Wednesday, March 23, 2005

Apego e sofrimento


Vasily Kandinsky, Composition 8, Julho 1923.
Posted by Hello

O luto de alguém que amo levou-me a refletir sobre o apego e a forma como nunca estamos preparados para deixar partir a pessoa amada ou o objecto da nossa afeição. Todos os encontros nesta vida acabam inevitavelmente com uma separação. Quanto mais profunda e antecipadamente tomarmos consciência desta impermanência menos estamos sujeitos ao sofrimento...

Monday, March 21, 2005

Império Blasted: Episódio III - Avatara

Império Blasted editou hoje episódio III: "Avatara". Com "Namaste", 2003 afirmou-se como o ano de todas as emiss~ees intergalácticas dos Blasted Mechanism. De Paredes de Coura aos noites Ritual, assisiti a pelo menos uma boa meia dúzia de espectáculos, "Are You Ready", single revelado em vídeo-clip no Fantas, dominou o território "live" de Portugal e arredores. Volvidos dois anos, os mensageiros mutantes reinventam-se com "Avatara", terceiro episódio discográfico a libertar hoje nas discos, aventura cósmica do colectivo karkoviano renascido há uma década algures na margem direita do rio Tejo, planeta Terra. Em termos conceptuais a quarta mutação transforma o trio Ary, Karkov e Valdjiu em elementos congregadores. Depois de guerreiros, recolectores e apaziguadores, "Avatara" (designação referente a encarnações divinas na teologia brimânica; do original sânscrito "avatar":"descida do céu"), o planeta Terra surge novamente como o território de todas asmanipulações. Para os Bastled a salvação dos humanos ainda é possível.Mais orgânico e menos electrónico, "Avatara" não se desvia no essencial das sonoridades formalizantes do colectivo. "Blasted Empire" inaugura, em velocidade "wrap", uma viagem sónica por um registo equilibrado, entre renovadas incursões tribais de cítaras e didjiridoos, com a voz de Maria João em destaque, e na assunção de atmosferas urbanas, desta vez, simplificadas pelo "rap" profético dos Dealema. Em conversa via telefone, Ary confessou-me que "Avatar" um disco mais espiritual". Para o baixista e co-produtor, "a presenãa de Maria João singnifica a concretização de um sonho", "os Dealema oferecem um cáracter urbano" e o "DJ Nelassassin um virtuosismo na área do djing". Ao vivo, os Blasted prometem um "up grade" tecnológico. Novas roupas de Gerardo Haro, concretizam a quarta metamorfose, acompanha por uma reactualização do espectáculo de som e luz. Depois da digressão de apresentação antecipada, que passou pelo Porto na passada sexta-feira, (infelizmente não pude assistir), "Avatara" será certamente um dos pratos princípais da temporada de concertos a atingir o verão 2005. Sem surpreender, em termos musicais, possui a essência destilada nas vibrações orientais dos Blasted. Uma banda que ao vivo vampiriza-se com a proposta estética. As narrativas e os personagens "live" devoram os músicos por detrás das máscaras.

Friday, March 18, 2005

As politicas culturais da minha aldeia

Infelizmente, Rui Rio parece mesmo empenhado em se recandidatar à Câmara Municipal do Porto. Para tal não olha a meios para atingir fins. Desta vez a vítima, para além do habitual bom senso, foi Filipe La Féria. Rio teve o descaramento ontem de manhã de convidar os jornalistas para assistirem à assinatura de um protocolo entre a CMP e La Féria no Teatro Sá da Bandeira. Para além de convidar terceiros para uma casa que não é sua, quando li o documento tomei consciência de que a peça de teatro já estava a ser representada e não era "A Rainha do Ferro-Velho", pois essa estreia hoje à noite, nas sim "O Homem da Máquina de Calcular", um clássico cá da aldeia. Rio e La Féria eram de facto dois actores em plena laboração, sendo o segundo um "casting" algo inesperado, confesso. No protocolo, Rio é obrigado a ceder locais para afixação de cartazes e "mupis" à produção do espectáculo, a comprar bilhetes para as peças "A Rainha do Ferro-Velho" e "A Menina do Mar", e finalmente, numa espécie de pré-campanha eleitoral, a oferecer essas entradas a idosos e crianças do Porto. Mais imoral ainda, o documento obriga a empresa de La Féria, Bastidores, a ficar no Teatro Sá da Bandeira durante três meses e a recuperar o malogrado teatro. Agora, pergunto-me, sendo o TSB um espaço privado, gerido por uma empresa privada, como é que é possível a Câmara do Porto assinar um documento que obriga La Féria não só a ficar numa casa que não é sua e para a qual naturalmente teve de pagar renda ou aluguer, como também o compromete a fazer obras (naturalmente de fachada e cosmética, pinturas e limpezas de pó) num espaço que não pertence nem à Bastidores nem à CMP, os dois outorgantes do documento. Estamos na esfera do ridículo e da encenação, no seu sentido mais puro.
PS: Nota negativa para a colega de curso e de profissão, Joana F., da RTP, que de microfone em riste e sorriso rasgado, em frente a Rio, habita esta mesma esfera do ridículo e da encenação, ao fazer as perguntas e a oferecer as respostas."Estas obras, senhor presidente, são o primeiro passo na tão espera renovação do Teatro Sá da Bandeira?"

Tuesday, March 15, 2005

A filosofia de Tino Navarro


"Um Tiro no Escuro", filme de Leonel Vieira Posted by Hello

É já na próxima quinta-feira que estreia em Portugal a mais recente produção de Tino Navarro, "Um Tiro No Escuro". Não posso comentar a qualidade da proposta realizada pelo seguríssimo Leonel Vieira, pois ainda não tive a oportunidade de assisitir à antestreia. No entanto, na semana do Fantasporto, travei-me de razões com Tino Navarro, uma das figuras em homenagem na versão 05 do certame, e foi uma das pessoas que sinceramente mais gostei de conhecer. Para além da clareza de pensamento, agradou-me sobretudo a humildade e a forma profissional e humana como comanda suas produções e gere os egos de realizadores e actores. Sem nunca perder de vista as temáticas sociais, Navarro, que nasceu em Vila Flor, conhece e não esquece, o que ainda é mais raro, o Portugal profundo. Através de propostas cinematográficas indubitavelmente comerciais tenta, e não raras vezes consegue, comunicar com as massas, dizer o que pensa, sente e sonha. Das temáticas da droga, em "Tentação", às utopias de Cunhal, na excelente mini-série "Até Amanhã Camaradas", Navarro preocupa-se com o concreto. Recordo que a propósito da "Tentação", o produtor confessou que sentiu necessidade de abordar a temática da toxicodependência a partir de uma notícia que leu, na qual uma mãe, já idosa, habitante de uma aldeia do Portugal rural, foi entregar-se a uma esquadra da GNR. A história que a senhora contou às autoridades foi desconcertante. A velhota tinha um único filho que era tóxicodependente. Perante a incapacidade de o curar e ao conviver diariamente com a espiral de autodestruição e sofrimento do filho, acabou por pegar numa caçadeira e assassinar o próprio filho enquanto este dormia, na cama de sua casa.
No meio cinematográfico, Navarro tem fama de ditador, mas é no respeito pelo esforço e na responsabilidade social e humana que nasce uma exigência com a qual Portugal infelizmente ainda não se habituou a conviver. Apesar de sinceramente não me atrair grande parte das suas propostas, aplaudo a capacidade, o talento e a urgência de também em Portugal haver quem seja capaz de produzir cinema para todos, sem estar constantemente a queixar-se e a mendigar subsídios para depois fazer cinema para o umbigo. Necessitamos de ter uma indústria cinematográfica autosuficiente. O público português precisa de se reconciliar com o seu cinema. A àrea comercial, mais do que qualquer outra, tem uma palavra a dizer neste contexto. Gosto de Oliveira, adoro Canijo, admiro Rocha, mas duas ou três andorinhas não fazem uma Primavera, que necessita de flores, cores e aromas para todos os gostos.

Sunday, March 13, 2005

corpo/máquina/identidade

Filmes como Matrix ou eXistenZ que têm como tema central a questão de corpo/máquina fazem-nos reflectir sobre a velha ambição humana de recriar a máquina à sua semelhança.
As novas tecnologias reformulam a noção de corpo, matéria, espaço e tempo. Uma nova dimensão do que é o corpo e do que é a realidade pode ser vivida cada vez que olhamos à nossa volta e experienciamos as novas tecnologias. No ciberespaço, espaço não-linear, podemos criar novas identidades, eliminando conceitos como o de género, por exemplo (nos chats, cada um pode construir-se, adoptando o tipo de personalidade que desejar, o sexo que preferir, em suma inventando e vivendo uma identidade). Assim, e por essa mesma razão, a definição de corpo passa a ser desnecessária, importando apenas a identidade criada através da máquina (no caso o computador pessoal ligado ao super-computador que o conecta aos outros através das hiper-redes). O corpo e a máquina integram-se em simbiose no espaço virtual da internet. Até que ponto é que a ser que conhecemos no chat é real? Será mais real o ser com um corpo com quem falamos no dia-a-dia? Do mesmo modo, impõe-se a questão da identidade de um corpo ligado a uma máquina hospitalar. Retirados os tubos, os ventiladores, soros, alimentação artificial que se interlaçam unidos ao computador, o ser humano morre. Então, nessa simbiose corpo/máquina, onde está a identidade? Marvin Minsky, do Massachussets Institute of Technology, diz claramente: "a próxima geração de computadores será tão inteligente que teremos sorte se eles nos permitirem manter-nos em casa como animais domésticos. Se desejamos assim tanto criar máquinas que facilitem a nossa existência, perpetuando a nossa ancestral vertente egoísta e preguiçosa, é muito importante, urgente até, diria eu, responder às velhas questões ontológicas de "quem somos, de donde viemos, para onde vamos". Onde está a individualidade e a consciência? Onde é que reside a vida? No corpo ou na máquina? A minha resposta é que a vida não está nem no corpo nem na máquina, mas é algo de transcendente. O ser humano tem essa transcendência que lhe está limitada pelo corpo. Essa consciência ou identidade tem a livre opção de partir, pois existe num outro espaço que não se deixa controlar por nenhuma máquina. É um espaço de liberdade e de felicidade. Mas poucas pessoas se preocupam com uma reflexão sincera e metodológica sobre esse espaço, sobre essa transcendência...

