finalmente, pelo segundo ano consecutivo, o Fantas exibe algumas das mais criativas obras do fantástico nascidas, naturalmente, em território asiático e que depois de terem conquistado público do certame têm vindo a ganhar terreno no circuíto cinematográfico nacional. Vindo do Oriente, o Porto recebe em antestreia dos mais recentes trabalhos de Shinia Tsukamoto e Takashi Miike, entre outros realizadores de culto.
Mais novidades em breve...

Fantasporto: Fantas Sound

Conjunto de concertos a atingir o Teatro Sá da Bandeira inserido na 25ª edição do Fantasporto. Destaque inevitável para os Xutos, provavelmente a última oportunidade de ver e ouvir a banda de Tim e Zé Pedro em formato acústico, o jazz dos João Bosco, numa noite certamente inesquecível e finalmente os Mesa, colectivo d J.P. Coimbra, um dos projectos mais interessantes da pop actual. Fica a agenda:
Fevereiro
Dia 25 - Milladoiro
Dia 26 - Xutos e Pontapés
Dia 27 - João Bosco e Trio
Dia 28 - Fairport Convention
Março
Dia 1 - Mesa
Dia 2 - Maria Viana
Dia 3 - Daemonia
Dia 4 - Plaza

Tuesday, January 11, 2005


Valdjiu Posted by Hello

Concerto de Solidariedade: Blasted Mechanism

Uma das mais recentes novidades do poderoso cartaz do concerto "AMI pela ÁSIA" a subir ao palco do Coliseu do Porto no próximo dia 22, são os Blasted Mechanism. O evento que inclui, entre outras, as participações dos Xutos e Pontapés, The Gift, Mesa e Clã, está a ser organizado pela AMIarte, núcleo cultural da Delegação Norte da Assistência Médica Internacional. Isabel Martinho, da AMIarte, adiantou-me que muito em breve revelará o cartaz final do mega-espectáculo. "Neste momento - confessou a produtora - o número de bandas a querer participar neste projecto superou todas as expectativas". Para além da disponibilidade das bandas a responsável encontrou resposta favorável em empresas ligadas ao sector do espectáculo. "Fiquei agradavelmente surpreendida pela forma como diversas instituições se disponibilizaram, desde logo, oferecendo o mais diverso apoio logístico, desde a equipe de seguranças aos técnicos de som".

Sunday, January 09, 2005


Miguel Guedes Posted by Hello

Concerto de Solidariedade: GNR e Blind Zero

Mais dois nomes a acrescentar ao cartaz do concerto de solidariedade do próximo dia 22 no Coliseu do Porto: GNR e Blind Zero. Efectivamente, a banda de Reininho inicia da melhor forma as celebrações do 25º aniversário, enquanto o projecto de Miguel Guedes teve a coragem de colocar em "stand by" as gravações do sucessor de "The Way to Bleed Your Lover", nos estúdios do Mário Barreiros, para se juntar à festa da AMIarte.
Espera-se um concerto "long-play", ao vivo e a cores, para mais tarde recordar. Entretanto, muitas novidades do cartaz e não só ainda estão para revelar...

Thursday, January 06, 2005

Concerto de Solidariedade: Clã e Mesa

Depois das presenças dos Xutos e Pontapés e The Gift, os Clã e os Mesa são para já mais duas bandas a juntarem-se, no próximo dia 22, ao Concerto de Solidariedade pela Ásia, organizado pela AMIarte em parceria com a produtora Ritmos. Provavelmente, dois dos projectos mais interessantes na área do pop, o colectivo de Vila do Conde pelo excelente "Rosa Carne", na minha opinião, um dos melhores registos de 2004, e a banda liderada por J.P.Coimbra vai com uma segurança e inteligência invulgares no contexto da música portuguesa construíndo uma carreira sólida e consistente com concertos de grande qualidade. No Coliseu, a projecto de liderado por J.P Coimbra surge com a participação especial de Rui Reininho.
Entretanto, o cartaz para o concerto "Música e Solidariedade" não se encontra fechado, existindo outras duas bandas que prometem subir ao Coliseu num dos espectáculos de música mais interessantes, pelo menos, do primeiro trimestre de 2005.
Mais novidades para breve...

Wednesday, January 05, 2005


Zé Pedro Posted by Hello

Concerto de Solidariedade: Xutos e The Gift juntos no Coliseu do Porto

Um dos acontecimentos mais interessantes a atingir o Porto já neste mês de Janeiro. No próximo dia 22, os Xutos e Pontapés e The Gift juntam-se para partilhar o palco do Coliseu do Porto num megaconcerto de solidariedade pelas vítimas do marmoto na Ásia. A notícia foi-me revelada ontem em primeira mão por uma fonte próxima ao evento que me adiantou ainda mais três bandas de primeira linha que irão fazer parte do espectáculo. Em breve anunciarei o cartaz completo que aviso é do melhor que há em termos da música "made in Portugal". A produção do evento está a cargo da Ritmos em parceria com a AMIarte, departamento de acção cultural da Assistência Médica Internacional que receberá o resultado da bilheira destinado na totalidade a apoiar a missão da AMI no Sri Lanka. Intitulado "Música e Solidariedade", o concerto promete desde logo transformar-se num dos eventos mais interessantes a atingir o Coliseu. Naturalmente faço questão de marcar presença, não só pela causa que é mais do que nobre, obrigatória e exemplar, como também pela qualidade das bandas que por lá vão passar. Aconselho desde já a comprarem o mais cedo possível os bilhetes para o espectáculo. Espero sinceramente que o Coliseu esgote. Logo que me permitirem anunciarei o cartaz completo e outras novidades que se imponham.

