Sunday, September 17, 2006

"Waiting for the Sun"

Esperei toda a semana pelo nascimento do novo Sol. Sinceramente, não me arrependi. Gostei do que li. Inteligente como projecto jornalístico, o novo semanário para além de ocupar um importante espaço na imprensa escrita, vem, desde logo, animar um mercado que, há quase meia década, necessitava de um abanão para sacudir o excesso de conservadorismo e absorver alguma, da tão necessitada, inovação. Com as falências d´"O Comércio o Porto" e d´"O Independente", a mudança de sexo do "Blitz" e o declínio do "Expresso", o "Sol" vem, de facto, brilhar e mostrar que a vida é possível em cenários de crise, trazendo novos públicos para a leitura dos jornais e roubando alguns, não muitos, ao "Expresso".
No corpo do semánário surpreendeu-me, logo a abrir, a "Entrevista Imprevista", de José Fialho Gouveia à socióloga Maria Filomena Mónica; o editorial de JAS sobre o encerramento das maternidades, assunto importante não só pela natureza política "contranatura" de um governo dito socialista, mas também pelas gravíssimas consequências sociais. Com a secção-mãe "Política&Sociedade" a mandar no jornal, seguem-se temáticas mais populares de crimes, alguns com outros sem castigo, em "Conversas na Prisão" e "Asfalto", entrecurtadas com reportagens de descompressão como "Jornalista aos 13 anos" ou "Mais fácil ser mãe", num regresso à terra dos zés e das marias, do Portugal profundo afastado os corredores de S. Bento.
Com tema de capa "Bebés Trocados", uma novela da vida da real, uma clara piscadela de olho ao público feminino, na "Tabus" surpreendeu-me sobretudo a veia de crítico cinematográfico de Paulo Portas. Uma delícia.
Em termos gerais gostei do projecto, espero e desejo um futuro radioso para o "Sol". Não é todos os dias que nasce um jornal num país onde ler é quase um acto de resistência cultural.

Friday, September 15, 2006

Crítica: Experimentar um "Dia Maior"


Condenado a sobreviver aos constrangimentos da ordenação do real, a dualidade do corpo produtor/descodificador de signos adquirire o seu significado mais puro no confronto com o Outro. Partindo de um contexto de trabalho experimental, a coreógrafa Né Barros percorre o território das tensões da comunicação e dos sentimentos rumo ao transcendente. Em “Dia Maior”, o tempo reclama a dimensão fragmentada das emoções físicas. Existirá um sentido supremo que encontre no corpo em movimento, veículo do pensamento simbólico, o seu sustentáculo primordial?

Depois do sucesso da proposta “Vaga” (2003), na qual Né Barros explorou inteligentemente ambientes densos e formalizantes, ampliados via “hi-tech” pelo uso expressivo e desconcertante das “malas-monitor”, construindo uma gramática relacional exploratória dos constrangimentos ambivalentes do “corpo-máquina” e das rotas de aproximação e afastamento emocional e identitário com o Outro, a expectativa em torno do mais recente projecto da co-fundadora do Balleteatro atingiu um ponto superlativo no interior da comunidade da dança contemporânea.
Quem alimentou desejos de assistir a um “remake” técnico ou um “upgrade” estético do trabalho anterior ficará certamente desiludido. Co-produzida pelo Teatro Nacional de S. João (TNSJ) e Balleteatro, a nova proposta, assinada pela coreógrafa portuense, não repete fórmulas de sucesso, evita o lugar seguro e confortável do êxito, avançando com ousadia e criatividade para a exploração de novos territórios de pesquisa do movimento, forjados no experimentalismo matricial, no antidesejo da permanência, na mutabilidade dos corpos e na partilha contagiada e contagiante dos significantes.
Despido de tecnologia ambulatória, isento de objectos apêndices em movimento e da rigidez formal e racionalizante do seu trabalho anterior “Vaga”, “Dia Maior”, em estreia absoluta no TeCA, gerado do ventre de um contexto de trabalho manifestamente ensaísta, revela uma sobriedade interpelativa, nua de preconceitos e inspiradora de movimentos, abrindo novos espaços, tão criativos quanto generosos, de acolhimento e procura, de análise e interrogação, prontos a serem ocupados pela epifania do Outro, no confronto das múltiplas relações e sentimentos, na proximidade primária intrinsecamente violenta da paixão e no isolamento social das multidões que anulam o indivíduo face ao seu desejo frustrado, consequentemente, auto-antropofágico e alucinatório.

A contaminação do Outro no acto criativo
Uma das características mais relevantes da coreografia “Dia Maior” pertence ao âmbito da esfera metodológica, contagiada, desde a sua concepção, pelo paradoxo do abandono vigiado, a criatividade num contexto analítico. Pela primeira vez, o compositor Alexandre Soares, colaborador habitual de Né Barros, em trabalhos como “Voom” (1999), “No Fly Zone” (2000), “Exo” (2001) e “Vaga” (2003), sobe ao palco num contexto de um espectáculo de dança contemporânea, assumindo uma (ex)posição e um diálogo constante e permanente com os movimentos de construção corporal dirigidos por esta coreógrada sobre o elenco constituído por sete intérpretes. Ao contrário de “Vaga”, em “Dia Maior” hay banda. Evita-se a gravação, partilham-se, em formato live, signos dentro de uma base narrativa comum em constante reformulação. “Dia Maior” traduz a rendição consciente em direcção a um dinamismo experimental ousado, sustentado por uma rede estrutural genealógica próxima do invisível e inaudível.
Grande parte da composição de Alexandre Soares nasce em palco, resultando de (re)encontros, (re)interpretações e confrontos com a coreografia visceral de Né Barros, que, passível de escrita e fixação, tal como os signos musicais de Alexandre Soares, abre lugar à polissemia, à imagem e à metáfora, gerando infinitos espaços de interpretação, campos aráveis, ávidos de exploração de sensações relacionais de impacto e divergência, numa sintonia relacional com a acção despossuída da coreógrafa como a sua criação, com a sua coisa amada, com o objecto do seu desejo artístico. É neste território aberto que o Dia é, de facto, Maior. A comunicação no e com o outro transforma-se em epifania, em Outro, em revelação na diferença e na complementaridade, perfusão e confronto, muitas vezes violentos, sobretudo urgentes na descoberta de sentimentos e identidades.