Saturday, March 12, 2005

"Ossário", de Mark O`Rowe, pela Assédio

Depois da estreia d´ “A Testemunha”, da sueca Cecilia Parkert, a companhia Assédio regressa ao Pequeno Auditório do Rivoli, à temática violência contemporânea, em formatdo de monólogo. A mais recente proposta, “Ossário”, do irlandês Mark O´Rowe estreia hoje à noite com encenação a cargo de João Cardoso. Uma descarga centrada no poder da palavra poética, brilhantemente traduzida por Francisco Luís Parreria, ganhar carne e rosto em três mulheres que partilham numa viagem marcada pela perda de humanidade numa cidade imaginária, mais perto de nós que se provavelmente seria de desejar. Da sarjeta mais suja e repelente ao rio mais límpido e inocente, as emoções brutam do verbo dito no feminino.
Estreante na Assédio, Isabel Queirós é Olive Day, uma marginal sem pudor nem receio da morte; a experiente Rosa Quiroga, Allison Ellis, uma mãe angustiada com a velhice e o declínio físico, e finalmente, a seguríssima Alexandra Gabriel é Tilly McQuarrie, uma “Christiane F”, sem qualquer espécie de futuro ou esperança de humanidade.
Olive Day inaugura a tríade de monólogos descrevendo uma paisagem ribeirinha, onde brincam alguns miúdos. Apesar de rapidamente se dissipar na violência suburbana, a aguarela de paz e tranquilidade do rio funciona como chave de abertura e encerramento de toda a narrativa. Allison Ellis. Envergonhada por estar a envelhecer confessa a pulsão pela segurança e o dever de cuidar o rebento. “O meu filho tornou-se um estranho para mim”, confessa. Finalmente, Tilly McQuarrie. Uma arrumadora de carros perto de si, vende o corpo para arranjar dinheiro para a heroína. Um esquelo humano em decomposição, a caminho da morte.
Três mundos que se cruzam numa narrativa de vingança, marcada por um dramatismo visceral, pungente, sugestivo e imagético. Entre crimes sem castigo, histórias gangsters e chulos, as atmosferas de subúrbio omnipresentes na obra de Mark O´Rowe, fica a oportunidade de conhecer um dos mais jovens talentos da dramaturgia irlandesa. "Ossário" permanece no Pequeno Auditório do Rivoli até ao próximo sábado, dia 20 de Março.

Sunday, March 06, 2005

Gala de encerramento da 25ª edição do Fantasporto


"Old Boy" Posted by Hello

A 25ª edição do Fantasporto encerrou ontem à noite, no Grande Auditório do Rivoli, no Porto, com uma intensa chuva de estrelas que juntou algumas figuras relevantes da história do cinema fantástico, como John Hurt e Doug Bradley, as quais tive o privilégio de conversar, Karen Black, Guilhermo del Toro, passando pelo grande vencedor da noite o jovem Vincenzo Natali foram outras das presenças a ter em atenção. Sem grandes surpresas, mas com muita justiça e algum bom gosto, "Nothing", de Natali, que depois de "O Cubo" e "Cypher" soma o terceiro galardão no Fantas, e "Old Boy", do sul-coreano Chan-Wook Park, venceram os prémios para melhor filme nas categorias de Fantástico e Semana dos Realizadores, respectivamente. Mais do que assistir a cerimónia, que este ano foi registada pela RTP, tive o privilégio, a convite da organização do Fantas, de entregar o Prémio da Crítica ao alemão Ayassi por "Vinzent".
Depois de uma intensa semana de trabalho, fico com memórias interessante. Desde logo as entrevistas a Doug "pinhead" Bradley, John Hurt e Tino Narravo, e uma série de filmes recomendáveis, entre os quais destaco, na área mais comercial, "Saw" e "Constantine". O primeiro para os fãs do "Seven", sem o talento de Fincher, mas com um argumento inteligente, e o segundo, pela abordagem, sobretudo, estética, ligado às atmosféras da banda desenhada para adultos da DC Comics, da qual nutro as propostas "Sandman", de Neil Gaiman e Dave Dave Mckean, que considero francamente mais consistentes. Numa vertente mais de autor, a grande recomendação vai para "Old Boy", o justo vencedor do Fantas. Filme imperdível pela inteligência e originalidade do argumento, pelas referências subtis e equilibradas à cultura do vídeo-game, com mensagens "animé" quase subliminares pelo meio, por um trabalho de fotografia e gestão narrativa absolutamente invulgar.
Notas negativas, para a grande maioria do cinema espanhol, que este ano, com a ligeira excepção de "Hypnos", perdeu muita da qualidade apresentada em anos anteriores e para a falta de acompanhamento e inteligência dos meios de comunicação social. Com personalidades tão interessante da sétima arte em Portugal, o futebol do pontapé na canela e a política de fim-de-semana continuam, infelizmente, a ter mais relevância mediática, sobretudo, na televisão. Apesar da RTP ter registado, pela primeira vez a gala de encerramento, vendo-se assim forçada a cumprir a promessa de duplicação de verbas do Morais Sarmento, a ressaca nos noticiários do dia seguinte ficou num nível inferior aos concertos do Toni Carrera nos coliseus. As vezes, viver em Portugal é estar condenado a um terceiro-mundismo entre o deprimente e o boçal. Até quanto?

Friday, March 04, 2005

À conversa com Doug Bradley


Doug Bradley no papel de Pinhead da saga "Hellraiser" Posted by Hello

Uma das figuras tutelares do cinema de horror no final dos anos 80, o britânico Doug Bradley encontra-se no Porto a convite do Fantas. Tive a oportunidade de realizar uma breve entrevista com o reconhecido "Pinhead" da saga "Hellraiser" no Hotel Infante Sagres. Entre vários temas, conversámos sobre a ascensão da máquina Hollywood dos sustos para a adolescentes e a forma como a indústria norte-americana do espectáculo tem aniquilado toda e qualquer proposta séria numa área tendenciamente tão criativa como a do horror. Actualmente a própria série "Hellraiser" encontra lançamento directo para vídeo, ou melhor DVD. Uma realidade que tem os dias contados, pois Clive Baker, criador da série que já conta com pelos menos sete títulos, encontra-se a escrever o episódio final da saga, que inclui a morte, ou melhor, o desaparecimento, de Pinhead.
Bradley revelou-se uma figura serena com um humor particulamente interessante. Fã dos Coolplay e Beatles, apesar das colaborações com os Cradle of Filth; admirador do personagem Hannibal Lecther e estudioso do fenómeno das máscaras na sua transposição do teatro para o cinema de terror. Um rosto que faz parte da galeria de horrores da sétima arte. Gentil, é um dos casos em que o personagem acaba por aniquilar o actor. Pela segunda vez no Porto, Bradley passou a manhã a visitar igrejas. Amanhã à noite será uma das figuras em destaque na gala dos 25 anos do Fantasporto do Rivoli. A RTP fará o favor de cumprir a promessa dos 150 mil euros de Morais Sarmento e registará a cerimónia.

Monday, February 28, 2005

Fantasporto: "The Doll Master", de Young-ki Jeong


"The Doll Master" Posted by Hello

Na última década, a cinematografia asiática tem produzido alguns dos mais interessantes e criativos títulos da área do Fantástico. A palma de ouro conquistada por "Old Boy" no mais recente Festival de Cannes não surge por mero acaso e não surpreende que tem assistido a algumas das mais arrojadas propostas do Fantasporto nos últimos quatro ou cinco anos. Na presente edição, comemorativa dos 25 anos, os momentos mais intensos têm vindo do Oriente via expresso. Para além de "One Missed Call", do realizador do culto, Takashi Miike, autor entre outras obras do filme sensação de 2003, "Audition", e do não menos desconcertante "Vital", de Shinya Tsukamoto, que depois dos "Tetsuo", dirigiu o deslumbrante "Snake of June", o destaque do dia vai para a primeira obra de "Young-ki Jeong, "The Doll Master", em antestreia logo à noite.
Para além da criatividade dos argumentos, marcados por um invulgar requinte de horror e sadismo, o cinema asiático revela-se, tal como o de autor, por um cuidado estético notável, entre texturas "animé" do extravagante "Ichi, the Killer", a propostas "hi-tec" e paisagens evocativas do deslumbrante natural, de "Natural City", existe uma austeridade espiritual ou uma claustrofobia urbana que conferem aos filmes asiáticos uma originalidade e um deslumbre absolutamente singulares e que importa conhecer. O Fantas'05 têm sido uma janela virada para Oriente, revelando títulos francamente interessante e que já souberam construir em seu redor um culto intenso e um grupo cada vez mais significativo de adeptos, que encontra na Ásia uma organicidade e autênticidade profunda, não compatível com a formatização das propostas EUA, sempre condicionadas pela ditadura do M/12 e pela obrigatoriadade, de não chocar o auditório, de agradar nas bilheterias aos públicos adolescente e jovem. Para quem gosta de suspence, horror e fantástico é do Oriente que vem a novidade. Para esta noite fica a sugestão, conhecer "The Doll Master", a partir das 23h15, no Grande Auditório do Rivoli, no Porto. Bons sustos e bom cinema.

