Thursday, June 30, 2005

Mezzo: Lucky Peterson

No mínimo memorável o concerto de Lucky Peterson que a Mezzo teve, ontem à noite, a inteligência e bom gosto de exibir. Sortudos os que poderam acompanhar a emissão do canal francês.

Infantilização da estética feminina

Parece-me deplorável a forma obscena como a cultura pop audiovisual infantiliza a identidade estética da mulher pós-moderna. Estou cada vez mais cansado de me cruzar na rua e no trabalho com mulheres e jovens vestidas como "teenagers" ou crianças de umbigo à mostra. Não há nada mais ridículo do que ver uma mulher adulta a querer fazer-se passar por uma criança, num combate perdido contra as mazelas por vezes charmosas do tempo. Da indústria cosmética aos modelos das novas séries televisivas "Made in EUA", passando pelas fotografias cor-de-rosa depositadas em formato de revista encima das mesas de um qualquer cabeleireiro ou dentista, as mulheres modernas parecem-se, infeliz e lamentavelmente, com as suas filhas adolescentes.

Wednesday, June 29, 2005

Noite Halloween do Porto com Moonspell



É a primeira dose da pré-temporada do Fantasporto 2006. Entre múltiplas promessas de Dorminsky, para já, concerto em noite de Halloween (31 de Outubro - 1 de Novembro), no Teatro Sá da Bandeira, com portugueses Moonspell, que passaram ainda este ano pelos Coliseu com Cradle of Filth, e os italianos Daemonia, de regresso ao local do crime, para destilar rock progressivo com Dario Argento em "background". Fantas "marketing" episódio 1 em pleno movimento. Espera-se um 2006 com mais conteúdo e renovadas propostas cinematográficas. "Love Connection" nova secção a inaugurar já na próxima edição em Fevereiro promete espaço para dramas sentimentais e algum erotismo asiático. Para além das novidades e muitos experimentalismos, alguns corajosos, diga-se, espera-se, sobretudo, consistência no grande ecrã. "Fantas Sound" diluído com mulheres húngaras à porta do Passos Manuel. Em 2006 tudo ou quase tudo pode acontecer na Fantas City.

"Éramos Assim", Boite Zuleika

Finalmente um grande disco em português. Primeira longa-duração dos Boitezuleika, "Éramos Assim" merece atenção. Base jazz com misturas funk, ritmos samba, bossa nova e esclarecidas texturas do melhor da música tradicional de autores nacionais com Sérigo Godinho como referência evidente. Lírica inteligente, estruturas sonoras exigentes. Há mais vida e criatividade para além do bem produzido single "Cão Muito Mau". Tema a recordar "Bolero do Coronel Sensível que fez Amor em Monsanto", original extraido do registo "Eu me comovo por tudo e por nada", 1992, de Vitorino, letra da amigo António Lobo Antunes. Um disco para descobrir. "Circo da Amadeu", "Bola de Sabão", "Quiseram Roubar-me Esta Noite", "Tóxico Prostituta", temas que urge conhecer.
Entrei nesta Boite contruída no Porto há já alguns anos depois de um concerto no Hard Club. Surpreendeu-me a maturidade do colectivo. A urgência de conhecer a banda levou-me a uma conversa algures entre o Avis e o Luso, com uma francesinha à frente. Chico & companhia são um excelente exemplo de uma segunda geração de compositores e letristas com talento e garra para herdarem e reactualizarem o legado de Fausto, Godinho e Palma. Adversos à pop "easy", resta ouvir e reconhecer a densidade de um disco com qualidade bem acima da média.