A austeridade metafísica do espaço experimental
Apesar de nem sempre explícito ou conscientemente expressado, existe em Né Barros um desejo de encontro com o transcendente, calcorreando o caminho do desconhecido rumo a uma certeza inalcançável. É num espaço nu e austero, desprovido de acessórios e desmembrado de próteses tecnológicas; território utópico destituído de simulações, vazio de convenções arbitrárias, onde se procura o movimento e o som primordiais, representativos de toda uma exploração de relações de proximidade e afastamento. A busca de uma terra, simultaneamente, de ninguém e de todos.
O cenário de “Dia Maior” reflecte essa austeridade fértil, colocando o corpo solitário ou em multidão no centro de todas as atenções como emissor preferencial de signos, como veículo de comunicação com o infinito. É pela carência de significantes, que a comunicação do corpo se torna mais esclarecida e menos ambígua. A atmosfera cénica, plástica, assim como todo o ambiente estético do espectáculo insinua o princípio do despojamento como via para o encontro mais autêntico com o absolutamente Outro. Para tal, urge evitar o excesso de significação e a superfluidade de convenções arbitrárias. É indispensável aniquilar as tentativas de apreensão e ordenamento da realidade, a categorização que suspira pela construção de um universo artíficial, de uma compreensão e comunicabilidade racional alienante e alheia à ontologia humana, abstração que, através de um exercício formalizante, gera na alma um ruído tão agónico quanto alucinador. As consequentes (dis)funções e fugas, os constrangimentos nas relações e identidades pessoais são, desde logo, reveladas nos movimentos construídos e dirigidos por Né Barros em micronarrativas, onde os corpos alternadamente se oferecem e se submetem numa relação de poder, que tem como leit motif o contraste: a luz e as trevas, o interior e o exterior, a felicidade e o descontentamento. O acordar em branco no princípio de um dia qualquer, o movimento que avança por tensões sexuais irresolúveis, a queda abrupta dos corpos na impossibilidade de se cumprirem em si mesmos, a repulsa do encontro com o outro, a disfuncionalidade do físico que se revela incapaz de satifazer o desejo em toda a sua extensão e profundidade, o cansaço da morte como esperança última de um infinito invisível são alguns dos quadros em movimento num “Dia Maior” que nos habita a todos.

Os movimentos curvos do tempo relacional
O tempo é o espaço de encontro entre o corpo e o som.
O tempo, numa complementaridade de contágio com as sonoridades de Alexandre Soares, surge como um espaço coreografável de ligações, emissões e construções simbólicas. O corpo, por influência do tempo, sofre mutações constantes e não lineares, criadoras de transformações na identidade e na comunicabilidade.
Dos círculos formados pelos bailarinos à volta de um outro isolado até à frase: “tive uma sensação estranha durante cinco segundos”, Né Barros vai percorrendo diversas problemáticas contemporâneas relacionadas com a realidade e o tempo: da Relatividade de Einstein à Quântica de Bohr.
O movimento de formalização colectiva de ordenação convencional do tempo entra em rota de colisão com a realidade científica do fenómeno “per si”; o tempo é uma função de vários factores. Abrindo a paleta de constrangimentos interpessoais ao tempo, os desejos predefinidos parecem morrer ao adquirirem a consciência da impossibilidade do real, deambulando sobre situações extremas e agónicas de isolamento, rumo a um cenário próximo da esquizofrenia.
No confronto com o Outro, a construção da teia de relações, em cenas dramáticas, do indivíduo em queda e em reclusão, do eu deprimido e oscilante como o tempo, fisicamente curvo, encontra na estranheza, na disfunção, na ambiguidade, um tempo interior substancialmente diferente do outro exterior.
O carácter simbólico do título “Dia Maior” atribui uma adjectivação de superioridade a um período convencionado de 24 horas, realçando a evidência física do próprio movimento. Existem dias maiores no interior das 24 horas. Algo semelhante concretiza a tosca expressão do vulgo perder tempo, criando uma relação simbólica de poder com o tempo, atribuindo-lhe uma presença preensível, sensitiva e táctil, como imagem de um qualquer outro objecto do quotidiano, passível de desaparecer por entre os dedos de uma mão ou cair inadvertidamente pelo bolso roto de um casaco.
Em “Dia Maior”, o tempo pertence à esfera do abstrato-individual. Né Barros constroi simbolicamente movimentos temporais diferentes que se cruzam, anulam e complementam. Do acordar solitário à interpelação falhada do “tu?”, que ignora a identidade e a presença do outro, existe um espaço de memória que se confunde com a realidade concreta reformulando-a em dimensões temporais diversas.
Sublinhe-se, finalmente, a perfusão do tempo real-imaginado que encontra na memória um operador de metamorfoses. A realidade temporal do corpo imóvel do intérprete que clama por atenção, exigindo um confronto que não se concretiza, é substancialmente diferente do “objecto” desejado em movimento. Num beijo, cada lábio deixa a sua impressão digital na memória.
Neste trabalho de Né Barros, a problemática da memória no e do corpo reaparece em palco de forma ainda mais intensa. Se em “Vaga”, a utilização de tecnologia como extensão sugeria uma memória virtual como simulacro comunicacional estático, rígido, preensível em ruídos fixos, a tendência experimental da metodologia representativa de “Dia Maior” sugere uma reflexão da memória como um movimento dinâmico, flexível, inapreensível e sujeito a acidentes infinitos, como a própria vida.