Saturday, February 26, 2005

Fantasporto: "Old Boy", de Chan-wook Park


"Old Boy" Posted by Hello

É a confirmação do excelente momento do cinema asiático na área do fantástico. Depois de conquistar o Grande Prémio do Juri em Cannes, "Old Boy" conheceu ontem à noite a estreia nacional na abertura da secção competitiva do Fantasporto reservada à Semana do Realizadores. Num Grande Auditório completamente esgotado, o público teve a oportunidade de se deixar deslumbrar com a imaginação do Chan-woon Park. O argumento gira em torno de uma desconcertante e maquiavélica história de vingança de dois colegas de liceu. Influenciada pela estética dos vídeo-jogos e pelo traço da Manga, com alguns requistes de crueldade à mistura, "Old Boy" triunfa, sobretudo, pela originalidade do argumento e por uma irrepreensível direcção de actores e trabalho de câmara.
Ainda ontem à noite, novamente num auditório esgotado, fica o aviso para os cinéfilos que gostam de chegar em cima da hora, nota final para outra estreia que promete tornar-se num filme de culto e repetir na Europa o sucesso de bilheteira dos EUA. "Saw", escrito e dirigido por James Was, abriu a secção do Cinema Fantástico e surpreendeu o público, sobretudo, pela criatividade da história. Desde "Seven" que os adeptos do "thriller" não eram confrontados com um serial-killer com tamanha inteligência e sublime crueldade. Um filme obrigatório para os amantes do género, arrisca-se a ser um clássico. Apesar de ter alguns pontos fracos, sobretudo na gestão da narrativa do segundo terço do filme, "Saw" oferece um final desconcertante e criativo, abrindo caminho para uma sequela que aliás já está a ser produzida em Hollywood. Uma obra em breve atingirá as salas dos cinemas mais comerciais, onde certamente causará uma onda de emoções fortes há muito negligenciada pela ditaduta do M/12. Filme não perder. Darei mais alguns pormenores na data de estreia no circuito comercial, para já fica o aviso a navegação.
Para logo à noite, o destaque centra-se no trabalho visualmente encantatório de "Natural City", de Byung-chum Min, uma história de amor em ambiente "Blade Runner" que pode fazer estragos no Fantas, e naturalmente para a estreia em Portugal do filme vencedor de Sundance, "Primer", uma das propostas mais inteligentes do ano. Ambas para descobrir hoje a partir das 21h00, no Rivoli do Porto. Bons filmes.

Wednesday, February 23, 2005

Estreia: "Mar Adentro" de Alejandro Amenábar


"Mar Adentro" Posted by Hello

Entre uma descarga demencial de antestreias esta semana via Fantasporto e, em vésperas dos óscares, um mediatísmo desenfreado sobre dois títulos aglutinadores de quase todas as atenções do público e desvaneios da crítica, "Contantine" e "Sideways", destaco um filme que merece mais do que um "post" de atenção, arriscando-me a fugir ao assédio obsceno, sobretudo nestas alturas, das "majors". Trata-se de "Mar Adentro", um filme que infelizmente arrisca-se, por azares de "timing" de estreia, a cair no esquecimento e a passar desapercebido.
Tive a oportunidade de assistir à sessão para a imprensa, no início desta semana, e comprovar de que se trata de uma excelente proposta cinematográfica, que interessa e importa conhecer. Apesar de toda a polémica que envolve a temática da eutanásia, a realização de Alejandro Amenábar, para além de revelar um extraordinário trabalho de câmara, numa série de planos absolutamente encantatórios, que me fizeram lembrar um Mathieu Kassovitz pré-hollywood, a abordagem da vida de Ramón Sanpedro evita a dramaticidade fácil, concretizando, de forma equilibrada uma releitura da questão urgente da eutanásia e da dignidade da vida, situada algures entre a luminosidade poética do mártir e a aspereza, não raras vezes, cruel da realidade agónica do condenado.
Uma palavra final, e colocando, desde já, de lado interpretações possíveis sobre a simbologia do mar na fortíssima gramática visual de Amenábar e para a excelente banda-sonora que acompanha o filme, destaque para o mais do que impressionante Javier Bardem que se reafirma como um dos melhores actores espanhóis da sua geração. Notável, inteligente, cativante, "Mar Adentro" um excelente filme que importa conhecer e que vale a pena encontrar já a partir desta quinta-feira num cinema de qualidade.

Tuesday, February 22, 2005

Sessão de Abertura Oficial do 25º Fantasporto


"Constantine" (2005) Posted by Hello

Sem representantes do Ministério da Cultura, por razões digestivas dos resultados eleitorais do último domingo, mas com a presença corajosa do Rui Rio e do presidente do ICAM, a cerimónia oficial de abertura do Fantasporto ficou ontem marcada, no Rivoli do Porto pela simplicidade mais do que pelo "glamour" e pela antestreia europeia de "Constantine", a mais cara produção de sempre do cinema Hollywood, cerca 300 milhões de dólares, e com Keanu "Matrix" Reeves a regressar ao grande ecrã em grande forma numa adapção hi-fi do clássico da DC/Comics.
Beatriz Pacheco Pereira tomou sobre si a responsabilidade de dar as boas-vindas do público e crítica ao certame. Para além de destacar o reconhecimento do Fantas a nível internacional, com a revista Variety a situar o Fantas nos 25 melhores festivais o mundo, e a nível nacional, com o governo a atribuir, na sessão de encerramento, a medalha de mérito cultural, a responsável evocou a memória de José Manuel Pereira, um dos fundadores do festival, na célebre conversa no café Luso, em 1980, pintor e artista gráfico responsável pelos primeiros cartazes do Fantas.
Em termos da proposta inaugural, "Constantine" afirma-se como um filme de encontro entre "O Exorcista" e "Matrix" sem conseguir superar ambos os dois títulos. Alia a pop expressionista dos irmãos Wachowski, numa ligação interessante mais do que criativa ao legado estético da DC Comics, e recupera algum do terror de "O Exorcista" sobretudo pelo "display" de efeitos especiais. As personagens, sobretudo, o próprio John Constantine e o anjo Gabriel estão bem conseguidas, os diálogos simples, directos, transculturais, prontos para serem consumidos por adolescentes da China à Argentina. No entanto, a proposta, apesar de apelativa, não leva o cinema fantástico para além dos dois títulos supracitados, ficando-se apenas por uma hora e meia de entretenimento "made in Hollywood".
Para hoje os destaques vão para o regresso de Tobe Hope, responsável pelo clássico "Massacre no Texas", que apresenta o "remake", "Toolbox Murders" e para a estreia do espanhol David Carreras Solè, com "Hypno", segundo me confessou ontem Beatriz Pacheco Pereira, "é um dos melhores filmes do festival", um "thriller" psicológico que pode surpreender público e crítica. Amanhã, o oscarizável "Sideways" chama a si todas as atenções, em mais uma antestreia limite.

Saturday, February 19, 2005

Fantasporto 25 anos


"Constantine" Posted by Hello

Arranca já na próxima segunda-feira o 25º Fantasporto. Longe da programação inicialmente prevista e anunciada pela Cinema Novo, as bodas de prata do Fantas apresentam, no entanto, uma série de novidades e títulos que valem a pena ser conferidos e que ao longo dos próximos dias terei a oportunidade de manifestar a minha opinião e lançar alguns avisos à navegação, até por que, com tem sido hábito, parte dos filmes acabam por penetrar, lá mais para o verão, o circuíto comercial.
Entretanto, tive a oportunidade de conversar, longamente, com Mário Dorminsky, tendo com base uma entrevista a ser publicada amanhã no diário "O Comércio do Porto". No essencial, uma revisitação, em três páginas, dos 25 anos do Fantas, tendo sempre presente o contexto nacional e internacional do universo cinematográfico da área do fantástico, desde a fundação do certame até à actualidade. Pelo caminho, vários episódios interessantes das maratonas do Carlos Alberto, com ambulâncias, chamadas para o Hospital de S. João, e inesperados assaltos à Alfândega de Lisboa para recuperar filmes a tempo de serem exibidos. Os loucos anos 80.
Para um futuro possível, espera-se que a Fundação Fantasporto, situada na rua da Constituição, a dois passos da minha casa, ganhe forma. Faltam apoios privados, mas sobram ideias e formas interessantes de recuperar, não só um dos muitos e belos edifícios da cidade do Porto que correm o risco de cair, como também dinamizar espaços culturais que não passem obrigatóriamente por modelos alcoólicos em regime de "after-hours". Por conhecer razoavelmente algumas das pessoas envolvidas no projecto, a sua honestidade e competência, acredito na viabilidade do mesmo e espero que passados já dois anos, a Fundação ganhe forma e abra as portas o mais depressa possível.
Entretanto, está aí o Fantas 05, sem o glamour esperado, mas certamente com títulos a não perder. Pessoalmente, estou, sobretudo, de olho nas propostas asiáticas, que nas últimas três edições, têm sido do melhor que se tem produzido na área do fantástico. Em termos comerciais, "hollywoodescos", na segunda-feira à noite, logo a abrir o certame, estreia "Constantine", mega-produção de 300 milhões de dólares. A crítica norte-americana olhou de lado, mas o público esse aproveitará a febre Matrix para exigir mais uma dose hi-fi servida pelo senhor Anderson em versão BD.