Monday, January 03, 2005

2005 pela voz dos agentes culturais do Porto

Expectativas moderadas, desejos urgentes, antevisões realistas e uma maré de desabafos terapêuticos são debitados na primeira pessoa por alguns protagonistas culturais das esfera nacional. De costas voltadas para 2004 e com os olhos bem postos no novo ano, conversei via telefone com músicos, actores, encenadores, gente do cinema, dos palcos e da programação cultural que fizeram uma breve radiografia do ano findo, denunciando problemas de resolução preemente e destacando ambições, sonhos, esperanças e utopias para 2005.
Com ironia inteligente e sarcasmo desconcertante, Rui Reininho olha de soslaio para um dos eventos do ano, a inauguração da Casa da Música, agendada para 14 de Abril. "Sinceramente não me faz falta. Já vivi tantos anos sem a Casa da Música que certamente não me irá fazer grande diferença. Depois de tantos falsos alarmes, não tenho grandes esperanças numa casa dirigida por carreiras políticas". Para a voz dos GNR - que este ano celebram 25 anos de carreira - a realidade da música não tem evoluído favoravelmente. "Há quanto tempo não vemos na televisão um programa sobre bandas como os Xutos ou uma emissão de jazz? Temos sempre o Natal dos Hospitais. Sinceramente, só apareço lá se for da cadeira de rodas", afirma. Relativamente aos festivais de Verão, Reininho dispara: "é necessário estar dentro de certos lobbies. Por exemplo, nós não fomos ao Rock in Rio por estarmos desligados de determinados lobbies".
Já Miguel Guedes, outra das vozes do rock "made in Porto", "a cultura tem sido tratada em Portugal como um bem de segunda necessidade". O vocalista dos Blind Zero, que a partir de quinta-feira entram no Estúdio de Mário Barreiros para gravar o sucessor de "A Way To Bleed Your Lover", espera que a Casa da Música seja "uma oportunidade para a cidade se abrir a todo o tipo de música da popular ao rock".
Opinião partilhada por João Vieira, dos X-Wife, que neste momento se encontram em digressão ao lado dos Wray Gunn. Para o vocalista e guitarrista do colectivo do Porto um dos desafios a enfrentar este ano é a revolução digital. "O fenómeno dos i-pods e ficheiros mp3 está, e vai continuar em 2005, a mudar o consumo da música, sobretudo nas camadas mais jovens", afirma. Para as bandas que têm um target com conhecimentos informáticos é necessário ter em conta que a venda de CD´s vai dar lugar a compra online de temas. "Podemos assistir ao regresso da cultura dos singles, com o público a adquirir temas em vez de álbuns", afirma o músico.
Unânimes, os agentes ligados às artes de palco esperam que o Governo considere a cultura como elemento essencial para o desenvolvimento do país. Com a eterna questão do financiamento sempre no horizonte, actores e encenadores esperam e desesperam por políticas a longo prazo. Norberto Barroca, do Teatro Experimental do Porto, deseja que em 2005 "haja uma política cultural que valorize o teatro". Mais caústico e desassombrado, o actor Óscar Branco considera que "a Câmara Municipal do Porto tem exterminado a cultura na cidade" e que "o Ministério da Cultura não tem existido. O ano de 2004 - afirma o actor - é para esquecer o mais depressa possível".
Catarina Martins, da Visões Úteis, espera que a cultura seja considerada como um bem de primeira necessidade e que se resolvam questões como o estatuto dos artistas e se encontre uma urgente estabilidade nas políticas culturais. "Não podemos estar dependentes de demissões de secretários de Estado ou de ministros", afirma. Opinião partilhada por Rosa Quiroga, da Assédio, que apela ainda à abertura das infraestruturas teatrais a co-produções e à criação de uma rede de programação e divulgação das artes dramáticas.
Na sétima arte 2005 poderá ser um ano com poucas novidades produzidas em Portugal. "A nova lei do cinema está atrasada e isso pode, desde logo, condicionar a estreia em 2005 de muitas propostas nacionais", afirma Mário Dorminsky. Para o director do Fantasporto, "o cinema português tem de deixar de olhar para o umbigo e apresentar ao público propostas de entretenimento inteligentes".
Já o realizador Abi Feijó, espera, simplesmente, que "este ano os responsáveis olhem com compreensão para o sector. Se isso acontecer já é um passo muito importante para a resolução de muitos dos problemas que afectam o sector do cinema", conclui o cineasta de animação.
Nas artes plásticas, João Fernandes, director do Museu de Serralves, situa como problemas a resolver "a falta de espaços disponíveis para os jovens artistas mostrarem os seus trabalhos" e ainda "a necessidade das estruturas existentes terem uma programação clara e definida".

Saturday, January 01, 2005


Franz Ferdinand Posted by Hello

Disco Internacional do Ano: Franz Ferdinand

Com os U2 a protagonizarem uma das maiores desilusões do ano, 2004 trouxe algumas excelentes novidades e aplaudidos regressos. Da colheita internacional sublinho apenas as brilhantes estreias de Franz Ferdinand com disco homónimo e TV on the Radio com "Desperate Youth, Blood Thirsty Babes". Dos regressos, o destaque vai para os Sonic Youth com "Sonic Nurse" e para a ressurreição ainda por confirmar de Morrissey com "You Are The Quarry". De um universo essencialmente rock, estes são apenas quatro discos editados em 2004 que considero no mínimo interessantes. Boas entradas...

Thursday, December 30, 2004


"O Regresso" Posted by Hello

Filme Internacional do Ano: "O Regresso" de Andrei Zviaguintsev

Indubitavelmente o melhor filme que tive a oportunidade de ver este ano. "O Regresso", primeira obra do cineasta russo Andrei Zviaguintsev, 39 anos, afirma-se como uma película de densidade, beleza e drama superior. A narrativa gira em torno do misterioris regresso do pai a casa e das relações emocionais subsequentes entre os dois irmãos e a figura paterna. Diálogos inteligentes, fotografia encantatória, planos desconcertantes numa obra que importa conhecer. O filme conquistou no Festival de Veneza em 2003 o Leão do Futuro - Melhor 1.ª Obra. Após um década a trabalhar como actor, Andrei Tarkovski afirma-se como um realizador de enorme talento e sensibilidade artística. Uma das melhores propostas cinematográficas exibidas em 2004 nos cinemas nacionais.