Sunday, September 10, 2006

Entrevista a Mário Cláudio:Parte II


- Existe um sentido profundamente humanista na sua triologia. A alma humana é a matéria-prima sobre a qual, como um artesão, gosta de rendilhar, trabalhar, escrever…

Realmente, como disse, a matéria-prima do ficcionista é a alma e o comportamento humano. Tenho dificuldade em conceber universos literários que não tenham a ver com isso.

- Nesta triologia aborda o exílio relacionando-o com a problemática das minorias e do poder sobre elas exercido. Convoca personagens tão diferentes em idade, raça e mesmo época. Porquê?

É interessante a palavra que utiliza, pois caracteriza absolutamente aquiolo qe pretendo: exílio. O que quis foi precisamente fazer o retrato de pesssoas que estão à margem, que estão exiliadas em relação ao veio comum da existência.
No primeiro caso eram pessoas tão marginalizadas que estavam dentro de uma cadeia; no segundo, crianças marginalizadas do ponto de vista rácico e etário, neste caso são as pessoas que estão marginalizadas por atingirem uma certa idade. Algo que assistimos cada vez mais na nossa sociedade.
Tudo isto me leva a que se possa pensar nas relações de uma forma diferente. Essa marginalização resulta sempre de uma determinada concepção de poder. Que é o poder da maioria representada pelas pessoas adultas de uma raça que é a dominante. Em todo este processo há um potencial enorme de humanidade que é desperdiçado. Se pensarmos, por exemplo, no velho desta história, o melhor da sua obra foi produzido nos últimos anos da sua vida.

-Acredita que essa frase também se pode aplicar a si?

Gostaria que aquilo que produzo fosse sempre cada vez melhor. Mas, acredito que, de uma maneira geral, há uma tendência no mundo de hoje para uma hipervalorização do adolescente, sobretudo jovem adulto em desprimor de outras idades. Na sociedade em que vivemos, a partir dos 35 anos, as pessoas começam a ficar fora da vida. Desde logo, começam por ter grandes dificuldades em arranjar emprego. Depois assistimos a fenómenos de metamorfoses terríveis e em nada dignificantes de jovens que querem ser mais velhos e velhos que querem ser mais jovens. Assistimos a isso diariamente, desde operações plásticas, até ao culto da energia física que roça por vezes o caricato e que depois tem outras formas de exteriorização, como o vestuário, por exemplo.

- Não poderá existir um factor de medo, que, de certa forma, impede um encontro autêntico com o outr, provocando situações de exclusão e exílio?

Claro. A raíz dessse fenómeno é precisamente o medo. É o medo de ser destruído pelo outro que leva a meter as pessoas nas cadeiras. É o medo de ser submergido por uma cultura diferente, no caso do racismo, que conduz ao exílio. É o medo do que está para além da vida que aflige muito os jovens. A tendência é para se esconder tudo o que é motivado pelo medo. Esconde-se na cadeia, numa ilha num lar da terceira idade.

Friday, September 08, 2006

Entrevista a Mário Cláudio: Parte I

Com o romance “Gémeos”, editado pela D. Quixote”, Mário Cláudio encerra a triologia iniciada com “Ursamaior” sobre a problemática do exílio e a forma como as minorias são afastadas do teatro social, castrando a própria humanidade da sua essência plural e consequentemente criativa. Partindo do geral para o particular, uma entrevista sobre a forma, o pensamento e o conteúdo da escrita de um dos mais importantes romancistas da língua portuguesa.

- Os seus romances são reconhecidamente exigentes para com o leitor. Tendo um conhecimento tão profundo e amplo de múltiplos registos linguísticos, porque é que opta por uma escrita tendenciamente barroca.

O estilo de um autor não é uma questão de opção, mas sim de natureza. Escrevemos aquilo que somos e não como gostariamos de ser. Tendo-se uma estrutura de carácter excessiva, barroca, não se pode escrever de forma neo-clássica, por exemplo. A maneira como se escreve, o estilo que se adopta, é reflexo da maneira com somos construídos por dentro, isso não se pode alterar com facilidade.

- Suponho que possui uma certa pulsão para o perfeccionismo.

Sem dúvida. Não sou capaz de escrever seja o que for senão em termos de uma grande exigência comigo próprio. Quero assumir a responsabilidade por tudo o que escrevo. Gosto de responder por aquilo que faço de uma forma absoluta e isso leva-me a não poupar esforços para que aquilo que escrevo corresponda o mais exactamente possível àquilo que quero.

- A ignorância não serve de desculpa para o erro…

Acho que assim como se diz que a ignorância da lei não aproveita a ninguém, não entendo que um autor se possa acobertar de qualquer desculpa baseada na ignorância. O leitor tem o direito de exigir o máximo do autor e o autor tem o direito de produzir esse máximo sem se preocupar excessivamente com a opinião do leitor.

- É precisamente o seu caso, é, indubitavelmente, um dos romancistas portugueses mais exigentes para com os seus leitores…

…mas essa exigência começa por mim. Sou exigente comigo e depois, evidentemente, as pessoas que me lerem são livres de aceitar, não aceitar, de entender, de não entender. A função de escritor não é tornar-se legível. A função do escritor é tornar-se autêntico.

