Thursday, September 28, 2006

Reportagem: Salas de ensaio - parte I

1. Quatro paredes e outros tantos acordes.

Viagem pelas mais recentes e carismáticas salas de ensaio e gravação da cidade do Porto. Oportunidade para conhecer por dentro os locais onde bandas consagradas e novos talentos partem cordas, esfolam dedos e colocam toda a sua arte e engenho ao serviço da música. São espaços reservados, abertos até de madrugada, com histórias para contar, sons para descobrir e conselhos para guardar. Das lojas no centro da cidade até insuspeitos escritórios na periferia, passando naturalmente pela Ribeira de olhar voltado para o Douro, segue-se um acidental e nocturno percurso com banda sonora a cargo dos Repórter Estrábico, Checkpoint Charlie e StrangeVersion.

“Centros comerciais são centros culturais.”
Uma das grandes tendências das bandas em busca de uma sala de ensaio é a ocupação de centros comerciais. Neste admirável novo mundo, o espaço com maior número de bandas por metro quadrado na cidade do Porto é indubitavelmente o Stop. Mais de duas vintenas de projectos habitam a histórica catedral do consumo dos anos 80, actualmente transformada em metrópole do som. Longe da glória de outros tempos, vetada ao declínio pela ascensão dos shoppings de periferia, a antiga superficie comercial da Rua do Heroísmo alberga um número volátil mais crescente de bandas que alugam lojas entre o 2º e 3º piso. Na entrada, um placard antecipa o ambiente musical, anunciando: “Garagem das Guitarras/oficina no nº106”. Dois andares mais acima, pioneiros neste movimento de “ocupação”, encontramos os Repórter Estrábico, os primeiros a invadir o Stop, corria o ano de 1987, inaugurando uma migração de colectivos dos quatro cantos da cidade para o carismático centro comercial.
No número 316, encostados à não menos conhecida danceteria “Porto à Noite” nasceram os temas do excelente “Eurovisão”. Inteligentes e atentos ao fenómeno, o colectivo sentencia: “Se o Dallas tivesse aberto as lojas às bandas provavelmente ainda estaria aberto”, afirma Luciano Barbosa. Para o Líder, “existe aqui um certo retrato marginal do Porto que nos atrai”. Com vinte anos de actividade, mais de metade dos quais ensaiados entre estas quatro paredes, o projecto conhece como poucos as estórias de um espaço que tem acolhido ao longo da última década e meia personagens tão carismáticas como marginais da noite do Porto. De góticos a fadistas, de ritmos africanos ao metal, de prostitutas a senhoras de bem. No Stop ouve-se e vê-se um pouco de tudo, o lado mais cosmopolita e marginal da Invicta. “Já tivemos uma casa de fado mesmo aqui ao lado. Lembro-me da D. Rosa, boa voz, tinha o marido na prisão. Uma simpatia”, recorda o Líder. “Mais do que um centro comercial, o Stop é um centro cultural”, afirma o vocalista do RP.
Existem duas grandes vantagens no aluguer de uma loja num centro comercial para ensaio. A primeira é a segurança. O colectivo reforça essa ideia adiantando que nunca foram assaltados e “até já deixámos as portas abertas e o material na meio do corredor. É o privilegio de ter boa vizinhança”, afirmam. Outra das grandes mais valias é a privacidade. Não têm de dividir o espaço com ninguém. As paredes da sala vestem-se de recordações de 20 anos de actividade, uma espécie de segunda pele tatuada de “souvenires”. Do fio dental da capa de “Eurovisão”, ao charuto do vídeo “Biltre”, passando por “posters” e “creditações” de concertos. Entre ícones religiosos e pornográficos, o espaço reflete a dimensão pop-satírica, inteligente e criativa de um dos colectivos mais carismáticos e cativantes da cidade. “Esta sala não tem nada a ver com os Galitos da Foz onde ensaiávamos. Aqui temos mais espaço, intimidade, um ambiente interessante, onde tudo pode acontecer”, afirma o Líder recordando ainda que quando ensaiaram o tema “Caracoroismo”, do mais recente “Eurovisão”, tiveram um senhor africano, cliente de um restaurante das vizinhanças, a dançar cuduro à porta da sala de ensaios.
Para além do Stop, existem outros espaços comerciais de menor dimensão que também albergam projectos musicais. Roteiro complementar inclui, entre outros, o Sírius por onde passam entre outras bandas X-Wife, Prostitutes e Holocausto Canibal.




(continua)

8 comments:

André Carita said...

anastacio neto, viva!
não sei se ainda se lembra de mim, mas decidi passar por aqui e dizer que fiquei satisfeito por ver novamente este espaço com actualizações e uma mudança na sua estética!

aproveito para o convidar a visitar o meu novo espaço..
votos de excelentes actualizações
Os meus cumprimentos!
André Carita
http://pensarvideojogos.blogspot.com

karvoeiro said...

tou interessado na saga... até porque me vou mudar para o porto... boa continuação...

angelofpromise said...

Olá novamente Anastacio, descobri o teu blogue porque andava precisamente à procura de uma casa no Porto ( que vai abrir ou já abriu) dedicada a bandas de música, onde qualquer banda pode actuar. A casa chama-se precisamente Vícios. Não consigo descobrir onde é, por acaso tens alguma informação?

Obrigada pela tua disponibilidade.

Anastácio Neto said...

cara angel

espero que tenhas recebido o mail just in case deixo o coment

sinceramente não conheço o referido espaço, "vício", no entanto, se ouvir falar de alguma coisa não deixarei de te alertar...

angelofpromise said...

Obrigada...
Continuarei no vício...

Anastácio Neto said...

angel li qualquer coisa sobre o "vício" no "Sol" on line, aqui vai o link
http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Cultura/Interior.aspx?content_id=7402

angelofpromise said...

Muito muito obrigada :-).

Pelo que escreves julgo que a notícia também te deve ter agradado.

Mais uma vez obrigada e voltarei sempre ao Vício das letras e das artes ;-)

Anastácio Neto said...

De nada "angel", volta sempre. Sim e tens razão, a notícia é do meu agrado...