Friday, May 13, 2005

"Espelho Mágico" de Manoel de Oliveira

Terminaram ontem no Porto as filmagens com actores do mais recente trabalho cinematográfico de Manoel de Oliveira. Tive a oportunidade de apanhar as últimas rodagens em território nacional, conversar com o realizador e com alguns elementos do elenco e equipe técnica. "Espelho Mágico" é a adaptação de "A Alma dos Ricos", segundo capítulo da triologia de Agustina Bessa-Luís iniciada com "O Princípio da Incerteza". Tratado dentro e fora do plateau como o Mestre, Oliveira filma como um artesão. A trabalhar pela primeira vez com Manuel Cadilhe, da Filbox, que assim sucede a Paulo Branco, com quem Oliveira colaborou desde "Francisca" (1981) a "O Quinto Império: Ontem como Hoje" (2004), o decano dos realizadores portugueses revela-se mais activo que nunca, confessando-se a correr contra o tempo. Obedecendo e reinterpretando a obra original, Oliveira recupera o essencial da narrativa de "Alma dos Ricos". Já com José Luciano fora da prisão, a filme gira em torno do desejo da abastada Alfreda em experienciar uma aparição da Virgem Maria. O ex-recluso, filho da governanta da casa terá de entrar em contacto com toda extensão e profundidade dos delírios, vícios e desesperos que habitam a alma dos ricos. Ricardo Trepa (neto do realizador), Leonor Baldaque, Leonor Silveira, Isabel Ruth formalizam parte do elenco. Estreia mundial está agendada para Setembro no Festival de Veneza. O público português terá a oportunidade de ver os primeiros reflexos do "Espelho Márgico" em Outubro/Novembro, via Lusomundo. Cinema de qualidade internacional feito em Portugal com 1.7 milhões de euros. Nos EUA, "Constantine" custou 350 milhões e daqui a dois anos já ninguém se lembra do título. A obra de Oliveira, essa fica bem para além do imediato e dos sucessos de bilheteira. Há quem adormeça a ver "Vale Abraão", mas há quem adormeça a fazer amor.

2 comments:

musalia said...

o belissimo Vale Abraão! como se pode adormecer...nos dois contextos?!...:)

paralelo/36 said...

Confesso que já adormeci, no cinema, nos concertos, no sexo, no teatro...
Mas o que conta é a qualidade do adormecer: Entediado, aborrecido ou extasiado.
Pode parecer estranho adormecer extasiado, mas não sei o que dizer do que me aconteceu, numa das vezes que vi "Vale Abraão", num concerto da Maria João Pires ou no filme "Martha" do Fassbinder.
Será que estava cansado.
Eu só lhe quero chamar êxtase.