Wednesday, December 29, 2004


"Rosa Carne" Posted by Hello

Disco Nacional do Ano: "Rosa Carne" dos Clã

Da colheita discográfia nacional 04, destaque praticamente inevitável para o registo "Rosa Carne". Se o ano passado foi indubitavelmente o ano dos Blasted Mechanism, 2004 fica marcado pelo colectivo de Vila do Conde. Para além do excelente trabalho de estúdio e do aproveitamento de letras de Regina Guimarães (colaboradora dos Três Tristes Tigres e na sétima arte de Paulo Rocha), de Carlos Tê (Rui Veloso) e Adolfo Luxúria Canibal (Mão Morta), a banda de Manuela Azevedo concretizou uma superlativa digressão nacional, com concertos tão marcantes como o de apresentação do registo no Teatro Sá da Bandeira ou nas Noite Ritual Rock, nos jardins do Palácio de Cristal.Outros registos "made in Portugal" a ter em conta este ano são "Nus" dos Mão Morta; "Bom Dia" dos Pluto, ambos revelados também nas Noites Ritual, "Cinema" de Rodrigo Leão, "AM/FM" dos The Gift, recordar passagem "live" no Rivoli, devidamente comentada aqui no vício, e finalmente, "Feeding the Machine" dos X-Wife. Xutos, Moonspell e Jorge Palma, com "Mundo ao Contrário", "Antidote" e "Norte", limitaram-se a repisar terrenos seguros e pouco arrojados, não acrescentando nada de substancial às suas discografias.

Tuesday, December 28, 2004


Vítor Rua Posted by Hello

Concerto do Ano: Vítor Rua no Contagiarte

Sinceramente ignorei a dose dupla de Madonna do Atlântico e fiquei pela minha aldeia. Num 2004 algo deprimente em termos da passagem pelo Porto das grandes digressões europeias, considero que a prata da casa acabou mesmo por valer ouro. O concerto de Vítor Rua no espaço Contagiarte foi para mim o momento "live" ´04. Estive entre as 20/30 pessoas que assistiram a uma boa hora e meia de improvisação de Rua numa guitarra de oito cordas. Entre muito suor e litros de virtuosísmo, este ano o concerto mais interessante foi "after-hours" e num local algo inesperado...

Sunday, December 26, 2004

Confessionário 2004

Aproveitando as férias de Natal ´04 e antecipando, desde já, o nascimento de um novo ano, gostaria de, com este post, saber quais os momentos culturais mais marcantes de 2004. Daí que inauguro este confessionário, dado a palavra aos visitantes do blog. A ideia é partillhar experiências singulares e surpreendentes nos campos culturais (espectáculos de música, teatro, dança ou livros, CD´s, outros). O que fica na memória de 2004? O confessionário está oficialmente aberto...

Wednesday, December 22, 2004

Entrevista a Emmanuel Nunes: "Pior do que Santana será difícil"

Uma das mais importantes vozes mundiais na área da mœsica concretiza
uma radiografia do que é necessário mudar na política portuguesa e na gestão da Casa da Mœsica. Residente em Paris há praticamente quatro décadas, onde lecciona do prestigiado Conservatório de Nacional de Música, Prémio UNESCO, em 1999, Prémio Pessoa, no ano seguinte, um dos mais influentes compositores mundais, Emmanuel Nunes passou este domingo pelo Rivoli do Porto para assistir a antestreia da sua peça "Épures", interpretada pelo Remix Ensemble da Casa da Música. Aproveitei a oportunidade para entrevistar o autor de "Le Serpent Vert" e escutar as propostas, reflexões, pensamentos e críticas. O resultado final é demolidor para a classe política portuguesa e para a actual adminstração da Casa da Música.
- Tem um sabor especial ouvir a estreia mundial de uma composição sua em Portugal?
- Esta não é a primeira vez, já houve outras antestreias em Portugal, na Gulbenkian, mas não esta peça. É, sem dúvida um momento especial para mim.
- Continua desapontado com o facto de em Portugal não existir uma orquestra formada de raiz para a música contemporânea?
- Penso que não é necessário haver uma orquestra só consagrada à música contemporãnea. O que é necessário é que a mesma orquestra toque regularmente clássica e contemporãnea. A Orquestra Gulbenkian, que eu saiba, é a única que tem feito bastante no reportório contemporãnea. Mas, é de facto, importante ter uma orquestra sinfónica que esteja em permanente contacto o clássico e o contemporãneo.
- O projecto Casa da Música acredita que poderá ser importante na revonação e construção de novos pœblicos para a música clássica e contemporânea?
- Penso que sim. A minha questão é que haja um governo capaz de decidir. Não é o caso. É tudo um problema de política.
- Nessa matéria, permita-me reportar a outro Prémio Pessoa, Mário Cláudio, que recentemente, recordado o autor da "Mensagem", classificou de "provinciana" a mentalidade da classe política portuguesa, acusando-a de ter "pouco mundo". Partilha dessa adjectivação?
- Não iria tão longe. A palavra "provinciana" é demasiado geral. Agora, há necessidade de uma autêntica cultura política, com mais independência de subordinação económica e que saiba qual é a verdadeira importância da cultura para o país. Isso, sim acho que é muitíssimo importante. Tendo como primeiro-ministro que tivemos é obvio que não pode ser. Não sei se quem virá a seguir será melhor, mas pior é difícil.
- Como é que a comunidade internacional de compositores tem visto o projecto da Casa da Música? Sente que existe alguma curiosidade ou tem passado completamente ao lado?
- Tem existido interesse. Não se esqueça que o Remix é um grupo que hoje em dia já tem um início de uma carreira internacional. Agora, é como digo,o problema é quem é vai gerir a Casa da Música.
- Pensa que o modelo de fundação é o ideial?
Francamente não sei, não estou suficientemente informado nessa matéria. Mas como disse antes, reafirmo agora, o que eu acho é que a Casa da Música necessita de um conselho de administração bem
apetrechado musical e culturalmente. É o problema do Pedro Burmester
não estar no conselho de adminstração da Casa da Música.