Tuesday, June 28, 2005

Festivais de Verão em análise

Os festivais de verão estão cada vez mais parecidos com os "blockbusters" de fim-de-semana, num qualquer hiper-mercado, com mais de dez salas, no final, simplesmente já não surpreendem. Deixam um gosto amargo. Em vez de arrebatados ficamos com um "poderia ter sido melhor". A desilusão ganha anualmente terreno ao espanto e à surpresa. Na realidade basta analisar as cartazes dos três grandes festivais nos últimos cinco anos para constatar o crescimento de apostas extraídas do panorama audiodigital verificar o aumento vertiginoso de produtor desenhados para o mais lucrativos dos mercados o "teen", que actualmente se afirma com o público alvo dos "i-tunes", "ringtones" e afins. As lições, consequências e efeitos de Rock in Rio só aceleraram um processo de mercantilização em marcha desde 2002. A explusão dos Nickelback no Ermal não foi mais do que um último grito para uma revolução cujos vencedores e vendidos já estavam anunciados na MTV. A pulsão para o pop comercial e aversão à novidade e ao risco não param de aumentar de forma inversamente proporcional à idade do público alvo. Com a excepção do Paredes de Coura, que guardo como o único festival de algum interesse, tendo o bom gosto da Ritmos de João Carvalho, que desvia para Portugal projectos com Yeah, Yeah, Yeahs, The Datsuns, Arcade Fire, Death From Above 1979, entre outros, pouco ou mesmo nada justifica 70 a 80 euros de entrada. O futuro dos festivais do verão é identico ao dos shoppings da actualidade. O público é idêntico. Os patrocinadores são iguais. É equação não deixa margem de manobra para qualquer espécie de criatividade fora do marketing.
Na origem desta tragédia há muito anunciada estão múltiplos factores, a começar, desde logo, os acima referidos e incontornáveis interesses dos patrocinadores em relocalizar eventos a partir das demografias de consumo e construir cartazes à medida do público alvo: O Super Bock Super Rock em Lisboa é provavelmente o caso mais flagrante deste "delito" de invadir a área da Sagres. A luta pelo público "teen" tem de seguir a mesma lógica de consumo de massas, moldando cartazes, alinhamentos, rotas de digressão e favores, naturalmente paralelos, entre nomes de peso e artistas desconhecidos. E é neste espaço que as editoras jogam o pouco poder que ainda possuem. Com a faixa etária do público consumidor a baixar drasticamente, torna-se necessário equilibrar as apostas musicais. Seduzir os pais, não só para deixarem os filhos irem ao festival, mas também para darem lá uma saltada, para ficarem de olho. Assim junta-se na mesma noite de Vilar de Mouros Joss Stone de 15 anos, como Joe Cocker de 61. Quando a geografia não representa uma conquista de um mercado de interesse, assiste-se a fenómenos híbridos, onde vale tudo para todos. A mutação 2005 do Ermal é provalvemente o exemplo mais recente deste formato "multiplex". Uma espécie de "self service" entre o metal norte-americano, o reggae jamaicano e pop planetário. Resultado final, o tal amargo de boca idêntico aos filmes "made in Hollywood". Não surpreendeu mas foi porreiro. Um certo contentamento, descontente, distante das noite de arrebatamento e surpresa que a música, independemente do género pode, sabe e deve provocar. Com a explosão dos "rock fest" na Europa, mais um par de anos, e teremos de nos contentar com Guano Apes, Scorpions, Da Weasel e The Gift, Uma espécie de queima das fitas mas com uma ou outra Madonna "wanna be" para animar a "generation next" de telemóvel 3G em riste.

Friday, June 24, 2005

Abertura d´ o vício da letra

Por motivos que estão devidamente explicados n´o vício da letra, decidi hoje inaugurar o referido espaço, inteiramente dedicado à literatura, onde ocasionalmente, dependendo da inspiração e da coragem, publicarei alguns poemas, contos, ensaíos e pensamentos meus e de autores nacionais e estrangeiros que admiro. Uma casa tendencialmente mais intimista e confessional. As portas estão abertas. Sejam bem-vindos.

Thursday, June 23, 2005

Dúvidas


Dúvidas escorrem
como sombras sobre minh´alma de plástico,
emprestada e frágil.
Aos primeiros raios de luz, derreto-me em ti.
O silêncio quente do teu desespero
ilumima-me.
Espero pela noite,
inquieto.