(continua)

Sunday, September 03, 2006

O Alquimista da Aldeia


António Fontes caminha devagar. Gosta de sentir a calma das árvores e o cheiro da terra. É um ser telúrico. um homem da aldeia, um guardador de rebalhos. A sua aldeia é o mundo, as suas ovelhas são as tradições e a identidade popular de Montalegre. Ficou conhecido por organizar o Congresso de Medicina Popular em Vilar de Perdizes, mas por detrás dessa "imagem de marca" existe um ser detentor da sabedoria profunda do tempo e da magia serena e simples unicamente acessível a quem consegue ver Deus nas pequenas coisas.
"Vejo-me como um homem da aldeia". Uma aldeia onde rituais, preces e festas se misturam com o árduo trabalho do campo e com a aspereza rude do clima transmontano. António Fontes nasceu numa aldeia, Candezes do Rio, vive em Vilar de Perdizes e não troca a sua aldeia por nenhum palácio dourado. Recebe os amigo com presunto no verão e castanhas no inverno. É genuíno, sereno e gosta de pequenos rituais como a "queimada". Coloca o açucar no fundo do pote, rega-o com bagaço e incendeia-o. Depois verte lentamente um fio de vinho tinto, espreme umas gotas de limão e introduz, com uma atenção e cuidado cirúrgicos, pedaços de maçã e um ponhado de grãos de café. As chamas purificadoras elevam-se no ar e transformadas numa cascada de fogo subtraem ao espírito a malignidades indesejada, adicionando ao corpo a vitalidade necessária para enfrentar a dureza de mais uma jornada.
O padre Fontes gosta de servi e de ser para os outros uma extensão, uma elo e um sinal de Deus. Gosta de gerar comunhão numa utilidade ritualizada em cada gesto em cada palavra. Ao realizar "a queimada" esbatem-se as ténues fronteiras entre sagrado e profano. "O que é tido como sagrado é muitas vezes metido entre paredes e lugares sagrados, como é o caso de igrejas, capelas ou santuários, mas o sagrado passa para fora desses espaços. Existe sagrado misturado com o profano, que é o sagrado da rua, dos cafés do trabalho, e que vai com o homem e a onde está o homem está Deus", afirma.
A sua paixão pelos rituais presentes na sabedoria do quotidiano da gente simples acompanhou de mão dado o seu desejo de ser sacerdote, desde tenra idade. Aos 19 anos, ainda no seminário de Vila Real, dinamizava, paralelamente aos ritos comuns, actividades semi-ocultas, semi-públicas, semi-privadas, semi-legais que lhe custaram a expulsão. "Uma festa sagrada - explica - é composta por partes profanas e a fasta profana é composta pelo seu inverso. Acharam que eu fui a parte profana e não a parte sagrada". Convidado a reentrar, sentiu um novo alento e uma nova confiança . Prosseguiu os seus estudos de teologia e abraçou o sacerdócio em 1961. "Optei por continuar no seminário com esta olusão de fazer da Igreja uma Igreja mais viva."
Actualmente dedica-se a promover, divulgar e interpretar a cultura popular da região de Montalegre, que permanecia esquecida no anonimato. Na realidade, ninguém tinha falar de Vilar de Perdizes até o padre Fontes organizar os polémicos e mediáticos congressos de medicina popular que lhe valeram algumas repreensões por parte do episcopado, nada a que desde jovens já não tivesse habituado. "Aproveitei os congressos - diz - como um trampolim para revitalizar a aldeia e para chamar a atenção da opinião pública para uma zona carenciada e abrir as portas ao mundo para aquela zona através da cultura popular."
Uma cultura presente nas gentes que pisam o chão da sua aldeia. O padre Fontes é um homem que olha para o mundo como "o espaço onde Deus habita e o homem coabita" e vê em Deus uma paragem obrigatória ruma à felicidade. "Se o homem descobre que o mundo está habitado por Deus pode fazer o paraíso na Terra, se não descobre Deus faz o inferno para ele e para os outros", afirma. Mas descobrir Deus num mundo cada vez mais complexo não é tarefa fácil. A nossa aldeia global tem múltiplas cidades e guetos, tem labirintos de alienação, egos do tamanho de catedrais e mensagens trocadas, obstáculos que ocultam o divino, escravizando o humano. "Há mais tentativas para ocultar o divino do que para o mostrar. É necessário parar um pouco, olhar para o caminho e ver se vale a pena ir."
Gosta de ler e de sentir. Gosta de aprender. Actualmente tem entre mãos uma tese de mestrado em comunicação social para avaliar. Foi convidado como júri pela Escola Superior de Jornalismo do Porto. Livros de cabeceira não tem. Não gosto de ler na cama, mas de vez em quando pega, pega em três livros italianos sobre a etnografia dos Alpes e lê excertos até que o sonho vença e acabe por adormecer. Os seus temas preferidos giram em torno da etnografia, antropologia, sociologia e religião popular.
O padre António Fontes tem 61 anos e é um homem da aldeia, um guardador de rebalhos. A sua aldeia é cada vez mais o mundo, e as suas ovelhas as tradições. Retira da Terra e do Céu a essência das coisas simples em rituais feitos de alteridade, alquimia e muita fé.

Monday, August 28, 2006

Quem irá tomar conta do Rivoli?

É, indubitavelmente, uma das questões mais empolgantes da "rentrée" cultural do Porto 2006. Após cartão vermelho à "dispendiosa" CulturPorto, a calculadora de Rui Rio vira-se agora para Mário Dorminsky, Filipe La Féria ou Luís Montez? Cinema fantástico, Broadway à portuguesa ou Música no Coração/Rádios ao metro? Haverá ainda um quarto ou quinto elemento? Tal como Saramago ao "el Pais", como optimista bem informado aposto na prata da casa, no "el chefe", actualmente a laborar na outra margem do RIO. Isto apesar do "namoro" La Féria-Rui Rio no Sá da Bandeira e das relações quase pornográficas entre a autarquia e a Rádio Festival, com Jardins do Palácio a serviram de dote para noivados "on FM stereo". De qualquer forma aceitam-se apostas sobre quem irá tomar conta do Rivoli.

Saturday, August 26, 2006

Pensamentos

A galeria está para o museu como a farmácia para o hospital.