Sunday, December 19, 2004

Moonspell injectam "antidote" no aniversário do Hard Club

Ao celebrar ontem sete invernos de algum descontentamento, o Hard Club quis provar que ainda esta muito "Hard" mantendo a dureza granítica original e a escuridão de noites passadas à beira Douro. Para reconstruir os ambientes fundacionais, o espaço convidou pela sétima ocasião os Moonspell. Entre agradecimentos pela oportunidade e recordações de noites de lua cheia, com vampiros à espreita e lobos a uivar, o colectivo liderado por Fernando Ribeiro deixou algumas novidades para 2005 num concerto baseado em "Antidote", proposta sonora 2004 coesa e interessante, construída sobre as atmosferas poéticas de José Luís Peixoto.
Num Hard Club a ameaçar esgotar, a noite pertenceu na integra as diversas tribos urbanas plantadas no território do metal de inspiração gótica. Para além da simbologia dos casacos de couro negros e cruzes ao peito da velha guarda do metal, a "generation next" apresentou-se com alguns toques de sofisticação algo surpreendentes, num "up grade" estético-tecnológico de telemóveis 3G apontados ao palco e generosos perfumes "made in France" transformados em armas químicas de sedução maciaça.
Num ambiente em tímida ebulição, os Moonspell esperara pelo sol da meia-noite para servir "Antidote" entrecurtado com algumas "oldies" em formato "best of", com destaque inevitável para os temas "Opium", WFull Moon Madness" e "Mephisto", com memórias do histórico "Irreligious", provavelmente o melhor registo da banda, a servirem de prenda de natal para o fãs mais "hard core" da banda de "WolfHeart". O concerto não trouxe grandes novidades sonoras, limitando-se a confirmar o excelente momento da banda de metal mais viajada do micro-cosmos luso, com destaque especial para a bateria de Mike Gaspar.
Dos projectos anunciados por Fernando Ribeiro, registe-se a confirmação de actualmente o colectivo se encontrar a trabalhar no sucessor de "Antidote", a edição para breve de um DVD antológico e ainda a promessa de regressarem ao norte do país, desta vez ao lado dos britânicos Cradle of Filth, num espectáculo para M/18 agendado para 26 de Março no Coliseu do Porto.
Consciente da festa de aniversário, Fernando Ribeiro não quis terminar o concerto de anteontem sem antes considerar o Hard Club um "caso impar no contexto das salas de espectáculo portuguesas". A banda irá continuar a trabalhar no próximo longa-duração e já próximo inicia em em Fevereiro parte para a estrada acompanhando a digressão europeira dos Cradle of Filth, de Bruxelas, a Amesterdão, de Oslo a Budapeste. Entretanto, o Hard Club prepara o "Natalapalusa" para a próxima quinta-feira e a passagem de ano com propostas d´n´b e hip-hop, entre os britânicos Total Science e dos dj´s nacionais com Nuno Forte à cabeça.

Saturday, December 18, 2004

"Cores, Figura e Luz" no Museu Soares dos Reis

Museu Nacional Soares do Reis (MNSR) inaugura hoje a exposição “Cores, Figura e Luz”. Trata-se de um breve mais representativo conjunto de 28 pinturas portuguesas geradas na primeira metade do séc. XVI. Reunidas e recuperadas dos acervos do MNSC e Museu de Arte Antiga, as propostas artísticas apresentam, desde logo, uma tendência figurativa de inspiração sacra, revelando um roteiro possível pelas principais oficinas de pintura durante o reinado de D. Manuel. Dividida em cinco núcleos, a exibição propõe pintura luso-flamenga; as incontornáveis oficinas de Lisboa; os trabalhos de Cristóvão de Figueiredo centrado nas histórias de Vera Cruz; as inquietantes propostas de Vasco Fernandes e da oficina de Viseu, encerrando com o inesperado maneirismo de Francisco de Campos.
Da primeira parte da exposição, o comissário José Alberto Seabra Carvalho salienta a oportunidade inédita do público poder comparar as pinturas “A Virgem com Menino Jesus do Trono” (1515-1518), “Virgem do Leite” (1520) e “A Virgem com o Menino” (1520), estas duas últimas da autoria de Frei Carlos, da importante oficina do Espinheiro, em Évora. “Há nas três obras uma linguagem comum de símbolos virginais e redentores de Maria, a nova Eva que intercede por nós no resgate do pecado original, centrada em emblemáticos frutos e flores do Paraíso”.
Num segundo momento, entrando no contexto artístico das oficinas de Lisboa, destaque para os trabalhos “Testemunho de S. João Baptista junto dos Sacerdotes e levitas de Jerusalém” (1535-154), “Santo António pregando aos peixes” (1535-1540) e “Ressurreição de Cristo” (1537), de Garcia Fernandes, que sublinham a união de dois momentos bíblicos sobre uma única pintura.
Entrando na terceira parte da exposição, o visitante é confrontado com obras de Cristóvão de Figueiredo, colega de Garcia Fernandes. Destaque evidente para o trabalho “Santíssima Trindade”, uma obra de tipo marcadamente iconográfico que apresenta uma imponente figura do Pai segurando o Filho crucificado com o Espírito Santo, em forma de pomba, repousando sobre a cruz. Apesar da temática da Trindade e da gramática pictórica ser recorrente ao longo da Idade Média, a abordagem de Cristóvão de Figueiredo sugere uma proporcionalidade figurativa não lineas com o hieratismo teológico dos respectivos elementos sacros.
Destaque final para as propostas centradas na narrativa de Vera Cruz representadas em dois trabalhos evocativos “Milagre da ressurreição do mancebo” e num terceiro “Stª Helena e o achamento das três Cruzes”.
No quarto núcleo, referente aos trabalho de Vasco Fernandes e à oficina de Viseu, o visitante é confrontado, desde logo, com as obras “Santa Catarina” e “Santa Luzia”. O comissário José Alberto Seabra Carvalho realça “a unidade compositiva e visualmente forte que as une como um cenário único amplia o efeito expressivo com a dura aridez da natureza representa”. Destaque particular para a imagem algo perturbadora de Santa Catarina que surge de pé, segurando uma espada, sobre o cadáver de um homem degolado.
Finalmente e a encerrar a exposição, o visitante a oportundade de se surpreender na secção “Um Inesperado Maneirismo”, com o “Pentecostes” de Francisco de Campos. Interessante trabalho de elevada densidade de objectos, com representações vários apóstolos e outras figuras sacras.
Inaugurada hoje ao público, a exposição “Cores, Figura e Luz” encontra-se patente no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, até ao dia 3 de Julho de 2005.