Friday, February 18, 2005

A morte de uma pop-star encenada em Serralves


Posted by Hello

Mais um episódio programático complementar da exposição de Francesco Vezzoli a atingir o Museu de Serralves. Hoje e amanhã, um coreógrafo convida dez figuras de áreas diversas para ensaiar a morte de uma pop-star. Em "Top 10 (Porto)", Miguel Pereira assume o protagonismo interpretando numa proposta de dança contemporânea contaminada pelas encenações, pensamentos, delírios e sugestões de personalidades da cultura-pop do Porto e arredores como Rui Reininho ou João Vieira (a.k.a. DJ Kitten. Ligando o conceito de Diva com as artes plásticas de Vezzoli, Miguel Pereira propõe-se penetrar o mais descarada e despudoradamente possível no território do imaginário colectivo e dos arquétipos explorados pela sociedade dos média, nos quais as estrelas também morrem na verdade do palco como na ilusão da vida. Para o intérprete "o projecto tem como centro uma persongem, a minha personagem pop-star, que tem sido recorrente nos meus trabalhos e me tem ajudado precisamente a perceber os mecanismos da mitificação do espectáculo, e das representações do fulgor, da magia, do brilho, da ilusão, da sensualidade no imaginário colectivo. Serve-me assim esta figura de meio para a encenação da morte, também como ideia de fim, seguindo assim outro mito, o mito rom‰ntico da morte do actor no palco". Em movimentos de exposição, o actor/bailarino revela-se, transfigura-se, deixa-se consumir pelo público. A figura da estrela que só existe para e quando é admirada pelo outro. Uma observação não pacífica nem gratuíta mas consequente, evolutiva e por vezes mortal. Espectáculo "Top 10 (Porto)", de Miguel Pereira, atinge hoje e amanhã à noite o palco do Auditório de Serralves, a partir das 22h00.

Wednesday, February 16, 2005

"Quem Tem Medo de Virgínia Woolf" chega ao Teatro da Trindade


António Capelo e Glória Freitas em "Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?" Posted by Hello

Aviso à navegação para o pessoal de LX, a peça "Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?" estreia na sexta-feira, dia 18, no Teatro da Trindade. Depois do sucesso aqui no Porto, a mais recente proposta teatral da Academia Contemporânea do Espectáculo finalmente chega à capital. Tive a oportunidade de assisitir à estreia no auditório da ACE e comprovar da qualidade da encenação de João Paulo Costa sobre o texto de Edward Albee. António Capelo, Glória Freitas, Mário Santos e Sandra Salomé protagonizam um pesadelo de dois casais numa qualquer sala de estar. Densidade psicológica, humor e drama num retrato imperdível sobre algumas das obsessões, contradições, paranóias e toda uma gama bipolar e simbólica de poder e contrapoder que ainda teima em dominar as sociedades contemporâneas dos dois lados do Atlântico...
À margem da recomendação fica a nota mais do que positiva pela iniciativa da ACE de encetar uma mini-digressão rumo a Sul. Espero que a coragem se torne "moda" e contagie todo o país.

Pedro Mexia, Manuel António Pina e Plaza no TCA

Sugestão para amanhã à noite, dia 17, episódio "Óculos Azuis, Mundo Azul" das Quintas de Leitura, no Teatro do Campo Alegre, no Porto. Poesia de Pedro Mexia pelas vozes de Filipa Leal, Náná Menezes e Pedro Lamares; Manuel António Pina à conversa com o escritor e numa segunda parte descarga pop a cargo dos Plaza. Ponto de encontro café-teatro do TCA, na rua de todas as estrelas, a partir das 21h30...

Wednesday, February 09, 2005

Carnaval Tóxico com Peste & Sida no Porto Rio


Peste & Sida no Porto Rio - foto: Luís Costa Carvalho Posted by Hello

Os punks e o pessoal do pontapé aproveitaram a noite de carnaval para sair à rua. Ainda bem. A bordo do Porto Rio, os Peste & Sida foram os homens do leme ao serviço do rock etílico. Noite de emoções e cheiros fortes. Entre doses de "Veneno" de outros tempos e descargas moderadas e competentes do mais recente álbum, a banda lisboeta agora liderada por João San Payo protagonizou um excelente concerto, seguro, energético, inclusivo, animando a muita malta presente, que ameaçou ontem à noite transformar o Porto Rio numa espécie de mini-Rock Rendez-Vous, numa verdadeiro "punk in rio douro". Banda fundamental para compreender o eixo mais criativo do punk/rock português na segunda metade da década de 80, os Peste&Sida reaparecem agora 12 anos volvidos sobre "Eles Andam por Aí. Sem Luís Varatojo, o projecto afasta-se da pulsão comercial do sol da caparica e dos Ramones e reactualiza-se. Apesar da ainda viver "ao vivo" das excelentes memórias do passado, oferecendo clássicos como "Veneno", "Gingão", "Vamos ao Trabalho", "Alcides Pinto" ou "Paulinha", provavelmente o mais romantica "love song" lusa, os Peste fazem falta ao panorama musical português. Em "Tóxico", para além da excelente colaboração de José Mário Branco, na inteligente versão da "Década de Salomé", de Zeca Afonso, o registo aposta numa mistura explosiva de literatura de intervenção com uma sonoridade punk e argumentos funk/ska, que sempre marcaram a identidade dos Peste. Num espectáculo de união entre a tradição e inovação, os Peste protagonizaram um excelente concerto que terminou com uma sempre bem-vinda invasão de palco. Faltaram, no entanto, os metais, mas sobrou a vontade de tocar até cair. Recorde-se que já na próxima sexta, dia 11, o colectivo assalta o Hard Club, em Gaia, numa noite, também ela, de emoções e cheiros fortes. Em 2005, provavelmente, mais do que nunca, vale a pena ouvir Peste e não passar para o outro lado da trincheira... Nunca conversa que tive com Sn Payo no ano passado, tive a oportunidade de atestar a alegria do colectivo.. não alinhados e prontos para regressar ao re/activo. Depois do concerto de ontem à noite, só me resta dizer, bem-vindos...

Sunday, February 06, 2005


A Prisioneira de Lhasa Posted by Hello

A Prisioneira de Lhasa

A Prisioneira de Lhasa livro de Daniel Laeng e Philippe Broussard
“Ao cabo da primeira semana, a pequena foi submetida a, pelo menos, três interrogatórios diários. Os seus onze anos eram indiferentes; bem pelo contrário, os guardas pretendiam humilhá-la, marcá-la para a vida, precisamente porque ela era jovem, ainda «recuperável», pelo menos em teoria. Como explicar de outra forma o seu furor? Espancada com latas de conserva, desancada com a ajuda de bastões eléctricos...”(p.94)
Philippe Broussard (jornalista no “Le Monde”) e Danielle Laeng (representante do Comité de Apoio ao Povo Tibetano) uniram esforços na elaboração da biografia de Ngawang Sangdrol, símbolo de resistência no Tibete.
Numa época em que Portugal vive um auge de compaixão pelo povo asiático, penso ser muito relevante a leitura deste livro como forma de consciencialização para outros sofrimentos, não mais pequenos, vivenciados nesse mesmo continente. Anexado pela China há mais de quarenta anos, o Tibete continua a ser vítima de uma política de anexação centrada sobretudo na força de um poder e autoritarismo tolerados pelo mundo ocidental que prefere a não interferência na política interna de uma grande potência económica. Refugiados no norte da Índia, a maior parte de comunidade tibetana luta, no exílio, pela sobrevivência da sua cultura que tem como traço principal o pacifismo e como base religiosa a compaixão por todos os seres. A Prisioneira de Lhasa relata a vida de uma monja budista feita prisioneira pelas autoridades chinesas por defender os direitos de um povo ameaçado de extinção: o povo tibetano.

Filmes da minha vida: "A Festa", de Thomas Vinterberg


"A Festa" de Thomas Vinterberg Posted by Hello

Saudades de ver bom cinema. Não é todos os dias que, terminado o filme, o público não se consegue levantar das cadeiras e permanece sentado e silencioso a ler os créditos... Uma das mais interessantes experiências cinematográficas que tive a oportunidade assistir, aqui no Nun´Álvares, já lá vão uns anitos...

Saturday, February 05, 2005

Hipocrisia política sobre a candidatura galaico-portuguesa à UNESCO:

Pela primeira vez, dois países da União Europeia apresentam uma candidatura conjunta à UNESCO. Portugal e Galiza pretendem unir esforços para verem a cultura comum ser reconhecida pela organização intergovernamental como Património Imaterial da Humanidade. Entregue à UNESCO em Outubro do ano passado, o projecto foi apresentado oficialmente ao público ontem no edifício da Alfandega, no Porto, numa operação de charme, a roçar o ridículo, em busca de apoios privados. Promovida, entre outras instituições, pela Comunidade de Trabalho Galiza - Norte de Portugal, a operação conheceu no Ministro das Cidades, José Luís Arnaut, e no presidente do Governo Antónomo da Galiza, Manuel Fraga Iribarne as figuras centrais do evento, que contou ainda com a presença do autarca do Porto, Rui Rio.
Foram repetidos de forma o mais genérica e superficial possível os aspectos mais importantes da cultura galaico-portuguesa, dos cantares às danças, da base linguística ao artesanato. A ideia é preservar e difundir uma cultura que se encontra em vias de extinção. No meu entender, antes de apelarem à UNESCO, os governantes deveriam ter alguma vergonha pelo trabalho que não têm desenvolvido nesta matéria. A começar pelo governo português que, a título de exemplo, este ano, através do Ministério da Cultura, decretou a morte, retirando o apoio habitual, ao Centro de Música Tradicional Sons da Terra, que funciona desde Setembro de 2000 em Sendim, concelho de Miranda do Douro, e que possui, entre outras valências, o maior acervo áudio de música, cantares e histórias tradicionais desta região. Este é apenas um dos muitos exemplos possíveis que revelam a importância que o governo português atribui à cultura do norte de Portugal. Em termos locais, é quase uma piada de mau gosto, encontrar Rui Rio numa cerimónia de promoção cultural. O Porto, que deveria ser a primeira cidade a fomentar a cultura da sua região, sob a presidência de Rio, tem organizado festas culturalmente tão típicas e relevantes como a do próximo baile de carnaval protagonizado pelo grupo Diapasão, naturalmente com o aval da Rádio Festival, uma ligação mais do que obscura que em breve será posta nu.
Da parte da Galiza, basta referir que o presidente desta região autónoma, Manuel Fraga Iribarne, tem tanto gosto em preservar e difundir a cultura da sua terra, que ontem, discursou em castelhano. No final da cerimónia e com muita razão, um grupo de professores galegos, a leccionar em Pontevedra, manifestou-se indignado com o facto do presidente da Galiza ter discursado em Castelhano e não na língua galega. Conversei com uma das professoras que nem queria acreditar no que tinha ouvido. "Estamos profundamente chocados com isto. Sinceramente - disse Carmen Souto Negrete - este senhor não nos representa. Viajámos várias horas para assistir a uma cerimónia de apresentação o promoção de uma cultura que tem como uma das bases a língua e se candidata a património da humanidade e ouvir falar o presidente da Galiza a falar em castelhano é no mínimo uma contradição e um escândalo".
Naturalmente, quando a UNESCO sair para o terreno, irá verificar como é que se encontram as estruturas culturais do nordeste transmontano, no Minho e na Galiza, e meterá a candidatura na gaveta, sem antes dizer aos responsáveis para terem alguma vergonha na cara, pois antes de se candidatarem a património da humanidade, devem ser os próprios a considerarem a sua cultura como um património e fazerem algum esforço para a preservar...

