Thursday, November 23, 2006

Livros da minha vida: "O Lobo das Estepes", Hermann Hesse

Conheci Hermann Hesse num domingo de Novembro, em 1998. Estava em Lima, a passear por uma feira clandestina de literatura. Aos domingos em certas zonas da capital peruana, centenas de stands invadiam algumas das mais discretas avenidas da cidade, colocando à disposição dos amantes da literatura pouco endinheirados milhares de títulos fotocopiados. Os preços das obras dependiam da qualidade da falsificação. A iniciativa destas feiras era uma resposta do povo à censura comercial da presidência de Fujimori que taxava os livros com imposto de luxo de 40 por cento, com preços de algumas obras a atingirem os 40 ou 50 dólares, um ordenado portanto.
Com 20 dólares no bolso era um milionário podia comprar 150 cópias de média qualidade. Na altura, acompanhava-me Jorge, um padre mexicano que adorava ler e trabalhava numa paróquia três vezes maior do que Lisboa. Nunca mais me esqueço, um dia em que chegou da Igreja a rir. Mostrou-me um buraco na camisa: "estava à espera do autocarro, ouvi uns tiros, senti uma picada, quando olhei para a camisa reparei que estava furada", disse-me. Eu completamente arrepiado e ele a sorrir. Fé. Actualmente quando me falam da Igreja Católica, normalmente divido em duas, a Romana e a Latino-americana. O que a primeira tem de poder político a segunda tem de fé. As eucaristias celebradas pelo Jorge em nada se parecem com as nossas aqui em Portugal. De regresso à literatura e à avenida, perdido num verdadeiro oceano de livros, antes de me afogar pedi ajuda ao Jorge que me apresentou "Siddhartha", de Hermann Hesse. Um padre católico a empurrar-me para um livro inspirado na vida de Buda. Enfim. Devorei o romance de Hesse em poucos dias. Livro iluminado, leve, mas profundo, capaz de elevar sentidos ocultos de palavras e personagens tão cativantes, quanto misteriosas, e penetrar nas profundezas das alma humana. Poderoso. Seguiu-se "O Lobo das Estepes". Da luz para a escuridão, saltar de "Siddharta" para "O Lobo das Estepes" é como estar na India a levitar ao som de Ravi Shankar para depois cair para a noite nova-iorquina do Velvet Underground. Que livro. Como me identifiquei com esse Lobo das Estepes... A solidão dos que pensam com profundidade, que procuram sentidos com paixão, com desespero. Introspecção, noite, solidão, presos entre o céu e a terra, só alguns homens atingem a lucidez delirante e solitária deste magnífico "Lobo". Apaixonei-me por Hesse ao deliciar-me com duas obras de uma amplitude e densidade tão diversas e profundas. Depois, li mais uma meia-dúzia de livros de Hesse, todos excelentes, mas "O Lobo das Estepes" é daquelas experiências que só se tem uma vez na vida... um livro que arranha o mais profundo a alma humana. Poucos escritores conseguem penetrar na beleza poderosa e significativa das coisas aparentemente simples como Hesse. O Mozart da literatura. Merecido Nobel. "O Lobo das Estepes" é, de facto, um dos livros da minha vida. Recomendo a quem ainda não teve o prazer de o ler, esperando que tenha tanto prazer em lê-lo quanto eu tive... boas leituras.

4 comments:

Isabel Mar said...

gosto de Hermann Hesse sim... mas prefiro outros mais labirínticos, mais mistriosos... já experimentaste Jorge Luís Borges? é um espanto ... lê-lo é como entrar num túnel e cair em espiral numa vertigem de sensações... eu adoro JLB...

Isabel Mar said...

errata: queria dizer «misteriosos»

musalia said...

seguirei a tua recomendação, assim que me for possível.

bj.

Livros & Literatura said...

Parabéns pelo texto. Rubem Alves é um escritor fantástico. Marcela Vieira.

"Quantas pessoas começaram uma nova era em suas vidas a partir da leitura de um livro..... " (Henry David Thoreau)