Friday, December 17, 2004


Adolfo Luxúria Canibal Posted by Hello

Atmosferas nas Quintas de Leitura ´04

Indubitavelmente um dos mais interessantes e criativos projectos sobreviventes da Porto 2001 e, mais recentemente, do Euro 2004. As "Quintas de Leitura" no Teatro do Campo Alegre evitam operações plásticas com ou sem botox de outras celebridades ainda por (re)conhecer, desenhando momentos e atmosferas poéticas mais ou menos nobres numa cidade geneticamente lírico-depressiva. Com Nuno Júdice do topo da lista para os oscarizáveis da colheita 2004, ontem o evento encerrou a estação com a modesta proposta "Autógrafo, autocolantes", uma antestreia literária a editar em Janeiro pela Quasi, do encenador/actor Paulo Campos Reis. Nota mais para o pronto-socorro Ana Deus e o dimanismo competente e criativo de Alexandre Soares. Entre saudosos Tigres à beira do suicídio e recordações de Canijo numa desconcertante "Noite Escura", com criadora Regina Guimarães sempre à espreita, a componente musical acabou vencer a poesia, num duelo a evitar.
Em final de estação, conversei com João Gesta, confrontei memórias passadas e futuras, entre merecidos aplausos e confessadas angústias, pedindo num balanço anual e uma antevisão 05. Nos próximos dias revelarei mais detalhadamente algumas das novidades projectadas para a versão ´05, destacando, para já, em forma de "teeser" a presença de Vítor Rua, que, registe-se, este ano ofereceu um dos melhores concertos realizados no Porto, no espaço Contagiarte, que infelizmente passou ao lado dos "media" das especialidade, provavelmente destraídos com as festas de aniversário no Coliseu ou com as pop-stars do Atlântico.
Pelo caminho 04 entre poetas e músicos, recordo noites mal aproveitadas de Lúxuria e algum Canibalismo, momentos sonoros únicos e geniais com os "Uivos" de Adolfo e a Mesa bem posta de JPSimões. Registe-se ainda as descargas líricas de José Luís Peixoto em conversas off tipo Sic Radical.
Em noite de até para o ano fica um sinal mais para o cocktail nutritivo servido nas "Quintas" entre poetas novos a novos poetas passando por autores consagrados, sobra quase sempre boa música num dos espaços mais criativos e interessantes da cidade do Porto. Uma espécie "best of" do Pinguim com o olhar cultural virado para uma paisagem além Rio e Douro.

Thursday, December 16, 2004

Manoel de Oliveira: "onde está a inteligência dos homens?"

Noite de antestreias no 10 aniversário das salas do Cinema Cidade do Porto. Prato princípal "O Quinto Império - Ontem como Hoje", de Manoel de Oliveira. Guardo para 27 de Janeiro, data da estreia em Portugal, a respectiva análise crítica do filme. Para já ficam algumas pontos de reflexão e de intensão deixados ontem à noite em jeito de "flash-interview" pelo realizador. Não é de todo inocente a escolha pela peça de Régio sobre o mais poderoso mito da nossa cultura e nacionalidade. A actualidade da película é construída, segundo Oliveira, sobre dois pilares base: uma analogia política e uma inversão do confronto religioso. O primeiro considera a ideia de União Europeia próxima da noção de Quinto Imperio, tendo como pano de fundo o sonho, a loucura e a ambição centralizadora de El-Rei D. Sebastião, (nas palavras do padre António Vieira "um só rei, um só papa") e a sede constitucional e federalista da UE. Para Oliveira "a democracia tem vindo a aproximar-se da ideia do Quinto Império" ou seja um poder centralizador e globalizante que tende a "fazer uno e que é desuno". Do ponto de vista religioso, para o realizador as cruzadas do Desejado reaparecem invertidas: "agora são os muçulmanos contra os católicos". Finalmente, numa incursão teórica algo surpreendente, muito próxima da teologia da libertação e da ecologia humana de Gutierres a Boff, Oliveira relaciona ainda a problemática da globalização com a dignidade do homem e com respeito pelo meio ambiente, desabafando perante o suicídio da destruição do nosso habitat: "onde está a inteligência do homem".
Apesar concordar no essencial com Oliveira, importa, no entanto, separar as águas em termos do carácter imperialista da UE e do novo rosto do Império denominado de globalização. Enquanto o primeiro possui um suporte político que se encontra em crise por falta de espaço não ideológico mas sim empírico, em parte resultado de uma estrutura centralizadora cada vez mais barroca e incapaz de fazer frente ao poder económico; o segundo cresce precisamente pela subjugação da poder político e pela metamorfose perversa para uma estrutura já não unificada e piramidal mas antes descentralizadora com tentáculos semi-independentes capazes de se autoreproduzirem numa expansão que não reconhece fronteiras geográficas, nem necessita de referendos populares.