Thursday, August 24, 2006

Dragão de pedra

"Espectáculo para burgueses", disparou um filósofo de esquerda anónimo com sotaque do norte à porta o Dragão. Não era Jean-Luc Godard num banquete cinematográfico 68. O Beggars Banquet's há mais de três décadas que deixou de ser um espaço conceptual para os pedintes ou arrumadores, com ou sem Morais. Mick esse comeu na Ribeira com o D. Tonho, segundo os paparazzi da Gonçalo Cristóvão. Sem novidades de maior nem grandes exigências. Uma "I can´t get no satisfaction" mediática. Faltaram críticas, sobraram reportagens de quem é o maior fã e directos de inspiração futebolística.

Saturday, March 18, 2006

SWAP no Festival Tucátulá 2006

SWAP no Festival Tucátulá 2006

Data 18 de Março
Horário 21h30
Local Auditório da Junta de Freguesia de Espinho Rua 23, Espinho
Entrada Livre


Criação transdisciplinar de João Costa, Rudolfo Quintas e Tiago Dionísio

"Swap - An Interactive Audiovisual Performance & Installation" é um projecto baseado no desenvolvimento de software que imerge o corpo num ambiente visual e sonoro interactivo.
Este projecto de criação foi seleccionado pelo conselho artístico do projecto Inter.faces (Ana Figueira, Cristina Grande, Ezequiel Santos e Joclécio Azevedo) e promovido pelo NEC em co-produção com a Culturporto.

+ Info
www.swap-project.com
info@swap-project.com

Tuesday, March 14, 2006

Nós e as máquinas


Há algo de extremamente excitante quase erótico no uso das novas tecnologias. Somos afectados de forma inconsciente pela vertigem da velocidade e da potência emanada do núcleo simbólico do universo cada vez mais sedutor dos objectos do quotidiano. Criamos rituais de linguagem. Incorporamos na nossa identidade a identidade das "coisas" tecnológicas que usamos. Queremos ser as máquinas que utilizamos e estão na "moda". Afirmamos: "Estou sem bateria" ou "estou sem rede". Mergulhamos na identidade colectiva da web com a esquizofrenia segura do "nickname". Somos tudo aquilo que nunca imaginámos que alguma vez poderiamos ser. Gostamos cada vez mais de um "nós próprios" ausente e distante no mundo já não concreto de átomos mas digital de bits. Expandimos o nosso sistema nervoso central para além dos nossos limites físicos e psicológicos. Optamos por adquirir um automóvel com uma velocidade máxima duas vezes superior à que alguma vez teremos a oportunidade de usar. Queremos ter a certeza de que se alguma vez na vida necessitarmos de "andar" a 340 à hora, temos "máquina" para isso. Sentimo-nos confortados, seguros, superiores. As potências das nossas máquinas são uma extensão, uma prótese da nossa própria potência, do nosso próprio sexo. Sugestão: A filmografia de David Cronenberg com "Videodrome" à cabeça.

Memória

A memória é uma corrida contra o tempo. Seduz-me a incerteza do amanhã.

Thursday, March 09, 2006

"Seres Invisíveis" de Bruno Anedda




No próximo dia 10 de Março, às 21h30, a Galeria Espaço Ilimitado acolhe “Seres Invisíveis”, o mais recente trabalho do artista plástico e fotógrafo Bruno Anedda.

Dividida em duas propostas, Gaza e Auto-Retratos de um Homem Invisível, "Seres Invisíveis", composta por fotografia, instalação e vídeo, resulta de uma pesquisa inteligente e inovadora sobre os conceitos de identidade e realidade.

Gaza, instalação - projecção de vídeo em tela e sensores de movimento que permitem a interacção entre o autor e o público, num diálogo comunicativo entre o real e o virtual.

O sentido de paródia e ironia está presente no vídeo de "Gaza". A imagem do soldado é aqui tratada como um ícone da invisibilidade, sugerindo o drama de um campo de batalha onde se confundem agressores e vítimas.


Auto-Retratos de um Homem Invisível - exposição de fotografia - cerca de vinte fotogramas exploram o tema do real e virtual, a essência humana e a máquina, nas quais Bruno Anedda representa o ser humano na sua própria condição. Trata-se da recriação de um personagem centralizada num indivíduo não reconhecido socialmente (pelo seu carácter invisível) que não se enquadra em nenhuma das categorias sociais a que todo o ser humano está sujeito, mas que mesmo assim as interpreta e as correlaciona com práticas quotidianas.

Qual a forma ou imagem das práticas comuns humanas? Como pode aquele que vê sem se ver e sem nunca ser visto fazer-se representar visualmente? -

São algumas das interrogações propostas por Bruno Anedda, que evoca, nesta exposição, o tema da não aparência associado à ausência de identidade, questionando os valores morais com que uma sociedade se controla.

«Não se sabe se é gordo ou magro, alto ou baixo, qual o seu extracto social, facha etária, ou raça que representa. Apenas conhecemos a sua necessidade de se auto-exprimir visualmente como forma de assumir a sua existência. É um ser humano tal como todos, apesar de diferenças que não somos capazes de catalogar.», afirma o autor.

Estes retratos simbolizam essa representação e não uma aparência singular roubada e ocasional, tornando-se a simulação a última das verdades.

Seres Invisíveis, tal como nas suas obras anteriores, aborda o conceito de identidade. Segundo Bruno Anedda, «É a ausência de elementos espaciais e temporais que torna questionável a verdade destas imagens. Uma verdade que a fotografia teoriza como apenas aparente e não necessariamente concensual.»

Diz o autor: «No quadro contemporâneo actual, as novas tecnologias têm vindo a adoptar um papel cada vez mais preponderante e decisivo na vida quotidiana, e na arte isso não é excepção. Cada vez mais nos predispomos para servir as máquinas, criações desenvolvidas para o nosso serviço. As relações humanas tornaram-se virtuais, as identidades confundem-se e os sentidos de distância encurtam-se, do mesmo modo que a fotografia proporciona um encurtamento no sentido temporal.

A fotografia é hoje entendida como uma expressão de um conceito geral e abstracto para além do seu processo de desenhar imagens pela acção da própria luz.»


