Friday, September 08, 2006

Entrevista a Mário Cláudio: Parte I

Com o romance “Gémeos”, editado pela D. Quixote”, Mário Cláudio encerra a triologia iniciada com “Ursamaior” sobre a problemática do exílio e a forma como as minorias são afastadas do teatro social, castrando a própria humanidade da sua essência plural e consequentemente criativa. Partindo do geral para o particular, uma entrevista sobre a forma, o pensamento e o conteúdo da escrita de um dos mais importantes romancistas da língua portuguesa.

- Os seus romances são reconhecidamente exigentes para com o leitor. Tendo um conhecimento tão profundo e amplo de múltiplos registos linguísticos, porque é que opta por uma escrita tendenciamente barroca.

O estilo de um autor não é uma questão de opção, mas sim de natureza. Escrevemos aquilo que somos e não como gostariamos de ser. Tendo-se uma estrutura de carácter excessiva, barroca, não se pode escrever de forma neo-clássica, por exemplo. A maneira como se escreve, o estilo que se adopta, é reflexo da maneira com somos construídos por dentro, isso não se pode alterar com facilidade.

- Suponho que possui uma certa pulsão para o perfeccionismo.

Sem dúvida. Não sou capaz de escrever seja o que for senão em termos de uma grande exigência comigo próprio. Quero assumir a responsabilidade por tudo o que escrevo. Gosto de responder por aquilo que faço de uma forma absoluta e isso leva-me a não poupar esforços para que aquilo que escrevo corresponda o mais exactamente possível àquilo que quero.

- A ignorância não serve de desculpa para o erro…

Acho que assim como se diz que a ignorância da lei não aproveita a ninguém, não entendo que um autor se possa acobertar de qualquer desculpa baseada na ignorância. O leitor tem o direito de exigir o máximo do autor e o autor tem o direito de produzir esse máximo sem se preocupar excessivamente com a opinião do leitor.

- É precisamente o seu caso, é, indubitavelmente, um dos romancistas portugueses mais exigentes para com os seus leitores…

…mas essa exigência começa por mim. Sou exigente comigo e depois, evidentemente, as pessoas que me lerem são livres de aceitar, não aceitar, de entender, de não entender. A função de escritor não é tornar-se legível. A função do escritor é tornar-se autêntico.

(continua)