Wednesday, December 15, 2004

Evento/reflexão: Cinema na cidade do Porto

As quatro salas de cinema do Cidade do Porto celebram hoje dez anos de existência, aproveito a oportunidade para uma breve reflexão e algumas memórias sobre a sétima arte no Porto, mas primeiro fica o convite para logo à noite, a partir das 21h30, assistir a uma das quatro estreias em simultâneo que ocupam a quatro salas do Multiplex, numa amostra do que segue já para os ecrãs em Janeiro 05. Confirmadas estão também as presenças especiais do realizador Manoel de Oliveira e do actor Ricardo Trêpa, ambos tomam sobre si a responsabilidade de apresentar, em antestreia nacional o mais recente projecto de Oliveira: “O Quinto Império - Ontem como Hoje”, com estreia oficial marcada para o próximo dia 27 de Janeiro.
Volvida uma década sobre o pioneirismo tecnológico e dos sustos gerados pelos então inovadores sistemas de som Dolby Digital, com espectadores a saltarem das cadeiras e a reclamarem na bilheteira do Cidade do Porto pelos sustos acústicos, concretizando assim experiências cinematográficas feitas de emoções fortes, o espaço desenhado no atelier de Manuel Graça Dias e Egas José Vieira apresenta-se hoje como uma ilha de resistência cultural, revelando uma programação sustentável entre propostas "mainstream", como "Alexandre, o Grande", e produções de autor europeias, como "Olhem para Mim" de Agnès Jaoui, acolhendo ainda a Festa do Cinema Francês e os alguns dos mais significativos títulos do cinema português, a estreia de logo à noite, do "Quinto Império" é um exemplo mais do que superlativo.
No actual contexto comercial, o cinema encontra-se dominado, sobretudo a partir de segunda metade da década de 90, pelas grandes superfícies que debitam semanalmente um volume de estreias absolutamente incomportável e cada vez mais viradas para a teoria do mastiga e deita fora, impossibilitando assim a entrada no circuito de obras menos convencionais. O que triunfa é, sobretudo, o cinema industrial norte-americano que, especialmente, na última década, tem refinado até aos limites do absurdo, com o profissionalismo de marketing desconcertante, produtos especificamente desenhados para conquistar público à escala mundial, simplificando argumentos, linguagem, personagens, apostando em temáticas "worldwide", adaptações de vídeo-jogos, heróis da BD, qualquer símbolo que já tenha penetrado entre culturas e seja facilmente reconhecível e consumível nos quatro cantos do mundo. São cada vez mais raras as surpresas nos filmes de Multiplex. O mais dramático é que o público já nem exige uma novidade, em espanto, contentando-se simplesmente com uma boa dose de sustos no ouvido, três toneladas de efeitos especiais e uma dupla de caras conhecida.
Neste contexto, duas das quatro salas do Cidade do Porto, bem como o Nun´Alvares afirmam-se, desde logo, como locais de culto para um público cinéfilo que procura, sobretudo, assistir aos títulos premiados nos festivais de Cannes, Veneza ou Berlim, em detrimento do ir ao cinema para ver qualquer coisa que acompanhe a digestão de um saco de pipocas. No Nun´Alvares vivi experiências cinematográficas tão marcantes como a exibição d´ “A Festa”, de Thomas Vinterberg, com o público a ficar agarrado à cadeira uns bons cinco minutos após o final do filme, ou já no Cidade do Porto, uma extraordinária e cativante conversa com João Botelho a propósito da comédia "A Mulher que Acreditava Ser Presidente dos EUA" ou ainda ao entrar em contacto com um dos melhores filmes que vi este ano: “O Regresso” do russo Abdrey Zvyagintsev.
Actualmente, e depois do dramático, para não dizer ridículo e autoritário, encerramento do Terço, mesmo aqui à beira de minha casa (lembro-me perfeitamente da última sessão, com interessantíssimo “As Horas”, de Stephen Daldry), o Porto sobrevive com apenas dez salas de cinema, enquanto só o Arrábida, em Gaia, propõe 20 cinemas. É triste, no mínimo, assistir ao abandono, à morte por indefinição, do Batalha e da sua sala Bébé, na qual o cineclube do Porto tantas obras referenciais da sétima arte exibiu, criando uma geração de cinéfilos actualmente em vias de extinção. É doloroso ver o Teatro Sá da Bandeira a cair aos bocados e a passar filmes porno, onde, no início do século XX, Aurélio Paz dos Reis apresentava ao país a mágia do cinema no intervalo de sessões de teatro popular. A média de 100 mil espectadores/ano das salas do Cidade do Porto e a ressurreição do Passos Manuel (sobre o qual sempre coloquei algumas reservas quanto ao formato e à intencionalidade), ambas significam uma pequena amostra de resistência cultural numa cidade pioneira e fundamental na história do cinema português, mas que,infelizmente, caminha a passos bem largos para um deserto de alternativas de qualidade. Ao Porto, sobram pipocas e coca-cola e faltam espaços dedicados ao cinema enquanto arte.

Tuesday, December 14, 2004


X-Wife ao vivo no CBGB´s em Nova Iorque/DR
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X-Wife: memórias de New York