Friday, February 04, 2005

Arte Comunitária: projecto Circunvalação

Confrontar criadores estrangeiros com comunidades da área metropolitama do Porto, pouco habituadas à fruição cultural, numa produção conjunta de propostas artísticas contemporâneas oferece-se como o eixo central da iniciativa "Circunvalação" que foi apresentada na passada quinta-feira aqui no Porto. Tive a oportunidade de assistir ao arranque do evento e conversar com organizadores, artistas e representantes das comunidades escolhidas. O projecto merece destaque e espaço de divulgação, daí a presente "post" que recupera no essencial um trabalho publicado por mim no diário "O Comércio do Porto".
Organizado e produzido pela Cassiopeia, a ideia do evento recupera o conceito de Arte Comunitária nascido no contexto artístico inglês, na transição das décadas de 60/70, reactualizando-o com o fenómeno da imigração. As freguesias e bairros de Avintes (Vila Nova de Gaia), Gandra (Gondomar) e Lomba (Bonfim/Porto), acolhem, até dia 20, três artistas estrangeiros: Farida Batool, do Paquistão, Luís Pedro, de Moçambique, e Taras Polataiko, da Ucrânia, respectivamente. O desafio é produzirem em conjunto, artistas e comunidade, arte inspirada e projectada sobre a identidade e o espaço próprio de acolhimento.
Paralelamente, o projecto "Circunvalação" dinamiza, nas referidas comunidades, oficinas de vídeo dirigidas a crianças, orientadas pelos cineastas Tiago Afonso, Saguenail e Regina Guimarães. O resultado final dos trabalhos das oficinas será exibido no auditório da Fundação de Serralves nos dias 19 de Março e 18 de Junho.
Com apoios essenciais do Instituto das Artes (IA), Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimédia (ICAM) e Gaianima, entre outras instituições públicas, o projecto de inclusão social através da criação e formação artística apresenta um orçamento de 70 mil euros.
Avintes "bottled"
Acolhido e apoiado desde a primeira hora pelo Parque Biológico de Gaia e pela Gaianima, a iniciativa de intervenção social através da arte conhece em Avintes um primeiro ponto de paragem rumo à criatividade. Convidada a "olhar" artisticamente para a freguesia gaiense, Farida Batool propõe-se apresentar duas intenções artísticas inspiradas não só na geografia própria de Avintes, como tambem, no encontro com as histórias e a identidade colectiva da comunidade local.
Numa primeira aposta, e aproveitando a margem esquerda do Rio Febros, afluente do Douro, a artista paquistanesa irá colocar fotografias da população dentro de garrafas suspensas sobre a paisagem fluvial. "A ideia é num contexto imagético unir conceitos de memória e história na natureza envolvente", afirma Battol, que se encontra a visitar as habitações e a conhecer os rostos da população de Avintes. "Tem sido uma experiência interessante - afirma - as pessoas têm-se mostrado extremamente receptivas".
Num segundo trabalho, a artista irá construir uma moldura-móvel, de 5x3 metros, na qual apresentará pinturas das histórias do povo de Avintes. A estrutura irá circular por toda a freguesia, confrontando a população com a sua história.
Da Gaianima, Nelson Cardoso, adminstrador da empresa municipal, presente na apresentação do projecto, fez questão de realçar a importância do evento pelo envolvimento da população na produção e formação artística, lamentanto porém que o projecto não tenha sido acolhido por todas as autarquias da área metropolitana.
Gandra em retratos
Em Gondomar, apesar da autarquia não ter apoiado o projecto, a Associação de Moradores de Conjunto Habitacional de Gandra fez questão de abrir as portas à arte e acolher a iniciativa. O presidente da referida associação, Altamiro Araújo, esclarece: "A arte não é só para os ricos, nós também temos direito a aprender qualquer coisa. As crianças nas oficinas de vídeo, para além de aumentarem os seus conhecimentos, mantêm-se ocupadas e longe de problemas".
Luís Pedro, o artista moçambicano de serviço, prepara uma exposição-instalação de fotografias no local que será a futura sede da associação de moradores. "Para já ando a conhecer os sítios e as pessoas. Não quero adiantar muito sobre o trabalho - afirma - mas terá como base a fotografia e o retrato".
Lomba em labirintos
Última paragem da "Circunvalação", bairro da Lomba, na freguesia portuense do Bonfim. Iniciativa apoiada localmente, entre outras, pela Fundação para o Desenvolvimento Social do Porto e pela Associação de Moradores da Lomba, a intervenção acolhe como artista residente, Taras Polataiko, da Ucrânia. Fascinado pela geometria e arquitectura das casas do bairro, Polataiko prepara-se para produzir, em material inquebrável, um labirinto. A instalação "que deve ter uma componente prática, podendo ser utilizada pelas crianças, representa a própria arquitectura das casas e a disposição geométrica do bairro", afirma o artista.
A orientar as visitas do novo morador pelo bairro, o presidente da associação local confessou que a população tem recebido o artista com tanto entusiasmo que "até já tem um clube de fãs".
As três propostas encontram-se em desenvolvimento, em construção e abertas a visitas. A conclusão das obras está agendada para o próximo dia 20. Até lá, artistas e população trabalham em conjunto num processo criativo rumo à integração e valorização socio-cultural.

Sunday, January 30, 2005


heroi
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"O Herói" português triunfa em Sundance

É a primeira vitória portuguesa em Sundance. A proposta “O Herói”, de Zézé Gamboa, co-produzida entre Portugal, França e Angola, conquistou, ontem, o recém criado “World Cinema Dramatic Jury Prize”, prémio reservado ao melhor filme dramático estrangeiro. A narrativa da longa-metragem gira em torno da figura de Vitorino, um jovem guerrilheiro que regressa à capital angolana para, em tempos de paz, tentar refazer uma vida desfeita pela guerra civil. Depois de viver 15 anos num cenário de violência, com uma mina a custar-lhe uma perna, o regresso a casa transforma-se noutra batalha pela sobrevivência, num contexto de desestruturação social, marcado pelo desemprego e pela corrupção generalizada. Estreado em Portugal, no ano passado, o filme não conheceu o êxito de bilheteira, tendo passado completamente ao lado do grande público consumidor de cinema. As estatísticas do ICAM dão ao “Herói” cerca de 300 espectadores nas duas semanas de exibição no circuito comercial português. No entanto, Zézé Gamboa afirmou à RTP que o seu filme conheceu valores de assistência muito próximos das 5 mil presenças, contando, desde logo, com antestreias e sessões especiais. Colocando de lado a guerra de números, no Fantasporto no ano passado, o filme foi recebido com apatia e relativo desinteresse. Com argumento de Carla Baptista e produção de Fernando Vendrel, “O Herói” é a terceira proposta cinematográfica dirigida por Gamboa. O realizador angolado estreou-se na sétima arte com a direcção de ”Dissidência”, em 1999, avançando depois para “Desassossego de Pessoa”, em 2001.

Friday, January 28, 2005

"O Quinto Império" de Manoel de Oliveira

Após a antestreia mundial no Festival de Veneza, em Setembro último, com Manoel de Oliveira a receber o Leão Douro, por uma vida dedicada ao cinema, Portugal conheceu ontem a entrada em cena d´"O Quinto Império - Ontem como Hoje". Já tive a oportunidade de ver o filme e, tal como tinha prometido aqui no VA, após uma breve conversa com Oliveira e respectivo "post", o filme merece uma reflexão pela temática que sugere e pela atitude simbólica que encerra. Mantendo a ligação história-literatura-memória, basilar na cinematografia de Oliveira, o realizador apropria-se da peça teatral "El Rei D. Sabastião", de José Régio, propondo uma releitura e confronto com a geopolítica do mundo actual, tendo a União Europeia, o terrorismo de islâmico e a guerra norte-americana como principais fantasmas. Em comum, ontem como hoje, emerge o sonho imperialista das grandes potências, os conflitos religiosos, a
supremacia político-ecnomónica do hemisfério Norte, a democracia dos países ditos desenvolvidos imposta e defendida pelo poder bélico. Em Veneza, houve mesmo, entre a assistência, quem visse o filme de Oliveira como uma crítica anti-Bush.
Mais urgente pela actualidade das questes que levanta do que surpreendente pela estética ou narrativa que apresenta, "O Quinto Império" não é o melhor de Oliveira, no entanto, é um filme de sugestão, de pensamento, de solidez inabalável. É na penumbra do sonho sem concretização possível, é no território da utopia, entre o Mosteiro da Batalha e o Convento de Cristo, que Oliveira filma um D. Sebastião (interpretado pelo neto Ricardo Trêpa) em constante equilíbrio entre o rei louco,obcecado com a expansão do império, desejoso por cumprir Portugal, e o santo/martir predestinado por Deus a espalhar a cristandade. Da visita ao túmulo de D. João II à dramaticidade profética do Sapateiro Santo (Luís Miguel Cintra) passando pela obsessão simbólica da espada de D. Afonso Henriques lançada ao ar, num voo premonitório de uma queda inevitável, num dos melhores planos de todo o filme, "O
Quinto Império" surge na filmografia de Oliveira como um "manifesto" inteligente e conservador sobre incapacidade da alma humana em se transcender na diferença cultural, política e religiosa do outro.