AN

Batman Begins


Como transformar um "American Psycho" em "Batman", Christopher Nolan parece ter a solução. Na realidade o miúdo fez meio mundo chorar n´"O Império do Sol", de Spielberg, está bem crescido, já tem idade e barba rija para vestir a capa do super-herói de Gotham. Christian Bale ganhou asas e conquistou público e crítica norte-americanas, que já classificou o episódio, que estreia hoje em Portugal, como o melhor de toda a série. Quem pensava que Batman estava morto, enganou-se. O londrio Nolan ("Memento" e "Insónia" ) e 130 milhões de dólares são os principais culpados, e provam que o Homem-Morcego ainda tem asas para voar e (re)conquistar a cultura pop, pelo menos no verão 2005. As críticas do alguns jornalistas referência, como Kyle Smith do New York Post, dão nota máxima a "Batman Begins". Ver para crer. Provavelmente, fico em casa com "Os Idiotas", de Trier. São óptima companhia. Tenho medo das alturas e identifico-me mais com a idiotice fingida do que com realidade dos super-heróis de capa ao vento.

Ministra da Cultura dá subsídio de sobrevivência

Aparentemente a acção de encobrir a estátua de Almeida Garrett, em frente à CMP, protagonizada pela Art´Imagem, e o ultimato consequente, da Plateira, em direcção ao Ministério da Cultura deram resultados. Paliativos é certo, mas com a promessa de Isabel Pires de Lima de "oferecer" dez mil euros às companhias de teatro no Norte, significa que estas já podem contar com algum dinheiro pelo menos para pagar parte dos juros à banca. Entretanto, a cultura teatral a norte encontra-se refém do Tribunal Administrativo do Porto. Espera-se e desespera-se. De Paulo Cunha e Silva nem uma palavra. O silêncio do Instituto das Artes torna-se cada vez mais ensurdecedor.

Tuesday, June 21, 2005

Bill Corgan: "I want my band back"

Perante uma carreira a solo em queda livre, Bill Corgan avança hoje, em notícia da REUTERS, em Chicago, que deseja ressuscitar os Smashing Pumpkins. Naturalmente, na base de um regresso improvável está o actual beco sem saída em que se encontra um dos maiores ícones do rock alternativo e avant-garde dos anos 90, com o álbum "TheFutureEmbrace" a fazer recordar o pior dos Smashing. Apesar de considerar "Siamese Dream" e "Mellon Collie and the Infinite Sadness" dois dos melhores registos da última década e meia, na verdade, não acredito em reuniões criativas e arrebatadoras em final de carreira. Actualmente, os Pixies são, provavelmente, o exemplo mais lamentável dos efeitos secundários da indústria dos festivais de verão.

Saturday, June 18, 2005

À conversa com Pat Metheny

Hoje acordei com telefonema de Pat Metheny, algures na Europa, numa "bus stop" improvável. Este ano o guitarrista tem sofrido de algumas dores nos ouvidos que o impedem de viajar de avião, mas revelou-se cheio de vontade de regressar a Portugal para apresentar ao vivo o mais recente "The Way Up", uma desconcertante peça dividida em cinco partes que serve de protesto contra as "small size songs" feitas para entrar em qualquer telemóvel. Um concerto a não peder no dia 25, sábado, no Coliseu do Porto. Metheny tem levado para casa, nos últimos sete anos, outros tantos Grammys, com "The Way Up", arrisca-se e levar com um oitavo. Jazz impecavelmente estruturado, de alta complexidade, ao vivo abre, naturalmente, espaços para uma improvisação que certamente não deixará de surpreender e encantar.

Casa da Música: Sun Ra Arkestra, o regresso

Com o saxofone de Marshall Allen cilindrado pelo trompete de Fred Adams e pelo trombone de Tyrone Hill, a Sun Ra Arkestra conseguiram com muito o esforço sobreviver anteontem à noite a uma equilização quase mortal, tendo encontrado, em duas horas de actuação, alguns espaço para oferecer dois ou mesmo três bons momentos de free jazz e retro-swing com alguns blues pelo meio interessantes. "Angels and Demons" e "Spaceship Lullaby" foram os temas mais fortes de uma noite bastante revivalista e com uma acústica de cortar os pulsos. Pequeno Auditório da Casa da Música invadido por uma Arkestra intergaláctica de veteranos, estética solar aliada a um jazz tão frenético quando perdido na Chicago dos anos 50. Volvidos 20 anos, a banda do mítico Sun Ra (1914-1993) merecia melhor acústica. Lamentável para o público que pagou 20 euros e para os músicos que esforçaram-se até ao limite por conquistar a plateira.