Após uma conversa telefónica, no final da tarde de ontem, com João Vieira, registo em "blog" alguns postais sonoros da operação Nova Iorque 2004 dos X-Wife. Entre 14 e 28 de Novembro, a banda de "Feeding The Machine" tomou de assalto a cidade de todas as insónias, concretizando uma série de quatro concertos e um "radio-show". Os efeitos transatlânticos ainda por determinar, congelam para já a edição do segundo longa-duração, num "wait n´ see". De regresso a casa e na véspera de voltarem à estrada ao lado dos Way Gunn ficam algumas impressões digitais de uma incursão ousada pelas por terras do Tio Sam.
Convém antes de mais situar a génese da mini-tour. A ligação Porto-Nova Iorque nasceu via digital com a blogosfera a afirmar-se como ponte intercontinental. A internet transportou até aos EUA os primeiros acordes do tema "Eno", no tão perseguido como abençoado formato mp3. Primeiro no site newflux, de Matthew Perpetua, mais tarde no blog do produtor e “rocker” de New Jersey, James Murphy, mentor da "label" DFA, índo posteriormente parar às prateleiras da discoteca "Other Music", no cruzamento da Broadway com East 4th. "Foi através desses contactos que fomos recebendo algum "feedback" positivo e medindo o impacto da nossa música no circuíto mais "underground" de Nova Iorque", revela João Vieira. "Foi-se criando uma certa curiosidade e algum interesse em conhecer os X-Wife ao vivo".
Após meia-dúzia de e-mails e outros tantos telefonemas, a banda juntou poupanças dos concertos, comprou air-tickets, confirmou os "gigs" e o repouso no mítico Hotel 17, em East Side ("pousada" onde Woody Allen rodou “Manhattan Murder Mistery”), finalmente, o trio aterrou em Nova Iorque. Primeira paragem na discoteca "Other Music", na East 4th. "é uma das mais importantes discotecas da cidade. Ficámos, naturalmente, satisfeitos por saber que adoram o nosso trabalho e que tinham o disco em grande destaque". O colectivo aproveitou a oportunidade para efectuar um depósito na loja de 25 discos, dos quais 20 esgotaram em apenas três dias. "Foi a reacção aos concertos", justifica João Vieira. "No final das actuações, as pessoas vinham ter connosco para comprar o disco e saber onde é que íamos tocar a seguir". Segundo o guitarra-voz, o púbico foi crescendo em cada concerto, com algumas caras a repetirem a dose de X-Wife.
Primeiro palco CBGB´s. Sala-epicentro do fenómeno punk nova-iorquino, na década de 70, por onde passaram Ramones e Blondie, entre outras referências. "Serviu mais como uma espécie de ensaio geral para o fim de semana", confessa Vieira. A banda tocou ainda no Rothko, Sin-é e Pianos, com uma "radiosession" pelo meio, no programa "The Cherry Blossom Clinic", tempo de antena de Terre T., na WFMU, espaço que já acolheu projectos locais de “hype” internacional, via NME, com The Stokes e Yeah, Yeah, Yeahs (saudades de Paredes de Coura´03). Conclusão: "Temos mesmo de sair do Portugal para criar algum burburinho", dispara Vieira. "Este foi só um primeiro contacto, esperamos regressar em 2005”, prometeu.
Tendo em conta o sucesso da primeira incursão nos EUA, João Vieira aguarda pelas ondas de choque da operação NYC´04, colocando, para já, em "stand-by", no congelador, a edição do segundo longa-duração."Não faz muito sentido lançar este ano um álbum, quando o primeiro começa agora a ser conhecido lá fora. Entretanto - revela o músico - vamos apresentando ao vivo os novos temas. Evitamos repetições. Queremos mostrar ao público que os X-Wife continuam a trabalhar". No regresso à estrada lusa, ao lado dos Way Gunn, o próximos concertos dos X-Wife, ocupam, no próximo dia16, o espaço Le Son, em Coimbra, e no dia seguinte o Santiago Alquimista, em Lisboa.
Depois de entrevistar o colectivo mais de três ou quatro vezes, em situações diversas, desde ensaios de garagem a actuações do HC ao TSB, com prestações bastante irregulares, diga-se em abono da verdade, fica, sobretudo, a nota positiva do ir para a estrada, do arriscar, do não se contentar com o lugarzinho ao sol e com os 15 minutos de fama. Longe de seguir o trajecto dos The Gift, da electrónica via Texas, ao rock de Nova Iorque, as diferenças são mais do que muitas, fica o estado de espírito e a convicção "pro" de que sem trabalho, sem um certo sentido de risco, de ousadia e de coragem pouco ou nada se consegue nesta ou noutras vidas.

Saturday, December 11, 2004


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Lou Reed inaugura Casa da Música

Provavelmente o rumor mais interessante da semana coloca Lou Reed na inauguração da Casa da Música, aqui no Porto, finalmente agendada para 14 de Abril. O Blitz reparou que no site oficial do músico a data estava reservada para Portugal e tendo em conta o silêncio, do não confirmo nem desminto, por parte do sector da programação da mais polémica infra-estrutura herdada do pesadelo 2001, tudo leva a crer que o rumor possa transformar-se em realidade já em Janeiro, data da apresentação oficial das primeiras propostas a subirem ao palco da CM, definidas, desde logo, pelo director artístico de serviço, o britânico proíbido de falar com a imprensa, Anthony Withworth-Jones.
Esperam-se fantasmas dos "Velvet Under mais um menos ground" dependendo ainda do Metro na Boavista, com Lou Redd a protagonizar um "Walk on the Rui Rio Side", pois no que diz respeito a ministros da cultura, ou outros dentro do género, os passeios são improváveis e tudo menos alegres. Salve-se tão esperado com urgente metamorfose em fundação para acabar de vez com a dança das cadeiras laranjas ou cor de rosa. Olhando para Serralves, o melhor mesmo e deixar que os privados entrem na música e arrumem a casa de uma vez por todas. Ontem Belmiro de Azevedo confirmou que já foi convidado para o projecto, mas só entra com uma gestão igual à de Serralves, ou seja, menos dependente do poder regional e central.

Thursday, December 09, 2004

Crítica: The Gift no Rivoli

Acabei de regressar do Rivoli, no Porto, onde assisti à apresentação “live” do registo “AM/FM” dos The Gift. Globalmente, faltaram metais, sobraram “samples” numa aposta visual fortíssima, cativante e coerente com o conceito global do álbum, deixando antever um interessante 2005. O espectáculo mais maduro em termos de trabalho de luz e imagens digitais do que a proposta anterior, coloca de lado alguma inocência definitivamente perdida na digressão “Film”, elevando ainda mais a importante componente estética do colectivo de Alcobaça. No entanto, como seria de prever e tendo em conta de que se trata de um concerto de apresentação de um álbum recém editado, alguns dos temas sucumbiram na adaptação ao vivo, sobretudo, pela ausência de orquestração de cordas e metais, em propostas como “Wallpaper” e a “american radio-friendly” “11:33”, outras, como “Wake Up” revelaram entradas fora de tempo e falhas de afinação. Em ambos os casos, na estrada, o colectivo irá certamente rever o alinhamento e eliminar alguns excessos e carências geradoras de alguns momentos demasiado ásperos nos “samples” e carente do tal suporte orgânico de cordas e metais que, francamente considero urgente e catalizador da energia e da força contagiante da banda.
Dos momentos mais felizes, destaque para “Bonita”, melodia encantatória que ao vivo ganha em amplitude e num sentido vocal de Sónia Tavares recheado de uma ausência grave e cativante. “Are You Near”, o single mais do que perfeito, lembra Brian Eno, contém referências electrónicas provocantes, letra inteligente, necessitando apenas de uma guitarra mais desinibida, que transporte o tema para outra dimensão, à qual parece aspirar sem no entanto a conseguir atingir. “Cube”, “Driving You Slow”, “An Answer” “Music” e “Pure” são apostas ganhas que certamente irão incorporar o alinhamento do colectivo para 2005 e anos seguintes.
Em encore, o público teve a oportunidade de rever outros filmes: “Front Of”, “Question of Love”, com o auditório a ameaçar arrancar as cadeiras e começar a dançar, e finalmente, “So Free”. Pelo meio regresso a FM com “Red Light” em versão XL, impecável num encerramento quase perfeito. O espectáculo revelou alguns pontos fracos e uma nova e ousada aposta visual que certamente agradará aos fãs da banda e à nova geração MTV. Uma renovação estética que, tal como o álbum, sem criar rupturas desnecessárias nesta fase, consegue recriar um ambiente digital coerente com o conceito geral do colectivo. Depois da feira Texana em Austin, espera-se um verão 2005 com alinhamento mais maduro e uma prestação mais descontraída, alegre e sem tantas arestas por limar. O disco de prata é obrigatório e certamente atingirá pelo menos as 20 mil cópias.