Sobre o autor:

Bruno Anedda iniciou o seu percurso académico na Escola Soares dos Reis, no Porto. Acabou o Curso Superior de Fotografia na Escola Superior Artística do Porto em 2001. Terminou o Mestrado no Dutch Art Institute, na Holanda, em 2005.

Dos seus inúmeros trabalhos colectivos e individuais, destaque-se os seguintes:
Alemanha: Wege am Wasser, organizado por Verein 23 e Kulturwerkstatt Westend, Bremen, Alemanha, 2001.

China: Next Station, The Gold All Over The Sky, comissariado por Na Yingyu Sheng, Hua Center, Nanjing, China, 2004
Under Construction, Nanjing, China, 2004
Luggage, Nanjing, China, 2004

França:Histoire de Changes, Salle Guillaume de Nogaret, Montpellier, França, 2002.
Videoattitudes, Amiens, França, 2006.

Holanda: OPEN DAI'zzz, Dutch Art Institute, Enschede, Holanda, 2005.
Kunstvlaai 5, Amsterdão, Holanda, comissariado por James Beckett, 2004.
Oh Alice Kunsthuis Syb, Beetsterzwaag, Holanda.

Portugal:Photography Without Photography, Sentidos Grátis, Laboratório das Artes, Guimarães, Portugal, 2004.
FOTIMAG International Photo Hall and Image, Fil, Lisboa, Portugal, 2003
Retratos de Rua, comissariado por Julio de Matos, Teatro do Campo Alegre, Porto, Portugal, 2002.
Nós e os Outros, organizado pelo Goethe Institut, Casa das Artes, Porto, Portugal, 2002.
WC Invicta Public Art, 47B1 group, Ferreira Borges, Porto, Portugal, 2001.
DIDATICA 2001, Exponor, Porto, Portugal.
Pedimos Desculpa pelo Incómodo Prometemos Ser Breves, Biblioteca Almeida Garret, Porto, Portugal, 2000.
Modos de Ver, Ateneu Comercial do Porto e Teatro Rivoli, Porto, Portugal, 1998.
Tondela, Portugal, organizado pela Associação Cultural e Recreativa de Tondela (ACERT), 1998.

Turquia: RUCKSACK, Dyarbarkir Art Centre, Dyarbarkir, Turquia, 2005.


Espaço Ilimitado

Rua de Cedofeita, 187 Porto 919804918

http://www.brunoanedda.exto.org

Sunday, February 26, 2006

É carnaval ninguém leva a mal


Sexta-feira passada um homem armado entrou no Museu do Rio de Janeiro e levou para casa: "A Dança" de Pablo Picasso; “The Two Balconies" de Salvador Dali, "O Jardim do Luxemburgo" de Henri Matisse e ainda "Marine" de Claude Monet. Policia afirma que não conseguiu apanhar o coleccionador pois este desapareceu no meio da multidão que invadiu as ruas do Rio para festejar o carnaval.

Bono e Geldof a caminho do Nobel


Estrelas rock Bono e Geldof estão entre os 191 nomeados para o Nobel da paz, segundo a Reuters. Vencedor arrecada 1.3 milhões de dólares. Banda sonora: "Sometimes You Can't Make it On Your Own". Esperemos que sim. O "boy" merece a propina.

Friday, February 24, 2006

Negative Creep

Thursday, February 23, 2006

Syriana: Tráfico de influências à Americana

É uma das estreias a não perder. Tive a oportunidade de comentar Syriana no início do mês numa sessão especial/matinal para críticos no NorteShopping. Obrigado Artur pelo convite. Mais recente proposta de Stephen Gaghan agrada à crítica europeia pela forma pseudo-jornalística como aborda uma tema quente: as relações perigosas entre o mundo da política e da economia, tendo o petróleo com moeda de troca. O argumentista de Traffic realiza um filme à Soderberg como o amigo de ambos Clooney em grande plano. Corrupção, crimes sem castigo, lobbies gigantescos a apoiarem golpes de estado no médio-oriente, tendo sempre como motor interesses de exploração de petróleo. Viagem pelo mundo da real politik à americana, num retrato denotativa dos falcões de Bush. Apesar de limitado enquanto proposta cinematográfica, Syriana encontra nos fãs de Soderberg, nos democratas norte-americanos e na esquerda europeia um auditório mais do que convincente. A narrativa semi-jornalística/documental continua a marcar pontos na sétima arte enquanto o "mainstream" audiovisual norte-americano, com CNN à cabeça, insistir em mostrar meias-verdades transformadas em mentiras de corpo inteiro.

Sala de ensaios Inside-Out

Ontem passei a noite na sala de ensaios Inside-Out no C.A.C.E. Cultural do Porto, no Freixo. Conversei longas horas com os seus fundadores, Cláudio e Sofia. Sinceramente, impressionou-me a beleza do espaço, o poder de iniciativa dos jovens e a atmosfera positiva do projecto. Espero sinceramente que o espaço continue a crescer. A sala acolhe várias bandas da cidade e apresenta-se como um dos "spots" mais interessantes para ensaiar e aprender música. Convívio, alegria e um ambiente de partilha e amizade que merece ser conhecido. Um grande abraço para ambos. Espero que o sucesso continue a acompalhar-vos. O Porto merece espaços assim de interessantes e as bandas têm, de facto, necessidade e encontrarem "ninhos" de convívio, partilha de ideias e amizades com vista para o Rio Douro. Obrigado pela conversa, foi espectacular. Todo o sucesso. Até breve.