Wednesday, January 26, 2005


Dia Maior Posted by Hello

"Dia Maior", de Né Barros, no TeCA

Uma das coreógrafas mais interessantes do panorama nacional de dança contemporânea, Né Barros regressa amanhã, quinta-feira, ao TeCA com mais uma proposta a não perder. Sobre "Dia Maior" já tive a oportunidade, à convite da própria para o TNSJ e por sugestão editorial para "O Comércio do Porto", de expressar por duas vezes a minha leitura sobre o projecto. Observei o espectáculo em dois contextos diferentes, a criatividade, ousadia e profundidade das questões Né Barros levanta continuam a seduzir-me profundamente e a cativar-me pela sua inteligência na abordagem do universo semiótico e relacional do corpo. Depois do desconcertante "Vaga", que para além de ter absorvido grande parte das referências cinematográficas, de Lynch a Cronenberg, que povoam o meu imaginário, levantou-me uma série de questões tão pertinentes quanto inquietantes sobre as extensões autónomas da memória genética do corpo, com o uso, inteligente, das "mala-monitor" e com um conjunto de construções coreográficas cativantes e coerentes, em "Dia Maior" a experimentação, o abandono viagiado, a fuga para as sombras do tempo produziram um espectáculo mais orgânico, conduzindo a problemática das relações inter/corporais, espacio/temporais e de comunicabilidade/identidade por territórios provocantes, sedutores e inquietantes. Na sua quinta colaboraçã com N+e Barros, Alexandre Soares sobe ao palco, contagiando, desde o nascimento até à morte, o mais recente trabalho de Né. Apesar de manter a referências que lhe são quase genéticas da sétimas arte, tão bem expressas na obras de Canijo, o guitarrista dos TTT alimenta movimentos de ruptura com o preconcebido, protagonizando sobreconstruções arrepiantes, surpreendendo pelo dinamismo e criatividade do "live act" apontado em várias direcções do abstrato, outro território que me atrai bastante. "Dia Maior" resulta de vários dias menores em perpétua reconstrução, interiores/exteriores, plurais e unos, dilatados e comprimidos, em micro-narrativas do acordar solitário, do conflito do corpo enquanto objecto de um desejo, símbolo, emissor de signos, à epifania do Outro, enquanto possibilidade última de salvação na descoberta da identidade na comunicação, na transcendência, na metafisicalidade. Proposta a não perder, "Dia Maior" inaugura a amanhã a programação 2005 do TeCA. Dança contemporânea no seu melhor nível no Teatro Carlos Alberto, do Porto, até sábado às 21h30.

Monday, January 24, 2005

"AMI Pela Ásia": O poder extraordinário da Solidariedade

Ainda estou a ressacar a experiência verdadeiramente singular do concerto "AMI pela Ásia", do passado sábado à noite, no Coliseu do Porto. Para além do evento ter reunido um "best of" da música feita em Portugal, o que mais me impressionou foi o facto do público ter interiorizado, sem recurso a sensacionalismos baratos, o poder da solidariedade e a alegria interior de ajudar os outros. Sentiu-se uma harmonia entre público e bandas absolutamente única, autêntica e invulgarmente emocionante. O prazer de oferecer, de dar sem exigir nada em troca foi, de facto, o elemento essencial que catalizou uma energia superpositiva que fez vibrar o Coliseu do Porto. Hoje falava com a Isabel Martinho, da AMIarte, sobre uma entrevista que deu a uma colega minha de um jornal e perguntei-lhe o que tinha dito, o que é que a marcou mais na noite de sábado, a resposta foi desconcertante: "o facto das crianças e adolescentes que foram ao concerto terem sentido, algumas se calhar pela primeira vez, a alegria de ser-se solidário. Espero que esse sentimento seja marcante nas suas vidas que os torne adultos mais sensíveis às necessidades dos outros". Acredito sinceramente nesse carácter pedagógico do evento, que não nasceu dos discursos, nem dos choradinhos, mas da prática da alegria experiênciada de dar, do poder extraodinário da solidariedade, da partilha. Espero sinceramente que a AMI organize todos os anos um concerto dentro deste formato, para uma causa específica, para um público dos 8 aos 80. Motivos não faltam. Basta recordar que o número de crianças que morrem à fome equivale a um tsunami de cinco em cinco dias. Para além da crueldade e abstração por detrás das estatísticas, ao salvar uma vida estamos, de facto, a salvar um mundo. Obrigado AMI e Porto. Emocionei-me bastante com as boas vibrações do Coliseu.

Saturday, January 22, 2005


Cartaz "AMI Pela Ásia" Posted by Hello

Concerto: AMI pela Ásia no Coliseu do Porto

Grande noite hoje no Coliseu do Porto. Xutos, The Gift, Clã, Mesa entre muitos outros juntam-se logo a partir das 21h00, no Coliseu do Porto, para o megaconcerto "AMI pela Ásia". Naturalmente, lá estarei, não só pela causa e conceito arte-solidária, mas também pelo som e pela amizade que me une as várias pessoas que organizam o evento, em especial à Isabel Martinho, a incansável mentora e produtora de grande parte da iniciativa. A alma anónima por detrás do projecto. Últimas novidades antes do espectáculo: Álvaro Costa será o animador de serviço com Cátia Sul no apoio VJ. Logo à tarde a partir das 18h00, Xutos, Mesa e Fingertips passam pela Fnac de Sta. Catarina para uma maratona preparatória, em formato "show-case", com sessões de autógrafos pelo meio. Após o concerto no Coliseu, "after-party" de descompressão no ACT. Fica o convite. Apareçam...

Friday, January 21, 2005


Casa da Música Posted by Hello

Programa da Casa da Música: "Ritual do lo habitual"

Se a presença respeitável do veterano Lou Reed não espantou ninguém, o que dizer da inclusão dos Xutos e Pontapés e Pedro Abrunhosa no programa de abertura da Casa da Música, agendado de 14 a 24 de Abril. Soa, naturalmente, a uma união de facto entre Queima das Fitas e Porto Sound, sobretudo quando os responsáveis apresentam o cartaz como sendo de nível europeu. Segue-se um concerto de Gala, com a Orquestra Nacional do Porto a interpretar "Fanfarra" dirigida pelo maestro António Vitorino e o pianista Alfred Brendel a revisitar Mozart, Shumann, Schubert e Beethoven. Uma desilusão no mínimo ou será que a Europa começa na VCI e termina na Ribeira?

Música: Vítor Rua no TCA

Para os leitores mais atentos esta chamada de atenção na surpreende, visto que considerei, para espanto de algumas tribos, o concerto do Vítor Rua, no Contagiarte, como o melhor momento "live" de 2004. Para quem não teve a oportunidade de assistir ao referido espectáculo fica a recomendação de logo à noite ir até ao Teatro do Campo Alegre, onde o guitarrista subirá novamente a "Caravan". Registe-se que o concerto insere-se no 2º e inesperado Encontro Internacional de Poesia e Performance do Porto - "Em Voz Alta", evento comissariado por Rosa Alice Branco, com as participações de Alberto Pimenta, Ana Hatherly, Rodolfo Hasler, Valter Hugo Mãe e Dead Combo, entre outros.

Dança Contemporânea: "Em Resumo" no Rivoli

A primeira certamente de poucas propostas de dança contemporânea a subir ao palco do do Rivoli. Projecto "Em Resumo" conhece hoje à noite uma única apresentação no Grande Auditório. Fui espreitar parte do ensaio e fiquei com boas indicações. O trabalho lança uma série de pistas de reflexão sobre o corpo enquanto objecto, matéria, utensílio do processo criativo, que me pareceram interessantes, apesar de carecerem de desenvolvimento e alguma criatividade. A concepção e direcção artística é da responsabilidade de Joclécio Azevedo, jovem natural do Brasil, formado no Balleteatro, com grande parte do seu trabalho desenvolvido no Porto, com algumas residências no estrangeiro, a última das quais no Laban de Londres. Dividido em duas partes, a proposta apresenta primeiramente uma reflexão centrada no carácter utilitário do corpo, recorrente dos ambientes marcadamente performativos da obra Joclécio, para depois avançar para um segundo momento de desconstrução de narrativas, procurando oferecer ao espectador uma obra aberta com várias leituras interpretativas.