Thursday, June 16, 2005

Garrett de olhos vendados

Protesto com elevado peso simbólico, a companhia Art´Imagem encobriu ontem a tarde a estátua de Almeida Garrett, situada em frente à Câmara Municipal do Porto, num criativo protesto dirigido à ministra da Cultura e ao histórico atraso na atribuição dos concursos do IA. A polícia municipal demorou pouco mais de meia-hora até se dar conta da ocorrência, apesar dos José Leitão ter alertado a autarquia e conseguido autorização do Governo Civil. Na realidade, foi quase patético assistir à intervenção da Polícia Municipal que revela o estado de ignorância democrática e deintimidação civil que actualmente atravessa vários sectores da sociedade portuense. Esperemos pelo bom senso eleitorial do povo da Invicta e pelo trabalho de casa do PS. Já falta pouco até Setembro.

Teatro a Norte lança ultimato à ministra da Cultura

É o esgotar da paciência. As estruturas teatrais a Norte deram ontem um ultimato à ministra da Cultura. Se até terça-feira não resolver o problema dos subsídios, Isabel Pires de Lima terá de enfrentar um tsunami de manifestações e protestos colectivos. Situação há muito prevista. Em posts anteriores, desde o anúncio dos resultados, que esta situação era mais do que esperada. Actualmente, o tecido teatral do Porto, em particular, e do Norte, em geral, esta a atravessar uma das piores crises de sempre. Com os lamentáveis resultados do concurso do IA fixados em Março e "congelados" pela providência cautelar interposta pela Panmixia, em finais de Maio, as consequências a nível da produção não se fizeram esperar. Quem conseguiu crédito bancário ainda pode sobreviver durante alguns meses, casos contrários, como o das "Boas Raparigas" morrem lentamente. Não será de esperar que Isabel Pires de Lima crie uma linha de crédito para as companhias até à próxima terça-feira, não por falta de tempo, pois esta situação era como já afirmei até à exautão, mais do que previsível, mas por inércia pura e simples. Depois da desilusão Paulo Cunha e Silva, não deixa de ser lamentável, que gentes do Norte quanto chegam à capital sofrem de uma amnésia e inércia unicamente explicável por alguns complexos de inferioridade ou traumas provincianos. Não que deva beneficiar a região que os viu nascer, pois esta não fez esforço algum para que tal acontecesse, como é óbvio, mas que, pelo menos, tratem com maior inteligência e justiça uma região que ainda necessita de apoio cultural e formação a nível do ensino para sair de uma situção de claro atraso não na criação mas na fruição e consumo de bens artísticos.

Wednesday, June 15, 2005

"Obscuro Domínio", Eugénio de Andrade

Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor.
Sorver entre lábios fendidos
o ardor da luz orvalhada.

Deslizar pela vertente
da garganta, ser música
onde o silêncio aflui
e se concentra.

Irreprimível queimadura
ou vertigem desdobrada
beijo a beijo,
brancura dilacerada.

Penetrar na doçura da areia
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul,

no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e navegável
golfo do desejo,

onde o furor habita
crispado de agulhas,
onde faça sangrar
as tuas águas nuas.

Monday, June 13, 2005

Eugénio de Andrade

Faleceu hoje de madrugada um dos maiores poetas de sempre da língua portuguesa: Eugénio de Andrade. Recordo-me ainda este ano, por altura do seu 82 aniversário, do encontro-celebração da vida do autor de "Escrita da Terra", na Fundação Eugénio de Andrade, na Foz, a 19 de Janeiro. De Manuel António Pina a Arnaldo Saraiva, de jovens talentos como Rui Lage, a casa/funcdação do poeta transformou-se num pequeno ninho para tão grande e sentida homenagem. Como no Porto, os escritores movem-se em "capelas", naturalmente alguns nomes que agora aparecem na televisão a elogiar o poeta não compareceram a festa de aniversário. Homem de esquerda, Eugénio produziu alguns do mais belos poemas que alguma vez tive a oportunidade de ler. A terra, o mar, o corpo e a figura da mãe são temas ou paisagens transversais numa obra notável que ao longo desta semana terei o cuidado, e espero o tempo, para revisitar aqui no blog. O país, visto como a língua portuguesa, fica a partir de hoje mais pobre. No entanto, importa ler e saborear a lírica de Eugénio.

Adeus - Eugénio de Andrade

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.