Wednesday, February 22, 2006

Fantasporto´ 06

A festa do cinema regressa ao Porto entre os dias 20 de Fevereiro e 5 de Março. Do "quartel-general" no Rivoli com as Secções Oficiais e as Retrospectivas do Cinema Húngaro, do Expressionismo Alemão, de Bill Plymtpon e dos Irmão Shaw, ao Cinema Passos Manuel, onde está sediada a nova Secção do Festival, a "Love Connection", passando pelo Auditório da Biblioteca Almeida Garrett, que acolhe o cinema de Bombaim, sem esquecer os cinemas AMC, no Arrábida Shopping, que projectam alguns dos melhores filmes mais comerciais da edição 06.
O cinema português abre, oficialmente, a 26ª edição do Fantasporto ­Festival Internacional de Cinema do Porto. O primeiro filme português a ter honras de abertura do festival, "Coisa Ruim" de Tiago Guedes e Frederico Serra entra, também, em concurso na Secção Oficial de Cinema Fantástico. Para fechar com "chave de ouro", o Fantasporto 2006 recebe "Fragile". Depois do sucesso de "Los Sin Nombre" (Melhor Realização Fantas 2000) e "Darkness", o realizador espanhol Jaume Balagueró regressa ao cinema de terror. No principal papel do assustador "Fragile" encontramos a actriz Calista "AllyMcBeal" Flockhart.
A Secção Oficial de Cinema Fantástico conta com participações dos mais variados países. Para começar: Portugal. Dois filmes entram emcompetição. O já citado, "Coisa Ruim" de Tiago Guedes e Frederico Serra e "Animal" de Roselyne Bosch, uma co-produção com França e Diogo Infante no principal papel. Depois, um filme sueco de vampiros, leram bem, sueco e de vampiros:"Frostbiten" de Anders Banke. Ainda, o primeiro filme irlandês de zombies, "Dead Meat", de Conor McMahon, o regresso de Ivan Cardoso ao Fantas, "Um Lobisomem na Amazónia" e, entre muitos outros, o canadiano "Saints-Martyrs-des-Damnés" de Robin Auber. A 16ª Semana dos Realizadores do Fantasporto 2006 arrisca-se a ser a melhor de sempre! O vencedor da secção em 2003, Anders Thomas Jensen regressa com "Adam's Apple", o celebrizado realizador escocês, Michael Caton-Jones ("Rob Roy" e "City by the Sea") participa com a sua leitura dos acontecimentos no Ruanda em 1994. Destaque, também, para "Domino", o mais recente filme de Tony Scott, realizador de "True Romance". O Expresso do Oriente volta a ter paragem obrigatória no Fantasporto. A 26ªdo Festival Internacional de Cinema do Porto escolheu algumas das mais acutilantes produções daquela cinematografia para figurarem no cartaz de2006. Este ano, a Secção Oficial Orient Express tem um repetente: Kim KiDuke em dose dupla. Primeiro, "The Bow", selecção oficial "Un CertainRegard",do Festival de Cinema de Cannes 2005. Depois, uma análise amarga da prostituição e das suas consequências em "Samaritan Girl". O realizador volta ao tema, depois de "O Bordel do Lago" (2000). Das Filipinas chega-nosuma mistura de "Memento", "O Sexto Sentido e "The Ring" em "The Echo".Em2004, Takashi Miike realizou "One Missed Call", já apresentado noFantas. Agora, o telemóvel do inferno está de regresso em "One Missed Call 2".
Cinema Português no Fantasporto
O cinema português entra com o pé direito no Fantasporto 2006. Foram tantosos filmes submetidos à 26ª edição que, este ano, o Fantas decidiu alongar as sessões de cinema nacional. Vamos ter quatro sessões cheias de filmes portugueses, isto para não falar das duas longas metragens em competição na Secção Oficial de Cinema Fantástico e já aqui afloradas: "Coisa Ruim" deTiago Guedes e Frederico Serra, e "Animal" de Roselyne Bosch, umaproduçãode António da Cunha Telles com Diogo Infante.De documentários, como "Vez", Martin Dale, jornalista/crítico de cinemada prestigiada revista de cinema "Variety", lança um olhar sobre Arcos deValdevez a filmes de ficção/video musical, como "Shine On" de Rui de Brito. A canção dos Blind Zero "Shine On", do álbum "The Night Before and a New Day" (2005) é o mote para a curta-metragem de Rui de Brito. Não esquecendo objectos estranhos, mas curiosamente interessantes e relevantes como "A Piscina" de Iao Viana, João Viana. Selecção Oficial do FestivalInternacional de Cinema de Veneza 2004. De entre a selecção portuguesa olhar atento para "A Rapariga da Mão Morta". O realizador Alberto Seixas Santos ("O Mal", 1999) deixa por breves instantes as longas-metragens e filma odrama da Rapariga da Mão Morta.
AS RETROSPECTIVAS
Cinema Húngaro. No ano de 2006, comemoram-se os 50 anos da Revolução Húngara que, em1956, desafiou o Poder soviético e acreditou ser possível uma revolta popular tomar o Poder e transformar o país numa democracia. O esmagamento dessa revolta pelos tanques do Pacto de Varsóvia, provou que estavam errados nas suas esperanças. Mas, os seus ideais estavam certos, mesmo se demoraram,ainda, 30 anos a concretizar-se. O Fantasporto junta-se à comemoração ededica uma das suas Retrospectivas ao cinema deste país. Nomes importantes como Istvan Szabo, Márta Meszáros e Miklos Jancsó, ou mais recentes, estrelas em ascensão, como Kornél Mundruzcó estão presentes com os seus melhores filmes.
Expressionismo Alemão.
Ao longo das suas vinte e cinco edições, o Fantasporto sempre dedicou aocinema alemão o lugar de destaque que esta cinematografia inegavelmentemerece pelos contributos inovadores que deu nestes cem primeiros anos docinema. Foi esse reconhecimento da "marca" alemã nos grandes momentos da história do cinema e nas grandes criações estéticas que revolucionaram a 7ªarte, que justificaram no Fantas importantes retrospectivas. Este ano, o Expressionimso Alemão tem um lugar de destaque? o Fantasporto 06 exibe filmes como "Metropolis" e "Dr Mabuse" de Fitz Lang, ou "Nosferatu" e "Fausto" de F. W. Murnau.
Irmãos Shaw
Sempre atento à cinematografia oriental, o Fantasporto investe agora nosmaiores produtores de cinema chinês ­ os Irmãos Shaw. O cinema chinês comemorou 100 anos em 2005. Os Irmãos Shaw são uma parte fulcral dahistóriadesta cinematografia. Os seus filmes, que vão desde as artes marciais ekungfu, à ópera Huangmei, passando pela comédia. O Festival Internacional de Cinema do Porto mostra algumas das mais conceituadas obras produzidas pelos Shaw numa Retrospectiva a ver atentamente no Rivoli ­ Teatro Municipal.
Bollywood e Love Connection.
Dois espaços emergem na programação do Fantas. Um deles é a Biblioteca Almeida Garrettt que recebe uma Retrospectiva do Cinema de Bombaim, maisconhecido por Bollywood ­ o espectáculo do cinema, da música, do bailado, dacor e da coreografia, em filmes que são uma experiência única do audiovisual, com o volúpia envolvente das sensações E sempre em versão "extra large" de tempo. Bem como, uma exposição do artista belga Manú Gomezna Galeria da Biblioteca. Artista- cineasta, no ano passado foi Júri de uma das Secções Competitivas do Fantasporto. Manuel Gomez nasceu a 14 de Março de 1956, em Mont-sur-Marchienne, na Bélgica. Já expôs em Paris, e em muitos outros locais de França e no Palácio da UNESCO em Beirute. Em 1981ganhou o prémio de pintura dos Ateliers "Grand Hornu", para os jovens pintores. Como escultor, Gomez gosta de "explorar dimensões e sensações" estranhas ediferentes. Outro desses espaços é o Cinema Passos Manuel. A pouca distância do Rivoli, recebe uma nova Secção no Fantas, a "Love Connection". O objectivo é, basicamente, dar resposta a um conjunto de filmes que cada vez mais nos são propostos, com novas perspectivas sobre o amor, dos mais estranhos prazeres, de novas sexualidades, paixões intempestivas, amores marginais, bizarras formas de viver o sexo, perversões mais ou menos explícitas ou de perdições absolutas.
Homenagem a Manoel de Oliveira
O Fantasporto 2006 homenageia o realizador portuense, Manoel deOliveira, um dos maiores embaixadores da língua portuguesa no estrangeiro e patrono da Semana dos Realizadores do Festival Internacional de Cinema do Porto desde 1991.O Fantasporto exibe "O Espelho Mágico" (2005), o mais recente filme de Manoel de Oliveira. O realizador volta a adaptar Agustina Bessa-Luís ("O Princípio da Incerteza", 2002). Uma mulher deseja ver a Virgem Maria para lhe fazer algumas perguntas.