Thursday, January 20, 2005


Eugénio de Andrade Posted by Hello

Literatura: 82º aniversário de Eugénio de Andrade

Acabo de chegar a casa vindo da Fundação Eugénio de Andrade, aqui no Porto, onde há poucas horas atrás se celebrou o 82º aniversário do poeta. A ocasião foi oportunamente aproveitada pelo Centro de Estudos Comparatistas, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, para editar o nº 5 da revista "Textos e Pretextos", integralmente dedicada à vida e obra de Eugénio de Andrade. Num auditório completamente esgotado, após a vertente académica de apresentação da excelente publicação, a cargo de Rosa Maria Martelo, poetas consagrados, como Manuel António Pina ou Jorge Sousa Braga, e jovens talentos, Rui Lage e Filipa Leal, emprestaram voz à lírica de Eugénio de Andrade recitando poemas e confessando a admiração, respeito e amizade que os une à vida e obra de um dos escritores mais influentes da literatura portuguesa do século XX. Tive, naturalmente, a oportunidade de conversar com algumas das figuras presentes e testemunhar que, para além da habitual troca de galhardetes entre habitantes da mesma "tribo", triunfou uma troca de afectos, experiências e memórias que unem o poeta a uma parte bastante significativa da força intelectual da cidade do Porto. Arnaldo Saraiva, como presidente da Fundação Eugénio de Andrade, presidiu à cerimónia, confessando, no final, que este encontro geracional de autores acaba por manifestar que "apesar da saúde do escritor se encontrar débil, a obra do poeta está viva e com boa saúde".
Destaque final, para a publicação "Textos e Pretextos", dirigida por Margarida Gil dos Reis. Neste nº 5, sob coordenação de José Pedro Ferreira, os estudiosos de literatura têm a oportunidade de encontrar um manancial bibliográfico, passivo e activo, absolutamente incontornável para futuras investigações e um série rigorosa de sete ensaíos sobre as grandes temáticas em torno da obra de Eugénio de Andrade, dos "lugares marítimos", de Rute Beirante, a "plantas, frutos, e animais", de Ricardo Paulouro, passando pela "forma de pensar a sexualidade", de Paulo Simões Mendes. Para além, de poemas e cartas manuscritas e uma completíssima cronologia, os interessados em penetrar no universo de Eugénio de Andrade têm ainda à sua disposição um conjunto de testemunhos sobre o impacto da obra do poeta da autoria de figuras das artes e letras como António Lobo Antunes, Mário Cláudio, Ângelo de Sousa, e Nuno Júdice, entre outros.

Monday, January 17, 2005


Jean-Marc Bouju (AP) Posted by Hello

World Press Photo no Fórum da Maia

Pelo 5º ano consecutivo, o Fórum da Maia acolhe a exposição "World Press Photo". Tive a oportunidade de assistir a inauguração do evento, no sábado à noite, e de visitar a excelente colheita fotográfica 2003. Em termos gerais, a Guerra no Iraque acabou mesmo por dominar a atenção dos trabalhos mais superlativos, com alguns desvios chocantes pela condição da mulheres no Afeganistão. Realidade que importa descobrir ou reconhecer.
Em conversa com a respresentante da Fundação World Press Photo, Emily Kerckhoff salientou as histórias por detrás das imagens, destacando, inevitavelmente, o trabalho do francês Jean-Marc Bouju, da Associated Press, que conquistou o prémio de fotografia do ano, pela forma como "apresenta uma imagem de ternura, num contexto violento", justificou a comissária holandesa. A fotografia revela um prisioneiro de guerra encapuçado abraçando o seu filho, de cinco anos, na base militar de An Najaf, no sul do Iraque. Triunfa precisamente pelo valor simbólico e emocional. Paralelamente, encontram-se também patentes trabalhos do Prémio Visão. Com um júri da 4ª edição presidido por Sabastião Salgado, o trabalho vencedor é da autoria do "free lancer" José Manuel Bacelar, que assim substitui com mérito o meu amigo e colega Paulo Freitas. A fotografia revela da tragédia dos incêdios no Verão de 2003, representada na luta de um popular contra o avanço das chamas num incêndio florestal na Sertã. Presente na inauguração, tive a oportunidade de conversar com o autor que recordou a noite em que realizou o trabalho. Alertado para o incêndio pela televisão, saltou à meia noite do dia 6 de Agosto de 2003 para um carro numa viagem Braga-Sertã, de dias horas e meia. No final, valeu o sacrifício. Conseguiu um fotografia notável. Ambas exposições, de exelente qualidade, estão patentes ao público no Fórum da Maia até dia 6 de Fevereiro.

Friday, January 14, 2005

Quintas de Leitura com mais música em 2005

O Teatro do Campo Alegre (TCA) acolheu "Duelos ao Sol", a primeira sessão das Quintas de Leitura deste ano. Assisti, resisti e dirigi com satisfação o espectáculo não só pelas propostas poéticas a duas vozes, como também, e sobretudo, pelo brinde Ana Mar e J. P Simões. No final, conversei com João Gesta e com o Belle Chase fora do Hotel. Deixo algumas pistas para o cartaz 2005, que promete, desde já, reforçar a aposta na música "made in Porto". O confronto entre escritores consagrandos com nomes menos conhecidos da arena literária prossegue ao longo do ano, enquanto o formato das entrevistas parece morto e enterrado.
Produzido pela Caixa Geral de Despojos, projecto "resindente" do TCA, a proposta "Duelos ao Sol" triunfou, num primeiro momento com a dupla Filipa Leal e Naná Menezes a navegar sobre a maré surreal de Alexandre O´Neill, depois com Sandra Salomé e Pedro Lamares a recitarem extractos das "Três Cartas da Memória das Índias" de Al Berto, e finalmente, na descarga poética central do espectáculo, com Isaque Ferreira e Daniel Maia-Pinto Rodrigues algures entre o lírismo de Fausto e a "América" desconcertante de Ginsberg. J. P. Simões e Ana Deus fecharam uma noite com temas adaptados: "Se Por Acaso", "Vestido Vermelho" e "A Lenda do Homem Pássaro". Sessão nutritiva, equilibrada, satisfatória, sobretudo, criativa e audaz.
Quando às novidades das "Quintas" para este ano ficam alguns avisos à navegação. Já em Fevereiro os Plaza, com Quico Serrano ao leme, atacam com pop textos de Pedro Mexia; em Março, mês Reininho, o público pode contar com presença do GNR e as ballas de Armando Teixeira. No mês seguinte, num dos espectáculos a não perder, Vítor Rua e Nuno Rebelo dão música ao corpo de Vera Mantero, com a obra "Investigações Geométricas", de Gonçalo M. Tavares a conhecer a luz do dia. Finalmente, em Maio, José Luís Peixoto regressa às "Quintas" para celebrar o 5º aniversário do nascimento de "Morreste-me" com concerto a cargo do excelente Old Jerusalem. A encerrar o semestre, a Caixa Geral de Despojos propõe o audacioso "T3+Rum", uma descaga de álcool e poesia a ocupar um dos apartamentos do TCA.

Wednesday, January 12, 2005


Oldboy Posted by Hello

Fantasporto: linhas gerais do cartaz 2005

Assisti ontem à primeira apresentação oficial do programa do Fantasporto 2005. Ao celebrar as bodas de prata do certame instiga, a partir do próximo dia 21 de Fevereiro, ao confronto artístico entre Ocidente e Oriente, com cinema norte-americano e sul coreano na linha da frente de uma batalha com final imprevisível. Entre "bockbusters" norte-americanos, como "Constantine", e propostas de autores asiáticos, como "One Missed Call", do japonês Takeshi Miike, o cartaz 2005 contém várias novidades de interesse, enquanto, por outro lado as actividades paralelas ficam um pouco aquém das iniciativas inicialmente previstas. Recorde-se que no ano passado a Dorminsky anunciou uma maratona de 25 filmes no Rosa Mota, espectáculos de teatro... Apesar das limitações e dos cortes financeiros de mais de dezena e meia de empresas e instituições privadas, o Fantas arranca e promete ser um dos eventos mais interessantes do primeiro trimeste 2005.
Das novidades da edição comemorativa dos 25 anos, destaque para duas novas secções "Porto em Curtas", que rivaliza com as Curtas de Vila do Conde, e "Anima-te", que coloca em xeque o Cinanima de Espinho. Acrescente-se ainda heterogéneo programa de música, "Fantas Sound", o Porto Sound que se cuide, que inclui uma série de oito espectáculos do rock ao pop, do folk ao jazz e blues, no eternamente por restaurar Teatro Sá da Bandeira.
Do cartaz 2005, destaque inicial e incontornável para a estreia europeia, do mega projecto "Constantine" de Francis Lawrence. Com um orçamento recorde de 300 milhões de euros, a adaptação ao grande ecrã da obra de banda-desenhada "Hellblazer", editada pela DC/Vertigo e escrita Kevin Brodbin,Mark Bomback e Frank Capello, apresenta Keanu Reeves como protagonista, numa obra que segundo Mário Dorminsky, se
aproxima de "Matrix". Entre candidatos a óscares e vencedores de festivais internacionais, sublinhe-se a exibição no Fantas do surpreendente "Oldboy", do sul-coreano Chan-Wook Park, um "thriller" criativo que arrecadou, entre outros, o prémio especial do júri em Cannes; e o mais do que provável vencedor dos alguns Globos de Ouro e candidato às estatuetas douradas, "Sideways", de Alexandres Paine, um dos filmes do momento nos EUA. Na área competitiva registe-se a antestreia de "Nothing" e a presença especial do respectivo realizador Vincenzo Natalli ("O Cubo" e "Cypher"). Para aos amantes de emoções fortes, o certame reserva "Saw", de James Wan, considerado com um mais assustadores filmes de terror dos últimos tempos. Destaque ainda para "Primer", de Shane Carrut, um cocktail de ficção-científica recheado de efeitos especiais venceu o Festival de Sundance.
Finalmente, pelo segundo ano consecutivo, o Fantas exibe algumas das mais criativas obras do fantástico nascidas, naturalmente, em território asiático e que depois de terem conquistado público do certame têm vindo a ganhar terreno no circuíto cinematográfico nacional. Vindo do Oriente, o Porto recebe em antestreia dos mais recentes trabalhos de Shinia Tsukamoto e Takashi Miike, entre outros realizadores de culto.
Mais novidades em breve...