Wednesday, December 08, 2004


"Memory Bucket", Jeremy Deller (2004) foto: TM, Reuters Posted by Hello

O efeito Bush e Gordon no Turner Prize

Patrocinado pela primeira vez pelo gin Gordon´s, uma vídeo-digressão entre dois dos mais famosos ranchos dos EUA conquistou anteontem o Turner Prize, na Tate londrina. Importa esclarecer que os jurados não estavam com os copos. Certo é que, para não variar, a política pesou certamente na decisão. O artista britânico, Jeremy Deller arrecadou o prémio, levando para casa 48,500 dólares através da instalação vídeo "Memory Bucket" que recorda uma viagem entre o rancho do presidente George W. Bush, em Crawford, e o não menos conhecido quartel-general do líder religioso Davidian, em Waco. Com uma lista de prováveis vencedores muito mais politiziada do que em anos anteriores e sem a presença de qualquer pintor, o que não deixa "per si" de ser significativo, o Turner Prize apresentou como principais possíveis ganhadores nomes como Ben Langlands e Nikke Bell, cuja inspiração se centrou em Osama Bin Laden, em outra proposta vídeo de uma vila abandonada algures no Afeganistão, por onde o homem mais procurado do mundo Ocidental teria passando uns dias, provavelmente de férias. Gill Hedley, director da Contemporany Art Society, justificou à Reuters que não acreditava que os jurados perderam a noção do que é a arte, mas que, simplesmente, “vivemos numa altura em que esta coincide com política”. Sobre a possível influência do gin Gordon´s na decisão dos júri, nem uma palavra. Provavelmente por que em 1988, Chris Ofili ganhou o Turner com a "The Holy Virgem Mary" uma representação negra e considerada por muitos pouco elegante da virgem Maria e, em 1995, Daminen Hirts ganhou mais um punhado de dólares na Tate com trabalho "Away From The Flock", apresentado uma ovelha dentro de uma caixa. Outra das sensações da história do Turner foi protagonizada por Tony Kaye, em 2001, ao tentar submeter à consideração do júri como obra de arte um insuspeito trabalhador metalúrgico sem-abrigo.
Anualmente, para além de trazer para o circo mediático um artista cujos trabalhos se vêem subitamente inflacionados no mercado da arte internacional, o Turner Prize levanta questões, essas sim interessantes, sobre a identidade e as novos percursos da arte contemporânea. Este ano, arte e política andaram de mãos dadas. Nem importa recordar que na Sétima, em Cannes, Michael Moore também não saiu de mãos a abanar e não foi certamente pela excelência cinematográfica da proposta “F9/11”, ao contrário do que Quentin Tarantino jurou. Pessoalmente, penso que George W. Bush e o gin Gordon´s são, sem sombra de dúvidas, os grandes protagonistas da revolução artística contemporânea, levando-a por caminhos nunca dantes calcorreados.

Tuesday, December 07, 2004

Luciano Barbosa com Ana Sousa Dias

Acabei, há minutos, de desligar a televisão, onde pude assistir a mais uma excelente entrevista de Ana Sousa Dias no programa "Por Outro Lado". O convidado, Luciano Barbosa teve a inteligência suficiente para colocar o dedo na grande maioria das feridas que neste momento afectam o sector da música em Portugal. Da estúpida taxa do IVA nos CD e instrumentos musicais, transformando bens culturais e intrumentos de trabalho em artigos de luxo, ao "lobbie", cada vez mais escandaloso, das editoras sobre as rádios, que depois de aniquilarem por completo os programas de autor, fabricam "playlists" em troca de motas de águas, percentagens das vendas de CD e outras ilegalidades que, neste momento, atingem os limites escandalosos do terceiromundismo, entre uma série essencial de outros temas greves e prementes que merecem ser discutidos na praça mediática, não fosse esta uma das principais cúmplices do "status quo" vergonhoso e decadente dos grandes interesses económicos que asfixiam, não só o poder político, transformando a democracia republicana num exercício de plutocracia clássica legítimada pelo povo, como também acaba por aniquilar a própria arte e cultura. Neste contexto, a diferença entre Santana e Sócrates é puramente estética.
De regresso à cultura, apesar de já ter manifestado aqui no blog a minha preocupação quanto a abordagem sonora dos Repórter Estrábico, depois de, não só ter escutado atentamente "Eurovisão", como de ter assistido ao concerto no Rivoli, a 20 de Novembro, considerando, entre outras coisas, que o meio que utilizam nem sempre me parece o mais adequado para fazer passar uma mensagem tão inteligente quanto burlesca e urgente, a supracitada entrevista fez-me desde logo relembrar conversas soltas como Luciano Barbosa nesse labirinto de salas de ensaio em que se converteu o Stop e em projectos e utopias de transformar o decadente centro comercial num verdadeiro centro musical. Entre Stop, que acolhe mais de três dezenas de bandas, o Sirius, com Kitten em versão X-Wife, passando outras salas de ensaios, como Baixa a Tola, em Matosinhos, ou "Poltergeist", no cruzamente da Boavista com Cedofeita, locais que tive a oportunidade de visitar e reportar, em labor "afterhours", falta, ao fim e ao cabo, investimento privado, vontade pública e sobram obstáculos políticos e económicos para quem quer fazer música em Portugal. A começar nas garagens e a terminar nas rádios, o cenário é equivalente ou pior a alguns países sul-americanos por onde andei.

Monday, December 06, 2004


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