Monday, February 20, 2006

Visita de Amigo

Tenho andado triste. Na verdade, há muito tempo que não escrevo no "vício", nem corro atrás de eventos culturais. Após o encerramento do "Comércio" uma nova fase se abriu na minha vida. Tenho meditado bastante nas curvas da existência. Acredito que temos de passar por algumas dificuldades para valorizarmos pormenores que passam ao lado na espuma dos nossos dias felizes. Os momentos difíceis possuem o dom de ciclicamente filtrarem o essencial do acessório. Actualmente, encontro-me num processo de "filtragem".
Todo o homem procura a felicidade. Existem ricos tristes e pobres contentes, gente doente com amor à vida e tranquilidade no olhar, pessoas saudáveis com olhos de medo e lágrimas escondidas. Acredito na felicidade enquanto trabalho interior. Conheci centenas de jovens no Perú oriundos de famílias com problemas sociais gravíssimos, mas com uma energia e força de viver impressionantes e "burgueses/narcisos" no Porto anestesiados com o seu reflexo no espelho, incapazes de sair de casa para serem qualquer coisa para além de uma imagem.
Acredito que cada ser humano tem um dom. Importa descobrir qual e colocá-lo ao serviço dos outros. Desistir de viver de acordo com as nossas qualidades é colocar a nossa felicidade em "stand by". Devemos aproveitar os nossos pontos fortes.
Gosto de escrever, de ser jornalista, de conhecer pessoas e divulgar arte, ajudar gente com talentos especiais na música, cinema, teatro. Nem sempre tenho oportunidade de o fazer. Por vezes, a vida obriga-nos a recuar um passo, certamente vou ganhar balanço para avançar dois. Necessitamos de não perder o optimismo, o cheiro dos sonhos e a autoestima de crianças apaixonadas.
PS: Ontem tomei café com um amigo. Nuno gostei tanto de te ver. Um abraço. Braga não fica assim tão longe.

Monday, January 23, 2006

A guerra das rosas


Graças a Guerra das Rosas, Cavaco ganha a Presidência da República Portuguesa. Pela primeira vez, a Esquerda oferece Belém a uma social-democracia de "todos os portugueses". Inédito. Manuel tem razões para estar mais Alegre. Finalmente, Soares abandona a cena política pela porta dos fundos. Sócrates, esse, espera ansiosamente pelo regresso de Guterres, o caminho está mais do que aberto.
Gostei de ver a SIC à porta de Cavaco, enviando recados para o interior do "bunker". "Se me está ouvir venha à janela". Desconcertante. Jornalismo "à americana" com toques provincianos tipo NTV. Afinal parece que o D. Sebastião mora em Lisboa e gosta de cantar "Grândola, Vila Morena". Quem diria. Os vizinhos dizem que é um extra-terrestre muito educado com poderes para "meter o país na ordem". Ao final da noite MIB invadiram o CCB. "Portugal Maior".

Na origem da tragédia mais do que anunciada está desde logo, a máquina PS que revelou um autismo típico dos aparelhos de Estado pouco habituados a ler a realidade política para além dos corredores do poder. Cavaco vai para Belém com bênção de Soares e de uma Esquerda de comadres tristes e ciumentas.