Fantasporto: Fantas Sound

Conjunto de concertos a atingir o Teatro Sá da Bandeira inserido na 25ª edição do Fantasporto. Destaque inevitável para os Xutos, provavelmente a última oportunidade de ver e ouvir a banda de Tim e Zé Pedro em formato acústico, o jazz dos João Bosco, numa noite certamente inesquecível e finalmente os Mesa, colectivo d J.P. Coimbra, um dos projectos mais interessantes da pop actual. Fica a agenda:
Fevereiro
Dia 25 - Milladoiro
Dia 26 - Xutos e Pontapés
Dia 27 - João Bosco e Trio
Dia 28 - Fairport Convention
Março
Dia 1 - Mesa
Dia 2 - Maria Viana
Dia 3 - Daemonia
Dia 4 - Plaza

Tuesday, January 11, 2005


Valdjiu Posted by Hello

Concerto de Solidariedade: Blasted Mechanism

Uma das mais recentes novidades do poderoso cartaz do concerto "AMI pela ÁSIA" a subir ao palco do Coliseu do Porto no próximo dia 22, são os Blasted Mechanism. O evento que inclui, entre outras, as participações dos Xutos e Pontapés, The Gift, Mesa e Clã, está a ser organizado pela AMIarte, núcleo cultural da Delegação Norte da Assistência Médica Internacional. Isabel Martinho, da AMIarte, adiantou-me que muito em breve revelará o cartaz final do mega-espectáculo. "Neste momento - confessou a produtora - o número de bandas a querer participar neste projecto superou todas as expectativas". Para além da disponibilidade das bandas a responsável encontrou resposta favorável em empresas ligadas ao sector do espectáculo. "Fiquei agradavelmente surpreendida pela forma como diversas instituições se disponibilizaram, desde logo, oferecendo o mais diverso apoio logístico, desde a equipe de seguranças aos técnicos de som".

Sunday, January 09, 2005


Miguel Guedes Posted by Hello

Concerto de Solidariedade: GNR e Blind Zero

Mais dois nomes a acrescentar ao cartaz do concerto de solidariedade do próximo dia 22 no Coliseu do Porto: GNR e Blind Zero. Efectivamente, a banda de Reininho inicia da melhor forma as celebrações do 25º aniversário, enquanto o projecto de Miguel Guedes teve a coragem de colocar em "stand by" as gravações do sucessor de "The Way to Bleed Your Lover", nos estúdios do Mário Barreiros, para se juntar à festa da AMIarte.
Espera-se um concerto "long-play", ao vivo e a cores, para mais tarde recordar. Entretanto, muitas novidades do cartaz e não só ainda estão para revelar...

Thursday, January 06, 2005

Concerto de Solidariedade: Clã e Mesa

Depois das presenças dos Xutos e Pontapés e The Gift, os Clã e os Mesa são para já mais duas bandas a juntarem-se, no próximo dia 22, ao Concerto de Solidariedade pela Ásia, organizado pela AMIarte em parceria com a produtora Ritmos. Provavelmente, dois dos projectos mais interessantes na área do pop, o colectivo de Vila do Conde pelo excelente "Rosa Carne", na minha opinião, um dos melhores registos de 2004, e a banda liderada por J.P.Coimbra vai com uma segurança e inteligência invulgares no contexto da música portuguesa construíndo uma carreira sólida e consistente com concertos de grande qualidade. No Coliseu, a projecto de liderado por J.P Coimbra surge com a participação especial de Rui Reininho.
Entretanto, o cartaz para o concerto "Música e Solidariedade" não se encontra fechado, existindo outras duas bandas que prometem subir ao Coliseu num dos espectáculos de música mais interessantes, pelo menos, do primeiro trimestre de 2005.
Mais novidades para breve...

Wednesday, January 05, 2005


Zé Pedro Posted by Hello

Concerto de Solidariedade: Xutos e The Gift juntos no Coliseu do Porto

Um dos acontecimentos mais interessantes a atingir o Porto já neste mês de Janeiro. No próximo dia 22, os Xutos e Pontapés e The Gift juntam-se para partilhar o palco do Coliseu do Porto num megaconcerto de solidariedade pelas vítimas do marmoto na Ásia. A notícia foi-me revelada ontem em primeira mão por uma fonte próxima ao evento que me adiantou ainda mais três bandas de primeira linha que irão fazer parte do espectáculo. Em breve anunciarei o cartaz completo que aviso é do melhor que há em termos da música "made in Portugal". A produção do evento está a cargo da Ritmos em parceria com a AMIarte, departamento de acção cultural da Assistência Médica Internacional que receberá o resultado da bilheira destinado na totalidade a apoiar a missão da AMI no Sri Lanka. Intitulado "Música e Solidariedade", o concerto promete desde logo transformar-se num dos eventos mais interessantes a atingir o Coliseu. Naturalmente faço questão de marcar presença, não só pela causa que é mais do que nobre, obrigatória e exemplar, como também pela qualidade das bandas que por lá vão passar. Aconselho desde já a comprarem o mais cedo possível os bilhetes para o espectáculo. Espero sinceramente que o Coliseu esgote. Logo que me permitirem anunciarei o cartaz completo e outras novidades que se imponham.

Monday, January 03, 2005

2005 pela voz dos agentes culturais do Porto

Expectativas moderadas, desejos urgentes, antevisões realistas e uma maré de desabafos terapêuticos são debitados na primeira pessoa por alguns protagonistas culturais das esfera nacional. De costas voltadas para 2004 e com os olhos bem postos no novo ano, conversei via telefone com músicos, actores, encenadores, gente do cinema, dos palcos e da programação cultural que fizeram uma breve radiografia do ano findo, denunciando problemas de resolução preemente e destacando ambições, sonhos, esperanças e utopias para 2005.
Com ironia inteligente e sarcasmo desconcertante, Rui Reininho olha de soslaio para um dos eventos do ano, a inauguração da Casa da Música, agendada para 14 de Abril. "Sinceramente não me faz falta. Já vivi tantos anos sem a Casa da Música que certamente não me irá fazer grande diferença. Depois de tantos falsos alarmes, não tenho grandes esperanças numa casa dirigida por carreiras políticas". Para a voz dos GNR - que este ano celebram 25 anos de carreira - a realidade da música não tem evoluído favoravelmente. "Há quanto tempo não vemos na televisão um programa sobre bandas como os Xutos ou uma emissão de jazz? Temos sempre o Natal dos Hospitais. Sinceramente, só apareço lá se for da cadeira de rodas", afirma. Relativamente aos festivais de Verão, Reininho dispara: "é necessário estar dentro de certos lobbies. Por exemplo, nós não fomos ao Rock in Rio por estarmos desligados de determinados lobbies".
Já Miguel Guedes, outra das vozes do rock "made in Porto", "a cultura tem sido tratada em Portugal como um bem de segunda necessidade". O vocalista dos Blind Zero, que a partir de quinta-feira entram no Estúdio de Mário Barreiros para gravar o sucessor de "A Way To Bleed Your Lover", espera que a Casa da Música seja "uma oportunidade para a cidade se abrir a todo o tipo de música da popular ao rock".
Opinião partilhada por João Vieira, dos X-Wife, que neste momento se encontram em digressão ao lado dos Wray Gunn. Para o vocalista e guitarrista do colectivo do Porto um dos desafios a enfrentar este ano é a revolução digital. "O fenómeno dos i-pods e ficheiros mp3 está, e vai continuar em 2005, a mudar o consumo da música, sobretudo nas camadas mais jovens", afirma. Para as bandas que têm um target com conhecimentos informáticos é necessário ter em conta que a venda de CD´s vai dar lugar a compra online de temas. "Podemos assistir ao regresso da cultura dos singles, com o público a adquirir temas em vez de álbuns", afirma o músico.
Unânimes, os agentes ligados às artes de palco esperam que o Governo considere a cultura como elemento essencial para o desenvolvimento do país. Com a eterna questão do financiamento sempre no horizonte, actores e encenadores esperam e desesperam por políticas a longo prazo. Norberto Barroca, do Teatro Experimental do Porto, deseja que em 2005 "haja uma política cultural que valorize o teatro". Mais caústico e desassombrado, o actor Óscar Branco considera que "a Câmara Municipal do Porto tem exterminado a cultura na cidade" e que "o Ministério da Cultura não tem existido. O ano de 2004 - afirma o actor - é para esquecer o mais depressa possível".
Catarina Martins, da Visões Úteis, espera que a cultura seja considerada como um bem de primeira necessidade e que se resolvam questões como o estatuto dos artistas e se encontre uma urgente estabilidade nas políticas culturais. "Não podemos estar dependentes de demissões de secretários de Estado ou de ministros", afirma. Opinião partilhada por Rosa Quiroga, da Assédio, que apela ainda à abertura das infraestruturas teatrais a co-produções e à criação de uma rede de programação e divulgação das artes dramáticas.
Na sétima arte 2005 poderá ser um ano com poucas novidades produzidas em Portugal. "A nova lei do cinema está atrasada e isso pode, desde logo, condicionar a estreia em 2005 de muitas propostas nacionais", afirma Mário Dorminsky. Para o director do Fantasporto, "o cinema português tem de deixar de olhar para o umbigo e apresentar ao público propostas de entretenimento inteligentes".
Já o realizador Abi Feijó, espera, simplesmente, que "este ano os responsáveis olhem com compreensão para o sector. Se isso acontecer já é um passo muito importante para a resolução de muitos dos problemas que afectam o sector do cinema", conclui o cineasta de animação.
Nas artes plásticas, João Fernandes, director do Museu de Serralves, situa como problemas a resolver "a falta de espaços disponíveis para os jovens artistas mostrarem os seus trabalhos" e ainda "a necessidade das estruturas existentes terem uma programação clara e definida".

Saturday, January 01, 2005


Franz Ferdinand Posted by Hello

Disco Internacional do Ano: Franz Ferdinand

Com os U2 a protagonizarem uma das maiores desilusões do ano, 2004 trouxe algumas excelentes novidades e aplaudidos regressos. Da colheita internacional sublinho apenas as brilhantes estreias de Franz Ferdinand com disco homónimo e TV on the Radio com "Desperate Youth, Blood Thirsty Babes". Dos regressos, o destaque vai para os Sonic Youth com "Sonic Nurse" e para a ressurreição ainda por confirmar de Morrissey com "You Are The Quarry". De um universo essencialmente rock, estes são apenas quatro discos editados em 2004 que considero no mínimo interessantes. Boas entradas...